A dona flor não tem amores, viaja na corrente de ar à procura de um sinal, a sinusite disponível para parodiar a dor. A sagração da alergia faz ecoar tons, dores lancinantes para uns, leve comichão de elefante para outros. A alergia desenha arcos temporais, do alto do céfalo acorda o olho e desce à cave do maxilar inferior. Lembra mistela diversa, falsas analogias – os pólens e a política não fazem parte do mesmo universo. Nada melhor que clonix – e fica o assunto arrumado -, um ou dois comprimidos conforme as noivas. De miserável, à beira de um fim de aprumo, passo a majestoso sobrevivente de uma armada histamínica. E não é nada. E não é mesmo nada. Não é o mesmo nada que valha a pena mencionar. Nada se passou enquanto lá fora tudo se passa. O digno de nota espojado na cartolina de um vão de escada, pobre, a alma arqueada pelas tenazes que apertam. Sou um pseudo-lastimoso, reclamante pela diminuta dose de mal-estar. Eles sim, os caídos em desuso, padecem de dor transcendental. Sentem-na, mas os que passam e os fitam, apenas tiram as medidas de uma estimativa, uma ideia escassa que não chega a ser dor vaga. Não imaginam. Nem imagino. Há muito que não conhecem as receitas. As da cozinha e as do consultório. Há muito que nunca viram a cadeira reclinante do dentista. E foi há tanto tempo que a mãe passou a mão pela fronte e depois pela fronha para aconchegar uma noite ao luar. A alergia vai nos idos de Junho. Os outros deixam-se estar. Não têm remédio.
Etiqueta: sem abrigo
São títulos deste género que me dão a volta ao estômago: “um médico, um piloto e um engenheiro entre os 852 sem-abrigo em Lisboa”. Até podia haver um astronauta e um prémio Nobel a dormir na estação de Santa Apolónia. Ou será que existem sem-abrigo de primeira e outros de terceira categoria? Este tipo de notícia não serve grandes causas. Eterniza aquilo que retratou Portugal nas últimas décadas – a ideia de privilégio, a noção fortemente entranhada de estrato social, de hierarquia. Quais as implicações decorrentes deste relato? Que por haver diplomados nas hostes de sem-abrigo a matéria tem de ser endereçada politicamente como deve ser? Será que “o senhor engenheiro e sotôr” podem escolher os melhores locais no átrio da Estação do Oriente para encostar a cabeça? Francamente. Assim não vamos lá. O destaque dado a este pormenor de inquérito demonstra as distorções que susbsistem na sociedade portuguesa. Todos os homens tombam. E quando tombam, não interessa a patente que ostentam.
Não conheço as noites de papelão. Aquelas passadas no mármore da avenida onde afirmam que o ar gélido passa a correr, para ir morrer na parte baixa da cidade. Não sinto as mãos, o tronco e os membros da minha família. O bafo que me sai das entranhas, aquece a ponta do nariz enquanto farejo a urina deixada na sarjeta, que passei a ser. Naquelas horas da natureza, que dizem pertencer aos grilos, escutei vozes, atei a trouxa ao pulso aberto pelo cordel – a corda que enforca o horizonte que já não avisto. Estou deitado no passeio junto a um copo e o mundo. Corpo imundo. Nada tem de ser dito porque o fétido emana como a última vela de um santuário arrendado, arredado de si – põe-te daqui para fora -, mas que permanece nessa caixa que em tempos albergava o espírito, o pai nosso divorciado de si. E se me esquecer de alguns detalhes quando a polícia me deitar a mão, direi que está tudo assente num livro de penúrias, escrito nas linhas rugosas da minha cara, nos vincos que migraram das palmas, dos aplausos de dignatários que inauguraram a dependência bancária e me encerraram neste estado que já não sinto, que não sentimos.


