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Greek refer end? um…I wonder.

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Tsipras e Varoufakis assumiram que o conceito de liberdade e dignidade lhes pertencia. Interpretaram de um modo ruinoso a vontade do povo grego. Declararam unir um país, mas a escassas horas de um Referendo histórico com impacto para os demais cidadãos da Europa, a Grécia está efectivamente dividida. Amanhã saberemos se estes governantes são autores de um memorando conducente a pânico, caos, quiçá guerra civil. Numa óptica de custos/benefícios para o cidadão helénico saem perdedores. Se era este o modo de forçar a alteração do status quo da União Europeia, serão bem sucedidos, mas à custa de prestações de forasteiros, o desgaste de nações distantes. Serão os membros da União Europeia a suportar a mudança induzida por catalisadores positivos ou de ruptura. A teoria de jogo, o dilema de prisioneiros, ou qualquer outro mindgame que tenham elegido como instrumento de aquisição de vantagens económicas e políticas, parte de um pressuposto eticamente questionável – a ideia de que o sacríficio alheio deve ser promovido para granjear vantagens domésticas. Quando Tsipras invoca a Europa unida e solidária, fá-lo de um modo teórico e abstracto. Enuncia princípios, mas lança dissensão na sua própria casa. Ou seja, nem filosoficamente oferece um bom exemplo.  Ao fim e ao cabo das tormentas do povo grego e de cinco meses de negociações, sabemos que a Grécia irá necessitar de pelo menos 50 mil milhões de euros para continuar a sobreviver e porventura reclamar ainda mais. Há alguns dias houve quem tivesse comparado a Grécia à União Soviética no limiar do descalabro desta. Em dose hiper-concentrada, a Grécia do Syriza, qual bolchevique anão, é uma espécie quase soviética a caminho do descalabro ideológico. Os soviéticos em 1992 já estavam a viver dias de controlo de capitais, falta de alimentos, enquanto emergiam actores da penumbra sinistra da sociedade. Foi nesse ambiente de ruptura que nasceram oligarcas e capitalistas com um particular sentido democrático. A Grécia, berço dos Estoicos entre outros, quer emular-se na invenção filosófica. Mas convém relembrar que a racionalidade e a ética não caminham necessariamente de mãos dadas. O povo sabe-o. E o Referendo reflictirá a verdade. A verdade será o que acontecer e não o que foi prometido.

Setenta anos depois

 

No país que se situa nas imediações das Berlengas, eles parecem sempre muito justamente irritados com os casos de corrupção que se tornaram na imagem do regime. Vociferam contra os banqueiros e políticos a soldo, apontam exemplos suficientes para a compilação de vários almanaques de falcatruas, apresentam-se como autarcas exemplares. Paradoxalmente, consideram os eventos posteriores a 1989, como calamidades que destruíram um mundo idílico.

 

Desde o primeiro momento do arriar da bandeira vermelha nas sedes de governo de todas as capitais do leste europeu, ocorreu algo de inesperado. Miraculosamente brotou uma infindável safra de desapiedados capitalistas, apossando-se das empresas que a propaganda dizia serem propriedade do povo. Os sicofantas do PCUS souberam recauchutar-se e o dinheiro apareceu como a chuva de outono. Sabiam-na toda, desde as formas como coagir o mercado, até às manobras bolsistas, transferências de capital, subornos, coacção moral e física, compras a eito no ocidente e claro está, a garimpagem de esconderijos para o seu dinheiro de questionável proveniência. No campo político, logo aqueles países assistiram a virulentos nacionalismos que ameaçaram a ordem internacional e sobretudo, emergiram organizações que em nada ficavam a dever àquelas que nos anos quarenta se apresentaram como co-beligerantes na cruzada nacional-socialista contra Estaline. Existe um país onde a comparação pode e deve ser feita como bom exemplo das estranhas lições e práticas ministradas pelos obedientes seguidores de Moscovo. Na Alemanha, bastar-nos-á consultar os resultados das sucessivas eleições locais ou nacionais ocorridas desde a reunificação, para ficarmos cientes das enormes diferenças quanto à receptividade da mensagem dos herdeiros do III Reich. No território da antiga RDA, os camisas castanhas são incomparavelmente mais representativos, enquanto na zona ocidental consistem num episódio residual.

