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Mais armas “em boas mãos”

A nossa “imprensa de referência”, continua a primar pela originalidade e sageza. Uma pequena e quase despercebida notícia, diz que mais de 300 comandos se encontram sob cerrado interrogatório, devido ao furto de cerca de uma dezena de armas de guerra. O DN afirma existir o receio destas poderem ir parar aos grupos que se dedicam ao crime violento. Não é segredo algum, o facto de se encontrarem para venda em qualquer feira de subúrbio, centenas de milhar de armas clandestinas e que a par da distribuição de droga, o comércio de armamento floresce. O surgimento de metralhadoras tornou-se expectável e tal como se passa noutros países, não tardarão a surgir artefactos mais sofisticados, como lança-granadas anti-carro, etc. O que se torna estranho, é ninguém querer perceber a real gravidade desta situação. Estes militares recrutados, estão longe de corresponderem aos antigos efectivos do contingente geral que enchiam os quartéis do serviço militar obrigatório. Esta gente é mais preparada, voluntária, bem paga e treinada. Podemos até deixar a questão de se saber se as Forças Armadas não estarão a ser infiltradas por gangues organizados, tal como normalmente acontece na marinha dos Estados Unidos, por exemplo.

 

Com a situação a resvalar para a bem conhecida “incógnita” que todos pressentimos, imaginemos o que estas armas em “boas mãos” poderão fazer, até porque tivemos uma experiência idêntica há cem anos. Os resultados estão à vista.

O efeito dominó

 A Europa consiste num limitado e modesto espaço do planeta e assim, acontecimentos que num certo momento ocorram num dos países que dela fazem parte, sofrerão uma possível réplica além fronteiras. Não será importante o móbil de uma revolta ou da moda que surge do nada, mas o efeito de contágio é evidente e faz parte da nossa história comum. 1830 ou 1848 são exemplos conhecidos e já no século passado, o advento do fascismo e do comunismo comprovaram a tendência, tornando-a norma aceite. O efeito dominó que consistia num dos mais fortes argumentos da superstição soviética mascarada pela ideologia de um certo fim dos tempos, funcionou exactamente ao invés do esperado pelos alquimistas das etapas percorridas pelo homo sapiens. Aquele desmoronar de pedras, verificou-se exactamente no campo leninista.  A livre expressão amordaçada, o arbítrio despótico elevado à máxima potência e a tecnologia, a grande inimiga da autarcia mental, tornaram o desabar da opressão num momento há muito esperado, embora adiado pela ameaçadora presença de milhares de T-72’s e soldados que faziam o render da guarda no Muro, sendo bem audível o sincopado martelar do passo de ganso estrangeiro que impunha a verdadeira e ameaçadora soberania.

 

Hoje vivemos tempos confusos e embora poucos se tenham disso apercebido, já existe um primeiro esboço da nova ordem mundial que se vai novamente polarizando a ocidente  – EUA + Aliados + Rússia – e a oriente, com uma China em crescimento acelerado. Por si só, o gigante asiático não carece do reforço de contingentes humanos, embora tenha imperiosa necessidade do exercício da sua influência em zonas fornecedoras de matérias primas, facto a que o regime maoísta começou a dar o devido relevo na década de sessenta. As guerras em África e a infiltração em Moçambique, na Tanzânia e na Zâmbia comprovam-no, até porque nesta parte do mundo, contava com a silenciosa mas eficaz rivalidade da vizinha Índia que mercê da permeabilidade oferecida pelos impérios coloniais da Grã-Bretanha e de Portugal – o Raj e o Estado da Índia -, instalou gente que tornou incontornável o seu labor no comércio e até na pequena indústria. Os recentes acontecimentos no Nepal e na Tailândia, têm um claro indício da actividade chinesa da região, que aliás encontra dificuldades em toda a Indochina, Indonésia e Filipinas.. É uma zona de influência apetecida, mas esquiva, dada a forte componente religiosa que molda aquelas sociedades.

 

Desfeitas – pelo menos provisoriamente – as veleidades de uma perfeita autonomia imperial russa, que até há bem poucos meses tinha a sua fundamentação no elevadíssimo preço do crude e do gás, parece previsível uma reaproximação ao Ocidente, até porque a eleição de Obama oferece a desejável saída honrosa – tão ao gosto e tradição marcadamente  oriental – de um "salvar da face" junto da comunidade internacional.

