Centro de saúde de S. João do Estoril, hoje, 08h30. 

 

Não há onde parar o carro, nem há transportes. Newspeak em dia, digo que acompanho uma utente com mobilidade reduzida, por sinal minha companheira e que há três semanas não conhece outra vida fora da deambulação, ordenada e certificada conforme o cânone europeizado, entre unidades de saúde.

 

Na hora em apreço, deveria encontrar-se na secretaria, passível de recolha, um papelinho de merda, ora formulário normativamente aceite pelo Leviatã que as seitas maoístas sentadas em Bruxelas mandaram urdir em nome do Bem Comum. Sem esse papelinho, a minha companheira não pode ficar em casa a repousar ausente do trabalho. E o papelinho tem dois dias para ser entregue. 

 

Olhe, tem que tirar uma senha. Tiro uma senha. Gongórico, o “chamador de senhas” declama: H77; A03; J1005; et caetera ad mortem.

 

Chega o meu número. Acerco-me do balcão. O Senhor Doutor não passou papel nenhum, volte mais tarde. Engulo em seco, mas tendo afazeres perto desta unidade de saúde, decido voltar mais tarde. Afinal, as pessoas estão primeiro e quem mo pediu foi uma pessoa. 

 

Quando regresso, pedem-me que tire uma senha. A minha veia de celtibero ocidentalmente tisnado compele-me a usar da simpatia e do charme para esclarecer que não, certamente a D. Mafalda estará recordada da minha recente passagem por aquela unidade hoje mesmo, na manhã plúmbea que ali partilhei com centenas de velhinhos, incapazes no seu somatório de tecer meia frase que demovesse da sua letargia anquilosada a D. Mafalda, a D. Celeste e os demais servidores do Estado nosso Provedor. O importante é seguir os procedimentos, porque um dia podemos não estar cá nós e alguém será responsabilizado.

 

Sou assim informado de que o Senhor Doutor já saíu e não deixou papel nenhum. Olhe, tem de marcar agora uma consulta, voltar cá, lá para sexta. Mas isso é fora do prazo, digo eu. A minha interlocutora é o avatar da Esfinge de Tebas, silente e com ar de quem bebe um galão com dez lexotans mal raia a alvorada. Insisto nas razões que ali me trazem e na urgência em obter a merda do impresso. Peço o livro de reclamações, um termo de responsabilidade, a presença da coordenadora (mas a coordenadora ou a directora, quer saber a D. Celeste, e eu, “olhe, quem for que mande em si”) depois de declarar, cordato, que dificilmente removerei as botas do local onde me encontro fora da condição de portador do execrável, nefando papelinho.

 

Vem a coordenadora. Falamos em bom português. Pede à subalterna para ligar ao doutor. Recusa-se, diz que não tem o número e que não lhe cumpre, só se for a directora. A hidra vive e viceja anódina nos recantos cristalinos e bem arquitectados, com projecto e louvor comunitário, das unidades de saúde que abarrotam de velhinhos indefesos e embrutecidos até à apatia por décadas deste micro-caciquismo omnipresente. Manda ir vasculhar, pois então.

 

Aparece o papel, mas a medo lá me recomendam que traga cópias (deixe que nós oferecemos, não se transtorne mais) porque o doutor também não disse se tinha mandado para a Segurança Social conforme deveria. O senhor não quer retirar a reclamação, isto já se resolveu… Com certeza, então ora essa, muito obrigado pela sua intervenção. 

 

Abandono as instalações e conduzo o meu carro, sobre o qual soube hoje que vai incidir uma nova taxa destinada a custear o sorvedouro sem fundo que é o social-socialismo em era de pré-default, para longe daquele purgatório onde nem Dante e Virgílio estariam à vontade para conversar, tal é a insalubridade da imagem deixada pelo rebanho de velhotes que ali ficaram, entregues à sua sorte e nesciẽncia – numa perversão diabólica do destino, com a vida nas mãos da senha, afinal outro papelinho de merda. 

 

O cancro de Sociedade, mais do que o sal no pão, a inequidade de género e de génera, e as varas de inúteis a quem tiraram finalmente o RSI, acaba por ser a principal causa de morte em Portugal.

 

Leitura complementar: o Paizinho cuida da nossa nutrição.