 

Sabemos o que se passa na Polónia, na Hungria, nos países bálticos, nos territórios da desaparecida Jugoslávia e na Roménia. Na própria pátria-mãe do comunismo, as últimas semanas têm-nos mostrado discursos oficiais carregados de antifascismo, mas a verdade é outra. Pululam os grupos de vigilantes, os Sieg Heil fazem parte dos pregões urbanos e se são agora secundarizados pelos media, tal se deve aos acontecimentos ucranianos. Mais a ocidente, na Ucrânia, todos vimos quem tomou parte muito activa no derrube do governo de Ianukovich e também conhecemos a origem e significado daquela bandeira preta e vermelha que flutua sobre os edifícios de Kiev. Dir-se-ia que a gente de Bruxelas foi acometida de loucura colectiva, envolvendo-se neste imbróglio demasiadamente paralelo aos acontecimentos imediatamente anteriores ao assassinato do arquiduque Francisco Fernando. 

 

Mais de sete décadas de regime soviético, uma sangrenta guerra russo-alemã – com participação finlandesa, eslovaca, italiana, croata, húngara, rexista belga, voluntária francesa, etc – e o resultado do regime do PCUS está à vista. 

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Ucrânia

“Diz-se que” hoje foi derrubada a estátua de Lenine em Kiev. Segundo a versão dos antigos tutores do partido de Jerónimo de Sousa – previsivelmente corroborada pelos organizadores da festa do Avante! -, o genocídio ucraniano nunca exiistiu e tudo aquilo que este filme mostra, não passa de propaganda de “antigos colaboracionistas nazi-fascistas”.
 

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Estórias da história (2): os idiotas úteis

 

Cunhal e o seu suserano Leonid Brezhnev

 

No pós-guerra, os pc europeus seguiram religiosamente as directivas da igreja-mãe de Moscovo, procurando a todo o transe o arrebanhar de “democratas de todos os sectores” que pudessem legitimar o necessário frentismo que solidificasse o poder instalado pela força do exército vermelho. Se no leste, o caso alemão parece ser aquele mais evidente – o SED que oficialmente e na prática era uma Frente Nacional composta pelos agrupamentos políticos que iam do velho KPD aos ex-nacional socialistas do NDPD -, na Europa ocidental, os pró-soviéticos foram-se adaptando às realidades de cada país, procurando soluções que não apenas lhes garantissem uma permanência parlamentar, como, sobretudo, uma clara predominância na imprensa escrita, televisão e no campo sindical. E assim continuamos.

 

O caso português é tardio, já no alvorecer da decadência da potência soviética. A ilusão da possibilidade do queimar de etapas e forçar o passo apesar de uma esmagadora maioria eleitoral contrária ao projecto, levou o PC a actuar de forma precipitada – digam as Raquéis Varelas e afins o que quiserem dizer – e sem qualquer consideração pelas imediatas e previsíveis consequências no país e no estrangeiro. Tal foi o Caso República, ainda hoje um bom exemplo a apresentar aos bens instalados burgueses gauche – a quem os comunistas normal e risonhamente denominam de “idiotas úteis”, chamem-se eles Câncio, Isabel Moreira, uns tantos assalariados do plutocrático sr. Balsemão, ou este e aquele sonante nome da blogosfera. Sem quaisquer comentários, deixemos então Raul Rêgo explicar, pois a temática ainda é actual:

 *****

“Depois de 48 anos de vida condicionada por uma censura implacável, a Imprensa portuguesa teve, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, um período de euforia sem barreiras, em que se atropelavam os direitos e os deveres mais elementares. A liberdade confundia-se com irresponsabilidade.

 

Bem curioso o facto de alguns dos jornais e dos jornalistas mais subservientes no tempo de Salazar e de Caetano se terem tornado mais contestatários, logo depois da revolução, capazes de saltarem todas as barreiras e de enfrentarem todas as decisões ministeriais. O Processo Revolucionário tudo justificava, até o destruir de qualquer deontologia e atropela a mais elementar das verdades. Nem falemos do bom-senso.

 

Ao fim de um ano de Revolução, e publicada, em Fevereiro de 1975, a Lei de Imprensa mais liberal de toda a a Europa, essa mesma lei começou a ser desrespeitada tanto no que se refere à administração e propriedade dos jornais como ao conteúdo dos mesmos.  Nalguns casos, era como se todo o jornalismo pudesse escrever seja o que for sem atentar nem na lei nem na orientação do jornal.