 

O que parece bastante estranho, é o avolumar de acontecimentos aparentemente saídos do nada político, como aqueles que ocorrem ainda hoje na Grécia, ou melhor, na sua capital, Atenas. Não se compreendem bem as fundamentações políticas, não se vislumbra um programa de acção. Apenas a contestação do poder democrático há décadas estabelecido e a destruição cega de bens, evidencia uma situação inexplicável. É certo que os comentadores políticos discorrem  copiosamente acerca da crise financeira, do mal estar provocado pelo desemprego que é fruto das deslocalizações. No entanto, parece existir uma informal coligação entre o chamado lumpen e certos sectores burgueses que se irmanam tácitamente numa luta sem objectivos concretos. Além da destituição do governo eleito – que ameaça cair na rua -, que solução para a crise apresenta esta intifada helénica? Querem e dizem caminhar para a revolução. Mas que revolução? Nem uma palavra sobre o modelo político e económico e então, "revolução" significa apenas isso, a agitação e depredação permanentes. Mais a ocidente, a eterna Paris das patéticas e muito pouco românticas barricadas boulevardianas, parece acordar uma vez mais para a oportunidade de brincar ao passado e não será nada absurdo, se dentro de poucos dias, assistirmos ao regresso daqueles que há um ano, quotidianamente provocavam autos-da-fé automobiliísticos na cidade e arredores, mas desta vez acompanhados por Laurents, Thierrys ou Gwenolas do seizième, ansiosos  pela imortalidade impressa em DVD’s, a versão contemporânea daquelas outras telas que no Museu Carnavalet testemunham os sangrentos acontecimentos da revolução francesa de há dois séculos. A contestação pela contestação, a destruição pelo simples prazer do estrago.  Uma visão digna de um Bosch. Mas em concreto, o que pretende esta gente?

 

O poder parece tender para se tornar cada vez mais difuso e as recentes medidas adoptadas pelos governos europeus tutelados por Bruxelas – o super-governo -, querem oferecer um dique a esta maré dissolutiva da autoridade. A carga fiscal, a vigilância permanente, os cartões de cidadãos, os chips e uma imprensa ligada ao conglomerado político-económico, são os instrumentos de recurso para evitar o caos que parece avizinhar-se.

 

A quebra daquele sentido de hierarquia disciplinadora que em tempos passados deu a hegemonia à Europa, reflecte-se agora na timidez da acção policial que age em nome da legalidade democrática. A ausência das forças armadas e a sua prática evanescência num limbo criado pela doutrina do politicamente correcto, retiram aos executivos os recursos necessários para a restauração da ordem e da normalidade constitucional. É este o resultadoda política dos governantes saídos de 68, exactamente os mesmos que nos habituámos a ver e a ouvir na televisão, incitando ao desrespeito pela autoridade da Lei e achincalhamento da polícia que os protege e garante o poder. 

 

É evidente o interesse dos minoritários grupos extremistas numa situação que pode proporcionar um imprevisto golpe de mão, instaurador de um qualquer modelo político até há pouco julgado ultrapassado. Se uns agitam com a promessa do sempiterno cortejo funerário de um capitalismo agonizante, outros recorrem à readaptação dos argumentos vociferados por antepassados que há 150 anos destruíam máquinas, em nome dos direitos do trabalhador. Hoje, essas máquinas surgem revestidas pela imigração, feudalização – no pior sentido do termo – dos subúrbios urbanos e desclassificação absoluta do sistema educativo. É o resultado da desastrada política do desordenamento territorial e das mentalidades do pós-guerra.

 

O problema a colocar, é tentar imaginar um cenário em que ocorra uma total ruptura – na Grécia, por exemplo – com o "modelo europeu aceite". A queda do poder nas ruas, o rasgar em fanicos da Constituição, o alçamento de gente originária de pequenos polos alternativos e com uma evidente tentação totalitária, como parece ser norma. Neste caso, o que fará a UE, principalmente se o exemplo começar a alastrar em direcção ao centro e ao ocidente da Europa? Em Espanha, ou na Bélgica, por exemplo, que repercussões teria na própria unidade destes países.? Ou será que a UE pode compatibilizar-se com a coabitação no seu seio, de diversas formas de representatividade e em que o modelo democrático-liberal não seja norma? Questões inquietantes.

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