Acabei de regressar de Weimar. Foi a primeira vez que estive no leste da Alemanha que havia sido a Alemanha de Leste. Mas a pequena cidade de sessenta mil habitantes há muito que viajou para o resto do mundo. Weimar é famosa por ter sido a casa de Goethe e Schiller, pela república com o mesmo nome que pôs fim ao império, pela hiperinflação que destruiu economias nos anos 20 ou pela escola de pensamento, design e arquitectura que vai pelo nome de Bauhaus. Mas outros ainda houve que rumaram a Weimar como Bach ou Hans Christian Andersen. Deixemos de fora Hitler que ordenou a construção da varanda que ainda hoje o Hotel Elephant dispõe, para que melhor pudesse se dirigir ao povo na praça do mercado onde o edifício da câmara municipal (Rathaus) se acha instalado. Weimar era um dos seus destinos de eleição e a poucos quilómetros da cidade o campo de concentração de Buchenwald foi construído. Visitei esse local atroz para render homenagem a tantos que pereceram de um modo intencionalmente trágico. No dia em que peregrinei a Buchenwald, centenas e centenas de adolescentes alemães desciam de autocarros vindos de todo o país e ao abrigo de uma missão de preservação da memória colectiva. A Alemanha não deixa esquecer as piores páginas da sua história e os jovens fazem parte desse processo. Mas regressemos a Weimar. Como residente em Portugal não pude deixar de comparar o incomensurável, mas há alguns traços comuns entre a Alemanha de Leste e Portugal. Ambos os países viveram sob regimes autoritários, Stasi para uns Pide para outros, Muro de Berlim para uns, movimento condicionado para outros. Em 1974 Portugal inicia o seu processo democrático e em 1989 a Alemanha de Leste é integrada numa democracia com uma economia consolidada, mas não desprovida de desafios importantes. Eu sei que este exercício pode parecer uma simplificação excessiva, mas a pergunta que assolou o meu espírito durante uma semana de estadia em Weimar foi a seguinte: o que terá acontecido a Portugal para que em 40 anos de democracia se tivesse descarrilado de um modo tão grosseiro? E o que fez a Alemanha de Leste para que em 25 anos se tivesse desenvolvido de um modo tão equilibrado. Weimar é um bom exemplo dessa sensatez e sentimos em cada olhar (daqueles com pelo menos 50 anos de idade) o conhecimento da austeridade que viveram – a dureza de uma vida política e socialmente controlada. Weimar não perdeu as estribeiras com a chegada dos ares da mudança. Carrega o peso do nacional-socialismo de um modo temperado e assertivo. Todos os habitantes desta terra sabiam o que se passava em Buchenwald. Cada um escutava o chiar dos comboios de passagem por Weimar, as carruagens pejadas de desgraçados que seguiam para o campo de concentração. Esse fardo ainda está presente nos dias de hoje e por isso há um certo silêncio de semblante, o incómodo com que se lida de um modo discreto. Weimar não ostenta a opulência que caracteriza a Alemanha ocidental. É tranquila no seu estar e confortada pela intensa matriz intelectual e cultural que a identifica. Não há gritaria na rua em dia de vitória no campeonato do mundo de futebol. Não se escutam buzinas de condutores e quando nos cruzamos com um desconhecido, este diz-nos sempre bom dia – de um modo sincero. A vida em Weimar é mais em conta do que em Portugal e não consigo encontrar explicação para que os mesmíssimos artigos custem metade do preço em Weimar. Trouxe lâminas de barbear da cidade de Goethe.
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