 

Esta escalada anarcopopulista na Imprensa começou todavia a ser controlada por um sector. A grande maioria dos jornais diários começou a sofrer uma manipulação violenta, uma censura interna feroz, de um só sector a impôr-se a todos os mais. No jornal “República”, que sempre resistira às imposições da ditadura e que contava entre os seus trabalhadores elementos de todas as tendências da Oposição democrática, a desestabilização  foi-se acentuando, na Redacção primeiro e nas oficinas depois. Um grupo de redactores comunistas, com o director comercial, sob pretexto de o jornal fazer a política do Partido Socialista (o que não era exacto), atacava a Direcção e a Administração. Em Abril, depois de vencidos em plenários de Redacção, esses elementos saíram ostensivamente, julgando assim que abalavam o jornal. Ficava o director comercial, comunista, e alguns tipógrafos também comunistas, com outros elementos esquerdistas. A luta prosseguiu até ao sequestro da direcção, redacção e administração, por parte dos insatisfeitos, que fizeram sair o jornal de 19 de Maio de 1975, com o nome do director comercial à cabeça.

 

Encerrado o jornal, a repercussão na opinião pública foi enorme. Passou para além-fronteiras. os grupos da direcção e redacção, unidos, fizeram sair o “Jornal do caso República”, embora algumas tipografias onde pontificavam as pressões de momento se lhes tenham fechado.

 

No número de 21 de Junho de 1975, o 7º “Jornal do Caso República” dava a notícia de um documento “ultra-secreto”, elaborado por Boris Ponomariov e que, por “falha no sistema de protecção”, fora já publicado nalguns jornais europeus. Entretanto, esse mesmo documento era publicado no “Quotidien” de Paris.

 

A reacção dos partidos comunistas português e francês foi enorme. Álvaro Cunhal, no “Avante” de 3 de Julho seguinte, dizia: “Como entende o Jornal “República” a liberdade de expressão e o seu exercício? Num número com data de 21 de Junho e largamente reproduzido no estrangeiro, publica, entre outras coisas, um documento falso e provocatório, que segundo diz, conteria as “instruções de Moscovo” para os partidos comunistas da Europa. Desde logo afirma que o P.C.P. estaria seguindo tais instruções… Esse mesmo documento, que, pelo próprio conteúdo, se vê ter sido fabricado pelas centrais internacionais de diversão ideológica e da contra-revolução, é típico dos métodos fascistas do anticomunismo, digno não das páginas de um jornal que se diz democrático mas do “Diário da Manhã” ou da “Época” de outros tempos.”

 

Não seguimos a citação, por não valer a pena. Acrescentamos todavia que o P.C.P. apresentou até o caso na Polícia Judiciária, onde eu fui chamado; mas o caso era tão claro que nem seguimento teve…

 

Com efeito o documento não era falso e nem se podia já dizer secreto. Ao contrário do que dizia Álvaro Cunhal, nem era “falso” nem “provocatório”. Tanto assim que, passados dias, de insultarem o “República” por o publicar e de o classificarem de falso e provocatório, a editorial Avante, editora do órgão oficial do P.C.P., publicava na íntegra, sob o título “A Situação Mundial e o Processo Revolucionário”, o artigo de Ponomariov, do qual o documento citado é uma síntese.

 

Enquanto reconheciam implicitamente ser exacto o documento publicado no “Jornal do caso República”, na nota prévia continuavam a insultar o “República” e os seus redactores e director. Que se lhes há-de fazer? O totalitarismo não é outra coisa.

 

A imprensa portuguesa da altura estava dominada pelo P.C., com o Diário de Notícias à cabeça. 

 

E no mesmo artigo de Boris Ponomariov se encontravam frases, como esta: “O papel dos meios de comunicação de massa na actual luta sociopolítica aumentou em proporções que não têm precedentes nas revoluções do passado. A experiência do Chile convence-nos de que para alcançar a vitória é preciso suprimir o domínio do inimigo de classe sobre os meios de informação pública e de propaganda.” Não tendiam a outra coisa. Mas, silenciado o “República”, houve a coragem de fazer sair “A Luta” em 25 de Agosto, e a escalada totalitária nos meios de comunicação e na vida política seria quebrada a partir de 25 de Novembro.

 

São do mesmo artigo de Ponomariov também estas palavras: “Quando a revolução tem um desenvolvimento pacífico, reveste-se de importância primordial a tarefa de retirar das mãos dos representantes do velho regime uma alavanca tão importante do poder como o exército e de formar um novo aparelho do Estado., à margem da política.” (As citações fazêmo-las da edição do artigo pelo “Avante”).

 

Temos assim que para o totalitário da esquerda, como para o da direita, o que interessa é o momento e a escalada de momento. Os meios e a dignidade das afirmações passam para segundo plano. A tal ponto de os órgãos de um partido e o seu secretário-geral dizerem, a 3 de Julho de 1975, que “um documento é falso e provocatório” e que “é típico dos métodos fascistas do anticomunismo”, para, quase simultaneamente, publicarem o artigo que é a matriz desse mesmo documento, na editorial oficial do P.C.P.

