Etiqueta: saudade
Istambul, 19 de Setembro de 2010
Cinco vezes por dia os pobres altifalantes instalados no minarete mais alto da mesquita maior de Avcılar resistem aos cânticos do Imã que chama os seus irmãos para mais uma reza. Cinco vezes por dia a cidade pára. Cinco vezes por dia se enchem as ruas de tapetes e se assiste ao ritual da vénia, do ajoelhar, de tocar com a testa no chão. Como se de horas de sono se tratasse, quando termina a cerimónia, vêem-se sorrisos e simpatia entre as gentes.
Apressam-se os pequenos mouros para os autocarros sobrelotados, as portas estão abertas para que mais algum nelas se pendure. Salto em Beşiktaş e falo com meio mundo à procura de um bom sítio para fumar narguilé e çay – “Where are you from my friend?” – “From Portugal, do you know where it is?” – “Quaresma! Quaresma!”. Indicam-me então um pequeno café, bandeiras turcas e o retrato de Mustafa Kemal Atatürk preenchem uma parede cor-cimento. Bebem-se os çay, fuma-se a chicha, diz-se “teşekkür ederim” e volta-se para a rua sobrelotada. Sinto que conseguia voltar para casa guiado pelos cheiros, os tapetes, as simit, os kebabs, os fumos, flores e frutas.
Tudo aqui me cheira a mágico, tudo me cheira diferente.Sentem-se as saudades de um Portugal cada vez mais longe. Mas maior que as saudades é a sede de descobrir mais, de beijar Istambul.
Volto a escrever em breve, um forte abraço para os Conselheiros de Estado e para os Leitores.
Güle Güle!
faria 89 anos lembro que quando fui a Roma não vi o Papa – estava na Polónia, nesse Junho de 1999.
Consolou-me a lembrança de que tinha estado perto dele no Sameiro, no meio de um " banho de multidão" – como diz, num comentário abaixo o João Pedro, relferindo-se à multidão que acompanhou as cerimónias do 50ª aniversário do Cristo Rei, imaginem o que seria se o Cristianismo não estivesse em crise….
Não tivesse sido assassinado na Somália, aonde fora numa missão de ajuda médica, e o Ricardo teria feito anos no dia seis.
Andámos juntos no Liceu, juntos fomos a Taizé, fizemos piqueniques e acampamentos de fim-de-semana.
No cemitério, com o caixão a descer à terra, uma amiga brasileira tocou esta música, de que tanto gostava, e todos nós juntámos a nossa voz à dela.
que sempre nos deixam à toa, lembro o lamento da minha mãe: que se tinha esquecido de mandar celebrar a Missa pela alma da mãe, minha avó,que teria feito anos no dia 2 de Março. Cerca de 120; não o soube dizer ao certo. Proponho-me buscar, mas sei já que tinha a idade suficiente para passar todos aqueles tumultos que marcaram os primeiros anos do século XX em Portugal. Tenho tanta pena de, na minha inconsciência da quase adolescente que era nos seus últimos anos, a sair de uma infância a que já chamei dourada, apesar dos pesares, longe ainda de me fixar naquilo que, alguns anos mais tarde, iria evidenciar-se na pessoa em que me estava a tornar – o gosto supremo de remexer no passado -, não ter conversado com ela sobre as muitas histórias que viveu. Tantas, avó, tantas, certamente. Quantas saudades.

