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Premio Nobel da Austeridade

Várias nações estão em competição para ganhar o mais deprezado troféu do desenvolvimento económico e social do mundo. Grécia, Chipre, Portugal e Irlanda são os principais concorrentes que disputam o galardão máximo: o prémio Nobel da Austeridade. O júri composto pelo FMI, a Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu, está a debater há mais de dois anos, e à porta fechada, a atribuição do prémio. Contudo, a decisão a tomar não será fácil, dada a grande qualidade dos seleccionados. A short-list de países pode ser curta, mas os concorrentes querem provar que são os melhores na corrida ao fundo. Convém acrescentar que, embora de um modo formal, não façam parte do colégio de juízes, a Goldman Sachs, a Standard & Poors e a Fitch também participaram no processo de selecção dos países candidatos de um modo muito expressivo. Os Óscares do prejuízo arrastam consigo uma torrente de opinião pública desfavorável e, por essa razão, o prémio a atribuir poderá ser partilhado entre o país ganhador e os seus governantes – a promessa de juros de dívida cada vez mais elevados, despedimentos em massa, cortes na segurança social e falências extraordinárias das funções do Estado. A menos de uma semana da apresentação pública da decisão, as casas de apostas dão como certa a vitória da Grécia ou Portugal. Mal posso esperar pelo evento. Pode ser uma das únicas chances que Portugal tem para levantar a taça. Dizem que nos anos que se seguem o número de candidatos duplicará na Europa e arredores.

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Portugal de sempre

Encontrei este texto de Luísa Costa Gomes, publicado há mais de 20 anos, e acho graça como tão pouco parece ter mudado desde então. A parte que a autora dedicou à Língua é acertadíssima e profética, se a lermos à luz do (des)acordo ortográfico vigente. Gostei especialmente dessa parte e daquela em que se refere ao sistema político.

Aqui fica.

 

Luísa Costa Gomes sobre Portugal:

 

Um artigo enciclopédico que pode bem constituir um guia imprescindível para o visitante desse curioso, cómico e longínquo país. Tudo o que é preciso saber sobre a sua paisagem, geografia física, regime político, cultura, economia, gastronomia e anedotário.

 

Superfície: 90.082 metros quadrados; estima-se em dez contos por metro quadrado, o que está ao alcance de qualquer multinacional de porte médio. Portugal optou pela sóbria forma rectangular, rejeitando o bicudo barroco italiano, o quadrado do pastelão espanhol, a nódoa de territórios que alastram ao acaso sem rei nem roque. Sábio e prático a um tempo, e mesmo antes do tempo, Portugal escolheu, mais do que a forma rectangular simples, o rectângulo ao alto, permitindo contentar os que vivem no litoral — e constroem casas no interior, nunca muito longe — e os que vivem no interior, migrando para o mar, onde constroem casas. Sabe-se o resultado nefasto do rectângulo ao baixo, origem de insatisfação e muita desigualdade em colossos como o Não-Sei-Quantos (antiga União Soviética e mais antiga Rússia imperial) e os Estados Unidos da América. É verdade, alegarão, que também o Ghana e o Togo são rectângulos ao alto, mas aqueles têm uma nesga de mar que não dá sequer para Turismo, quanto mais para fazer História.

 

Capital: Lisboa. A cidade espaçosa e harmoniosa das literaturas do século passado atravancou-se de mostrengos que parecem desenhados por um bando de lunáticos megalómanos e coloridos por uma turma de crianças excessivamente normais. Predomina a arquitectura de arco e fresta, ombreando ostensiva com os escombros dos magníficos prédios que tiveram prémios. De longe, Lisboa é das cidades mais insinuantes do mundo, clara, ondeante, pousada no rio. Ao perto, um monte de ruínas ligadas por valas que são regularmente abertas e fechadas, ao ritmo do calendário eleitoral. Dir-se-ia que a parte mais séria da cidade é o subsolo, e que os governantes escavam, com irracional obstinação, à procura de tesouros, à procura de raízes.

 

Cenários Naturais: Quem for a Portugal à espera daquelas cenas refrigerantes de que Garrett falava nas Viagens, tem de ir pronto para trabalhar em abstracto. Não há colina que não apresente a sua fabriqueta malcheirosa, não há extensão em que não figure o aglomerado de prediozinhos castanhos de varandas anodizadas; naquelas vistas solitárias de outrora pôs-se um bairro de barracas, uma chaminé de fumo negro, um monte de sucata, um vazadouro de entulho onde branqueja a tabuleta “É proibido despejar entulho”. Pelos campos, é a vivenda a protagonista, em todo o seu horror. Em vez de a esconderem em meio de discreto arvoredo, plantam a casa a meio metro da auto-estrada: e o viajante, a menos que vá de rosto escondido nas mãos e de cabeça apertada entre os joelhos, é forçoso que as veja. E mais à família, esparramada na varanda, debaixo do guarda-sol, depois do cozido, enquanto os meninos da casa, debruçados contra o aviso parental, contam os automóveis que vão na bicha. Dentro dos automóveis, as famílias discutem. Vêm de suas segundas casas, para as primeiras. A chegada, foi preciso limpar, desempoeirar, desentupir. A televisão estava húmida, não pegou. No dia seguinte, comeu-se demais ao almoço. Agora as crianças estão com sono. O calor enerva as famílias.