 

A escalada portuguesa para a democracia tem sido difícil. Muito difícil; mas não o foi só antes do 25 de Abril de 1974.

 

Os aspirantes à ditadura não vêm apenas da direita, nem só estes são golpistas. Quanto ao respeito pela verdade, as provas estão à vista. Estão à vista neste livro em que as técnicas totalitárias quanto à imprensa se nos mostram claramente. Parece-nos que o Homem livre, a sociedade democrática, não são possíveis diante de técnicas de propaganda em que a verdade e sacrificada. Ou melhor: a verdade é sinónimo de conveniência de momento para o respectivo partido.

 

Os documentos analisados neste volume pelo prof. Santanché, durante uma longa permanência entre nós, falam por si.”

 

Raul Rêgo

 

Prefácio de Raul Rêgo à obra Uma Revolução falhada, de Gioacchino Santanche´, Editora Perspectivas e Realidades, Junho de 1980

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Internacionalismo da extorsão

O internacionalismo foi isto, ainda é isto. Durante anos, a China despejou milhões em armas, dinheiro e vitualhas destinadas à Frelimo. Ainda me recordo das periódicas exposições de inacreditáveis montões de material capturado pelo Exército Português, onde se apresentavam metralhadoras ligeiras e pesadas, lança-foguetes, espingardas, granadas, minas, uniformes, munições e uma infinidade de outros artigos militares. Boquiaberta, a população de Lourenço Marques visitava essas autênticas feiras de armas e compreendia que Portugal não estava em guerra com bandos desgarrados que cruzavam o Rovuma, mas pelo contrário, enfrentava entre outros, dois temíveis inimigos: a União Soviética – e os seus colaboracionistas portugueses dentro e fora de portas – e a China do Sr. Mao Tsé. 

 

Hoje sabe-se o que representou essa interesseira ajuda, onde até pontificou o risonho Olof Palme, esse mesmo que acabaria numa esquina de Estocolmo e às mãos de um terrorista. Traduziu-se naquilo a que numa primeira fase pós-1974 se denominou de “cooperação”, logo chegando em tropel manadas de búlgaros, russos, chineses, suecos e outros nórdicos “nossos aliados” – tubarões da pior espécie que tomaram de assalto as florestas e o sector de transportes -, alemães da zona ocupada, checos e cubanos. Repimpadamente se instalaram nas suas novas colónias de exploração e ditaram a lei a um país que decorridos dez anos, tinha visto a população reduzir-se em mais de um milhão de pessoas mortas à fome e pela guerra civil.

 

O saque não se cingiu a Moçambique, pois em Angola ainda foi mais radical e em todos os sectores, sabendo-se por exemplo, o que sucedeu ao hospital central de Luanda. Perfeitamente equipado pelo governo português, foi de todo o seu material despojado pela gente de Fidel Castro, colocado em contentores e enviado para Havana.

 

Continua a senda do internacionalismo, desta vez com a quase exclusiva benemérita acção da China. O sector das madeiras é um dos alvos mais apetecíveis, assanhadamente destruindo florestas e complementando outras malfeitorias que durante décadas arrasaram as pescas, a vida selvagem – elefantes, crocodilos, rinocerontes –  e cavocando o solo, extraíram prodigiosas quantidades de  minérios. 

 

O internacionalismo, esse belo investimento com garantido retorno usurário.

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Como é que é possível debater racionalmente com indivíduos irracionais?

 

1 – Folgo em ver que, como o Miguel Botelho Moniz salientou, o Tiago Mota Saraiva parece já ter aprendido que comunismo e fascismo são duas faces da mesma moeda. Não perdeu, contudo, uma certa ignorância e/ou má-fé, na medida em que afirma que o liberalismo é igual ao fascismo. A isto, só se pode oferecer sugestões de leitura e uma grande dose de bom senso, coisa que não abunda entre comunistas. Talvez começar por um bom manual de Ciência Política e/ou História das Ideias Políticas seja uma boa ideia. Se depois quiser mais sugestões, o Tiago sabe onde me encontrar.

