Penso que este é um excelente péssimo exemplo do modo como os sucessivos governos descuraram os idosos deste país. A alteração do valor da coima para o funcionamento de lares clandestinos tem implicações várias. Umas financeiras, outras relacionadas com a substância da actividade, e outras que devem ser entendidas no presente contexto económico e social de Portugal. Em primeiro lugar, mesmo que haja prevaricação e a prática do ilícito, quem sai a ganhar é o governo ao arrecadar multas de valor muito mais significativo. A decisão sancionatória assemelha-se ao agravamento de multas de trânsito. Não proíbe a circulação, mas afecta o movimento. Ou seja, a dimensão qualitativa nem sequer é posta em causa de um modo sério, o que implicaria, em última instância, o encerramento definitivo dos alegados lares de terceira idade. A mensagem que passa é a seguinte: “paga lá a multa e liga a máquina outra vez”. Decerto que ninguém discordará que os lares ilegais desacreditam por completo uma sociedade, e demonstram como existem “traficantes de séniores”, sem escrúpulos, dispostos a explorar seres humanos até à sua derradeira batida cardíaca. No entanto, referimo-nos apenas ao lado da oferta, e devemos arrastar para a conversa o conluio eticamente questionável de familiares, que tendo consciência perfeita da ilegalidade dos estabelecimentos, acabam por optar pela solução baratucha do sub-mundo, da máfia das noites em claro. Os valores praticados por estas “casas” não certificadas são irrisórios quando comparados com os preços praticados por lares autorizados – não admira que a canja parece águada e os lencóis estejam borrados. Contudo, existe ainda outra dimensão que ameaça o sector dos idosos. A austeridade que Portugal implementou, gerou e gerará efeitos na textura social do país. Por um lado, a falência das famílias coloca ainda mais pressão sobre os cuidados que os familiares de idade avançada merecem. As rendas mensais exigidas pela cama e roupa lavada não serão honradas, e, na escala qualitativa dos cuidados prestados, estes terão tendência a se tornar ainda mais precários e de qualidade totalmente inaceitável. Numa visão estrutural e de longo prazo, a baixa taxa de natalidade de Portugal significará o engrossar da faixa etária de idosos neste país. Ou seja, se não houver uma alteração dramática da actual situação económica e social do país, Portugal corre o risco de se tornar num imenso lar de terceira idade. Quanto à legalidade ou não dos lares, este aspecto tornar-se-á secundário e dispensável à luz de questões de vida ou morte, de sobrevivência. A decisão que acabam de anunciar, define, de um modo claro e inequívoco, a insensibilidade do governo em relação à situação particularmente dramática que o país atravessa. Esta decisão acelera o processo de putrefacção, e não concede um palmo de esperança àqueles que ainda não morreram completamente. É triste, é trágico. Não encontro a campa adequada para descrever o que não consigo imaginar.
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