A conclusão aqui esgrimida é facilmente corroborável. Queira-se ou não, uma grande percentagem da população portuguesa, para não dizer a esmagadora maioria, só não é corrupta porque não consegue. A sentença é, de facto, espaventosa, contudo, não há forma de ilidir a realidade. Hoje em dia, é fácil, facílimo até, depararmo-nos com indivíduos que enriqueceram ilicitamente. O problema é, em primeira mão, cultural. Numa sociedade paternalista até ao tutano, a criação de riqueza depende quase sempre do regaço borra-botas do Estado. Não é defeito, é mesmo feitio. Perante isto, a via mais rápida para o enriquecimento é, indubitavelmente, a via do esquemismo medíocre, que conta, em grande medida, com o beneplácito dos poderes fácticos estadualizados. Contam-se pelos dedos de uma mão, as riquezas que foram fruto de muito suor, sangue e lágrimas. Não, não sou, como alguns dos leitores estarão certamente a pensar, um balzaquiano tardio. Não entendo, nem nunca entendi, que por trás de todas as fortunas esteja um crime pavoroso. Mas em Portugal, país de marialvinhas desenxabidos, a porca da realidade não anda muito longe do adágio do escritor francês. A experiência da vida tem-me ensinado que a natureza humana é inerentemente corrompível. A perversão, o vício e o suborno são, muitas vezes, o alimento útil e inelutável da fome de riqueza que alenta tanta gente por esse mundo fora. Sem embargo, o que, na verdade, determina o alcance da pequena e grande corrupção é, efectivamente, o tamanho do Estado. Quando a pólis se reduz a um gigantesco monturo, prenhe de apatia e confusão, a corrupção dispõe de campo aberto para imperar sobre as consciências. Um Estado mandão corresponde automaticamente a uma cidadania pobre e esbugalhada. A realidade é dura, muito dura. Mas a verdade é apenas uma: em ambientes fortemente paternalistas, a corrupção tende, por antonomásia, a campear. Portugal não foge à regra. O resultado de 39 anos de III República é um país anémico e doente, em que a rede dos macro e micropoderes gere, com muitas palmadinhas nas costas, os seus quintalinhos de dinheiro e influências. Há quem diga que foi sempre assim. Talvez. Provavelmente, sim. Mas o mundo do suborno e do vício endinheirado não é eterno. Basta que os pobres de pecúlio acordem.