Na minha opinião as melhores conversas acontecem sempre na cozinha. De preferência com algo ao lume, um tacho e uma colher de pau na bancada para ir mexendo de vez em quando o caldo. Concordo com Seguro – o debate com Passos Coelho pode acontecer onde ele quiser. Mas não fará diferença alguma. As duas comadres nunca se hão de entender. A Dona Coelho vai dizer que o guisado se está a apurar, que já se sente no ar o cheirinho dos coentros, ao que responderá Dona Seguro; não senhor, o cheiro é de urtigas, o caldo está salgado e não havia necessidade de despedir o moço que descascava as batatas e a menina que servia à mesa. Ao que a Dona Coelho dirá (enquanto junta uns cubinhos Knorr à sopa), que o manjar tem de ser preparado muito devagarinho para não queimar, e que em breve a mesa comprida pode ser posta e o almoço pode ser servido. Enquanto andam nisto, na sala dos comes e bebes da casa de pasto, o freguês vai ficando impaciente e já tem um buraco no estômago. Entretanto entra o gordo do talho com umas facturas por pagar. A Dona Seguro, que já vinha mal disposta, faz um sorriso maldoso por ver que a comadre vai ficar num aperto. A Dona Coelho, que já conhece a vizinha de gingeira, grita-lhe do outro lado da cozinha, perto do alguidar de azeitonas: põe-te daqui a mexer, quem manda aqui sou eu. Atão não sabes que aqui vende-se fiado? Vai lá para a tua terra fazer a tua sopa de pedra, sua ranhosa.