 

2 – Diz o Tiago que os meus posts (PatéticoPatético (2)Patético (3); Patético (4)), não têm conteúdo. Referindo-me ao ponto anterior e ao título, mas que espécie de conteúdo é que pode ter algum texto destinado a debater com indivíduos irracionais que defendem a ideologia mais criminosa da História, que estes possam compreender e não deturpar e manipular como fazem a todo o momento? O meu tempo é demasiado precioso para me perder em debates espúrios, mas se o Tiago quiser, pode sempre começar por este meu texto, ou pelo que encontrará no fim deste post, da autoria de John Gray. Cada qual tem que procurar por si o conhecimento. Infelizmente, há quem não o procure, não exerça a dúvida, e se deixe apenas ficar pela doxa e pelo dogmatismo. Mas, novamente, se quiser sugestões de leitura, o Tiago sabe onde me encontrar.

 

 3 – Já o João José Cardoso, à semelhança do Renato Teixeira, dispara completamente ao lado. Só realmente quem não me leia ou conheça (e obviamente ninguém tem obrigação de me ler – só se poupa a umas valentes secas se não o fizer), pode confundir-me com alguém de extrema-direita e/ou defensor de ditaduras. De resto, ler The Undiscovered Self, de Jung, talvez ajude a perceber porque ser comunista pode ser um sintoma de insanidade. A este respeito, num texto a que aludi no ponto anterior, classifiquei há cerca de 2 anos os comunistas em três grupos: estúpidos, ignorantes e tenebrosos. A vanguarda, que de estúpida ou ignorante costuma ter pouco, pautando-se mais pela má-fé e manipulação, recai no terceiro grupo: Por último, na primeira categoria, a das mentes tenebrosas, incluem-se todos aqueles para quem a verbosidade pseudo-científica do comunismo faz sentido, embora em parte possam ser ignorantes, caso desconheçam os postulados teóricos e práticos da ideologia que dizem defender; estúpidos, ao acreditarem que o comunismo faz sentido; ou então completamente tenebrosos e perigosos: sabem muito bem o que é o comunismo, conhecem os efeitos das suas várias experiências reais, e ao contrário dos da segunda categoria, acham que os fins justificam os meios, não hesitando em relativizar milhões de mortos, demonstrando um total desrespeito pela vida humana. São sanguinários em potência, que num sistema que lhes permitisse dar largas às suas crenças, não hesitariam em voltar a repetir e agravar o tipo de atitudes que caracterizaram a União Soviética ou o PREC. Consideram Cuba um país magnífico, têm Fidel Castro e Hugo Chávez como referências e chegam ao dislate de considerar a Coreia do Norte uma democracia. Não hesitariam em sacrificar milhões de pessoas para alcançar os supostos benefícios que o Apocalipse traria. Têm ainda por hábito as práticas do negacionismo e manipulação da História, tentando escamotear a realidade e moldá-la aos seus propósitos, tal como George Orwell ilustrou na famosa distopia intitulada 1984.

 

4 – Num comentário, diz o Renato que “O comunismo não é o que foram os regimes estalinistas. Essa confusão devia estar, há muito, esclarecida.” Este muito badalado argumento, além de banal é também inválido. O estalinismo é consequência directa do leninismo. E só quem não saiba o que Lenine ou Trotski pensaram ou fizeram pode esgrimir o argumento para enganar os mais desprevenidos de que “aquilo não foi comunismo.” Foi comunismo, sim, em todo o seu esplendor, com todas as consequências do utopismo do pensamento marxista, e levado a cabo por indivíduos que teorizaram e acreditavam na utilização do Terror para os fins do comunismo. Não é possível dirigir uma economia centralizada e um regime político anti-democrático sem utilizar a coerção, a força. Talvez se lessem Hayek, percebessem como funciona uma ordem de organização ou made order e por que é que, aplicado a um regime político, este tipo de ordem se torna totalitário e necessita da utilização da força e da violência para se manter. Para que não digam que vão daqui sem conteúdo, deixo umas passagens de A Morte da Utopia, de John Gray:

 

«O terror do tipo praticado por Lenine não pode ser explicado pelas tradições russas nem pelas condições que prevaleciam no tempo em que o regime bolchevista chegou ao poder. A guerra civil e a intervenção militar estrangeira criaram um ambiente em que a sobrevivência do novo regime estava ameaçada desde o início; mas o pior do terror que desencadeou foi dirigido contra a rebelião popular. O objectivo não era apenas ficar no poder. Era alterar e remodelar irreversivelmente a Rússia. A partir dos jacobinos, na França do fim do século XVIII, passando pela Comuna de Paris, o terror tem sido usado deste modo sempre que uma ditadura revolucionária se inclina para atingir metas utópicas. Os bolchevistas visavam tornar bem sucedido na Rússia um projecto iluminista que tinha falhado em França. Ao acreditarem que a Rússia tinha de ser construída segundo um modelo europeu, não eram originais. No que se distinguiam era na sua convicção de que tal exigia terror e nisso eram discípulos confessos dos jacobinos. Sejam quais forem os outros fins que possa ter servido – como a defesa do poder bolchevista contra a intervenção estrangeira e a rebelião popular -, o uso do terror por Lenine decorreu do seu empenho nesse projecto revolucionário.

