A matriz cultural europeia assume, de um modo irrefutável, que ocupa um papel de relevo em termos civilizacionais. Ao longo dos séculos, e em particular, a partir das correntes de Iluminismo que se verteram em Inglaterra, na França e na Alemanha, foi-se aceitando com naturalidade a ideia de superioridade moral, de desígnio quase teológico da Europa. E essa ideia, expansionista e conquistadora, consubstanciou-se, por exemplo, quer no império napeolónico quer na expressão ultramarina do império britânico. Em suma, os impérios não são um exclusivo dos oponentes, dos inimigos. O império Prussiano, assim como os demais, podem equiparar-se ao império Russo no que diz respeito aos seus intentos e aos próprios métodos: anexaram, mataram, integraram, arrasaram as estruturas políticas existentes – criaram novas ordens. Contudo, enquanto a Rússia seguiu uma via autónoma, baseada numa cultura distinta, a Europa Ocidental procurou estabilizar um conjunto de regras. O grande legado da Europa dos tempos presentes reside na força da lei, nas doutrinas de legalidade que estabelecem limites para a actuação, quer numa lógica interna quer numa abordagem externa. A invenção que a Comunidade Económica Europeia representa, e mais tarde a União Europeia aprofunda, será a versão moderna de um conceito imperial de perfil suave. Pela via positiva e de atracção, a Europa encontrou uma fórmula para se alargar económica e socialmente, mas ignorou a importância da sua expressão política e militar. A Europa, embora tenha tido projectos de auto-suficiência militar, como foi a falhada União da Europa Ocidental, nunca procurou efectivamente consolidar o seu corpo e braços armados. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) havia sempre funcionado numa lógica de blocos, de jogo a dois, de guerra fria. Mas esses tempos findaram, mas certas dinâmicas não foram interrompidas, mas meramente atrasadas por novas nomenclaturas. Nessa medida, a Rússia escolheu o seu momento com grande sentido de precisão. A crise económica europeia, a indefinição dos EUA no que diz respeito à sua política externa proactiva ou a ameaça do fundamentalismo islâmico devem ser entendidos como catalisadores da política externa russa, dificilmente interpretada pelos quadros operativos convencionais e pelos processos de pensamento transatlânticos. A tése de defesa do espaço vital natural da Rússia colide com uma outra ideia tida a seu respeito; o (re)assumir da sua expressão imperial, de superpotência. A pergunta que se coloca ao Ocidente e em particular à União Europeia, prende-se com o modo de travar os avanços russos quando o engagement da Rússia parece ser cada vez mais difícil. A construção europeia deve rapidamente pensar do mesmo modo que a Rússia, mas servindo-se do seu maior património: a sua expressão democrática positivista e pacífica. Numa lógica de alargamento, a União Europeia (UE), talvez possa procurar circumnavegar a zona de fricção, os pontos de contacto onde distintos interesses nacionais colidem. A UE deveria realizar um salto indutivo e pensar uma configuração que transcenda o mainland do seu pensamento. A Europa poderia, de um modo estratégico, pensar num alargamento a sul, obviando o paradigma continental clássico, e abraçar novos parceiros em regiões não contíguas ao continente europeu. Nessa medida, o reino de Marrocos poderia ser um bom candidato para consolidar a expressão política e económica de uma Europa fustigada por razões endémicas agravadas. Um país islâmico moderado como Marrocos, ao ser “fraternizado” pela UE, serviria o processo de relacionamento com o desafio islâmico radical que se nos apresenta. Um conceito de “se não os podes vencer, estende-lhes a mão” poderia servir para tratar problemas considerados insanáveis e que residem na centralidade europeia. Quer a França quer a Alemanha terão de lidar a breve trecho com a intensa expressão de comunidades muçulmanas residentes nos seus países. A Rússia, por outro lado, já entendeu que pode extrair força dos seus cidadãos onde quer que estes se encontrem. A Europa continua atada a velhos pressupostos e tarda em avançar para algo realmente surpreendente. Para desarmar Putin dos seus argumentos e intentos, há que pensar de um modo excêntrico, seguindo linhas de orientação emancipadas do passado. Se realmente quisermos, sabemos o que nos reserva o futuro. Procurar no passado talvez não sirva de grande coisa.
Etiqueta: união de europa ocidental
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