 

 

Lenine apresentou a sua visão da sociedade que visava atingir no seu livro Estado e Revolução. Escreveu esse opúsculo utópico em Agosto-Setembro de 1917 quando estava na Finlândia, escondido do Governo provisório russo e, originalmente, pretendia que aparecesse sob pseudónimo. A história andou mais depressa do que ele esperava e surgiram exemplares como o seu nome em 1918, tendo aparecido uma segunda edição um ano mais tarde. Lenine atribuiu alguma importância ao livro, dando instruções para que, se fosse morto, ele fosse, ainda assim, publicado a todo o custo. Continua a ser o melhor guia da sua imagem de futuro.

 

Estado e Revolução tem fortes raízes no pensamento de Marx. Citando a ideia de ditadura do proletariado que Marx cunhara numa carta de 1852, Lenine usa a Comuna de Paris de 1870-71 como modelo para o governo revolucionário da Rússia e do mundo. No futuro, não haveria estado no sentido em que se entende nos tempos modernos. Seriam abolidos os exércitos permanentes e as forças policiais. Toda a gente participaria no governo. Os dirigentes públicos não gozariam de privilégios e receberiam o salário de um trabalhador. Lenine não imaginava que a instauração dessa nova ordem ocorresse sem luta. Uma pequena minoria resistiria e a eliminação dessa resistência era a principal função do novo estado. Lenine não deixava dúvidas de que o novo regime não teria nada em comum com a democracia burguesa. Tal como disse numa nota publicada em 1920, «o temo científico “ditadura” não significa mais nem menos do que autoridade livre de quaisquer leis, absolutamente isenta de restrições seja de que regras for e baseada directamente na força.»

 

Em Estado e Revolução, Lenine afirma que numa ditadura do proletariado não haveria necessidade de coacção das massas, pois o novo regime só existiria para as servir. Ao mesmo tempo, a ditadura teria de agir impiedosamente contra os seus inimigos. Aqui, mais uma vez, Lenine estava apenas a repetir Marx. Na sua comunicação à Liga Comunista, em Londres, em Março de 1850, Marx e Engels dizem claramente que o terror constituirá parte integrante da revolução:

 

“Acima de tudo, durante e imediatamente após a luta, os trabalhadores, na medida do possível, deverão opor-se às tentativas burguesas de pacificação e obrigar os democratas a cumprir as suas directrizes […]. Longe de se opor aos chamados excessos – casos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra edifícios públicos a que estejam associadas recordações odiosas -, o partido dos trabalhadores deve não só tolerar essas acções como dar-lhes uma orientação.”

 

Embora Lenine defendesse – seguindo Marx – que o terror apenas seria usado contra reminiscências da velha ordem, na verdade ele virou-se com mais gravidade contra os operários e os camponeses. Em parte, isso pode ser explicado pelas circunstâncias em que os bolchevistas tomaram o poder. A Revolução de Outubro foi um subproduto da Primeira Guerra Mundial e do caos que se seguiu na Rússia. O novo regime soviético enfrentou vários anos de guerra civil que facilmente podiam ter acabado na vitória dos seus opositores, geralmente referidos como os Brancos. Nestas condições, pode ter sido inevitável algum tipo de governo autoritário. Mas elas não podem ser responsabilizadas pela escala e pela intensidade da repressão bolchevista, que foi o resultado da tentativa de reconstruir a sociedade segundo um modelo impraticável.

 

Desde o início, o estado soviético esteve envolvido em tomadas de reféns, em execuções em massa e na criação de campos de concentração, coisas que não existiam na anterior Rússia czarista. Quando a revolucionária Fanny Kaplan feriu Lenine numa tentativa de assassinato, em 30 de Agosto de1918, aCheka – a Comissão Extraordinária concebida por Lenine a seguir à Revolução de Outubro e fundada em Dezembro de 1917 – recebeu ordens para pôr em prática um «impiedoso terrorismo de massas». Foram executadas centenas de pessoas. Montou-se um sistema de reféns para garantir a obediência em grupos suspeitos – uma inovação que Trotski, um dos pioneiros do terrorismo de estado no século XX, mais tarde defendeu. Foi Trotski que criou os campos de concentração em Junho de 1918, inicialmente para detenção dos checos que combatiam o Exército Vermelho e, depois, para os antigos oficiais czaristas que se recusassem a nele ingressar.

 

(…)

 

A repressão bolchevista da liberdade intelectual também foi de ordem diferente de tudo o que existia antes na Rússia. No passado, vários escritores e activistas políticos tinham sido enviados para o exílio. O escritor radical Alexandre Herzen saiu da Rússia para Paris, Londres e Itália. Lenine passou algum tempo na Sibéria e grande parte da sua vida na Suíça, na Alemanha, na Grã-Bretanha e noutros países europeus. Porém, só depois da tomada do poder pelos bolchevistas é que os intelectuais russos experimentaram a deportação em massa. NoOutonode 1922, dois navios saíram de Petrogrado com a maioria dos membros criativos da intelligentsia russa a bordo – escritores, filósofos, críticos literários, teólogos, historiadores e outros – que Lenine tinha seleccionado para emigração involuntária. Presas pela polícia política, a GPU, essas figuras russas eminentes foram deportadas (juntamente com as suas famílias) porque não estavam sintonizadas com o novo regime. O episódio passou quase despercebido na altura e mal foi mencionado durante a Guerra Fria. Os expulsos instalaram em Paris, Berlim, Praga e noutras cidades da Europa, alguns deles – como Nikolai Berdiaev – criando uma nova vida e muitos outros desaparecendo na pobreza e na obscuridade. Lesley Chamberlain, que fez o primeiro relato global da deportação em massa, assinala que essa negligência «é tanto mais espantosa quanto foi o próprio Lenine, líder dos bolchevistas e fundador da União Soviética, que foi o cérebro da deportação e escolheu muitas das suas vítimas pelo nome.» Comenta que «embora nunca se pudessem descrever a si próprios dessa maneira, os expulsos de 1922 foram os primeiros dissidentes do totalitarismo soviético.» É uma descrição que capta a novidade do regime de Lenine.

 

Os métodos de repressão usados pelos bolchevistas não foram herança do czarismo. Eram novos e foram adoptados na prossecução de objectivos utópicos. O papel central do aparelho de segurança no novo estado soviético era exigido pelo seu projecto de refazer a sociedade – uma aspiração que nenhum tirano tradicional teve e que certamente os czares também não tinham. Como foi correctamente assinalado, «antes do aparecimento do estado-partido soviético, a História apresentava poucos ou nenhuns precedentes de um sistema milenarista centrado na segurança.» Chamar ao estado soviético uma tirania é aplicar uma tipologia antiga a um sistema que era radicalmente moderno.

 

(…)

 

Ao empregar o terror como instrumento de engenharia social, os bolchevistas estavam a continuar conscientemente a tradição jacobina. Tal como os jacobinos tinham liquidado as reminiscências do velho regime, era necessário eliminar resíduos de reacção que pudessem encontrar-se em todos os sectores da sociedade russa. Como escreveram Nekrich e Heller, «Lenine estava obcecado com dois precedentes históricos: primeiro, os jacobinos, que foram derrotados porque não guilhotinaram pessoas suficientes; e, segundo, a Comuna de Paris, que foi derrotada porque os seus líderes não fuzilaram pessoas suficientes.»

 

A segurança da revolução exigia medidas activas contra as reminiscências humanas do passado. Um dos primeiros actos do regime anunciado em Janeiro de 1918 foi criar uma nova categoria de «pessoa privada de privilégios», cujos membros seriam privados de direitos – incluindo o direito à comida. Cerca de cinco milhões de pessoas caíram nessa categoria e foram sujeitas a um sistema de racionamento de base classista criado nesse mesmo ano. Foi com este pano de fundo de retirada de direitos a categorias inteiras de pessoas que o Grande Terror se deu. Como disse Kolakowski, autor do estudo definitivo da ascensão e queda do marxismo, «o estalinismo foi a continuação natural e óbvia do sistema de governo criado por Lenine e Trotski.» Os milhões de mortes que acompanharam a política de colectivização agrícola de Estaline foram maiores do que algo que Lenine tivesse imaginado, mas foram uma consequência da política que Lenine iniciara. Por sua vez, as políticas de Lenine foram tentativas genuínas de realizar o comunismo marxista.

 

Apesar do repúdio do pensamento utopista por Marx, a sua visão do comunismo é, em si mesma, completamente utópica. Como assinalei no último capítulo, ninguém consegue nunca saber o suficiente para planear o curso de uma economia avançada. Mas a qualidade utópica do ideal de Marx não vem apenas das exigências impossíveis que faz ao saber dos planeadores. Emerge até mais do choque entre o ideal de harmonia e a diversidade de valores humanos. O planeamento central envolve uma enorme concentração de poder, sem – como Lenine tornou claro na sua definição «científica» de ditadura do proletariado – quaisquer verificações institucionalistas. Um sistema de governo arbitrário deste tipo está destinado a encontrar resistência. Os valores do regime não serão seguramente iguais aos de toda a gente, nem sequer da maioria. A maior parte das pessoas continuará a estar ligada a coisas – religião, nacionalidade ou família – que o regime considera atávicas. Outros apreciarão actividades – como a contemplação estética ou o amor romântico – que não contribuem em nada para a reconstrução social. Resistam eles activamente ao novo regime ou – como o Dr. Jivago no romance de Boris Pasternak – insistam simplesmente em continuar pelo seu próprio caminho, haverá muitos que não partilharão a visão de boa vida do regime. Se toda a Utopia afirma representar a melhor vida para toda a espécie humana, esse nunca é mais do que um ideal entre muitos. Uma sociedade privada ou sem dinheiro pode parecer idílica para algumas pessoas, mas para outras parece uma visão do Inferno. Para alguns, pode parecer óbvio que um mundo governado pelo altruísmo seria melhor, enquanto para outros ele seria insuportavelmente insípido. Todas as sociedades contêm ideais divergentes. Quando um regime utopista colide com este facto, o resultado só pode ser a repressão ou a derrota. O utopismo não causa totalitarismo – para passar a existir um regime totalitário são necessários muitos outros factores –, mas o totalitarismo segue-se-lhe sempre que o sonho de uma vida sem conflito for consistentemente prosseguido através do uso do poder do estado.

 

Os bolchevistas eram praticantes do que Karl Popper descreveu como engenharia social utópica, que visa reconstruir a sociedade alterando-a toda ao mesmo tempo. Para o engenheiro social utópico, não é suficiente reformar as instituições, uma a uma. A sociedade tal como existe presentemente é irredimível. Tem de ser destruída para se criar um novo modo de vida. Uma dificuldade da engenharia social utópica é que não contém nenhum método de correcção de erros. A teoria que orienta a construção da Utopia é considerada infalível; qualquer desvio é tratado como erro ou traição. Pode haver recuos tácticos e mudanças de direcção – como quando, em 1921, Lenine abandonou o Comunismo de Guerra e adoptou a Nova Política Económica, permitindo que os camponeses ficassem com os seus próprios cereais –, mas o modelo utópico continua a estar ao abrigo de críticas. Porém, dado o facto da falibilidade humana, o modelo tem, certamente, defeitos, alguns dos quais podem ser fatais. O resultado de persistir na tentativa de o realizar é inevitavelmente uma sociedade muito diferente da que foi prevista. Isto não é um processo limitado à União Soviética e a outros estados comunistas. É evidente no Iraque, onde se fez uma tentativa pouco menos ambiciosa de engenharia utópica. Como era de prever, o fracasso do projecto tem sido atribuído mais a deficiências de execução e à recalcitrância do povo do Iraque do que a quaisquer defeitos do projecto em si mesmo.

 

Destruir uma ordem social existente em nome de um ideal é irracional, como defendeu Popper. Onde Popper se perdeu foi na suposição de que, demonstrando a irracionalidade do utopismo, o tinha arrumado. Dissecar os erros da teoria marxista que Estado e Revolução, de Lenine, sublinhou pode ser útil, mas a mentalidade utopista não se alimenta de teorias sociais falsificáveis. Alimenta-se de mitos que não podem ser refutados. Para Lenine e Trotski, o terror era uma maneira de refazer a sociedade e de moldar um novo tipo de ser humano. O objectivo do novo regime soviético era um mundo em que a humanidade florescesse como nunca. Para atingir esse fim, estava pronto a sacrificar milhões de vidas humanas. Os bolchevistas acreditavam que o novo mundo só poderia passar a existir depois da destruição do velho.»

 

S-í-f-i-l-i-s

Como seria de esperar, vão emergindo todo o tipo de suposições acerca do desaparecimento de Lenine, hoje transformado numa múmia no parque temático do Kremlin, mas sem a dignidade de um bíblico Ramsés II. Desde AVC até ao cómodo envenenamento ministrado pelo Sr. Estaline, tudo pode ser aventado, excluindo-se apenas aquilo que todos há muito sabem e devido a pruridos moralóides, não dizem: sífilis.

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