 

Clima: Já não é o que era. Curiosamente, os nativos continuam a imaginar que vivem num clima temperado marítimo, mesmo quando as temperaturas sobem para os quarenta graus em Julho. O conceito de estação do ano tornou-se obsoleto. O clima é, sobretudo, variável. Temos um dia de Inverno seguido de um dia de Verão, depois de um dia de Primavera que é um dia de Verão com um bocado de vento fresco. Num ano chove tudo, noutro não chove nada. Em Portugal, bate-se o dente de Norte a Sul durante os meses frios e fica-se perplexo e molemente indignado quando o termómetro passa dos quarenta; nada está preparado para lutar contra os elementos, ou sequer minorar os seus efeitos. E a pobreza, num clima variável, pode ser muito cruel.

 

Economia: Os analistas vêem nos Portugueses uma raça de pessimistas insaciáveis, sonhadores invertebrados, gente de fogachos que deixa tudo em meio. Mas um olhar sobre a imaginação dos Portugueses mostrará que, ao contrário, estamos em presença de um dos povos mais optimistas e mais facilmente silenciáveis do mundo; dir-se-ia, — e quem sou eu para presumir saber? — que o português ansiava pelo Universo, mas se contentava com um T zero a Santo António dos Cavaleiros. Hoje anseia por um T zero a Santo António dos Cavaleiros e contenta-se com ele. E, apesar de ser objectivamente um país pobre, bastou que o Pai da Pátria dissesse repetidamente aos eleitores que estavam ricos, para que eles, na sua candura e satisfação naturais, acreditassem. Até os torresmos ganharam outro paladar. Os Portugueses são pobres e não perdoam a ninguém. Abominam a sua pobreza, escondem-na, envergonham-se dela. É o concerto das nações que tem a culpa — e há-de pagá-las todas.

 

Sistema político: Aparentemente, é uma democracia. A oposição é da confiança do governo. Havia uns comunistas mas comeram-se uns aos outros. O povo em geral é da confiança do governo. Há um processo formal de eleições de vez em quando. A população é mansa e gosta sobretudo de ditadores magros, austeros e de modelo paternal forte. A ideia que o chefe deve veicular para convencer é a da sua eficiência. O Português preza-a acima de tudo, porque é um valor mítico que sabe não estar ao seu alcance.

 

Cultura: Dizem que houve, mas agora já não há.

 

História: É muito bonita. Os portugueses mantêm com ela uma relação ambivalente: desconhecem-na, por um lado, quase inteiramente — o que lhes permite uma mistificação que não é ingénua — e invocam-na para se desculparem dos descalabros dos séculos mais recentes. Paradoxalmente, sendo um dos povos de identidade mais forte e estabelecida da Europa, preocupam-se sobretudo com a questão metafísica da sua personalidade mítica.

 

Língua: Própria. A Língua Portuguesa veio do Latim, mas já foi há imenso tempo. Aos nativos, no entanto, parece não interessar absolutamente nada de onde é que ela veio, e, sobretudo, para onde é que ela vai. O português do ano dois mil — como hoje se prefigura — não terá formas complexas de qualidade alguma. A tendência simplificadora e redutiva que se afirma no vocabulário, na sintaxe e um pouco por todo o lado, fará desaparecer formas como, por exemplo, o saber-se-ia e o poder-se-ia, relegando o coitado do mesoclítico para o fim (saberia-se e poderia-se, se não mesmo saberiasse e poderiasse); a influência da colonização brasileira tenderá a tornar a pronúncia cada vez mais arbitrária e introduzirá estranhos termos arcaicos; dominarão formas de rufianismo linguístico, no pressuposto de que “desde que se entenda, está certo”, tendendo a comunicação para o mais elementar dos grunhidos, apoiado pelo mais eloquente dos gestos. “Saberasme dezer por cades ir a Viana?” será, a curto prazo, uma expressão culta.

 

Gastronomia: A regra é simples: tudo o que é pesado, é português. Fritos, refogados bem puxados. Vinhos de cair para o lado. Um doce não é doce se não levar as vinte gemas da praxe. É tudo muito bom e tudo faz muito mal. Por via da sua Gastronomia, o verdadeiro dilema moral dos portugueses não é decidir-se entre o Bem e o Mal —para o português, o único valor moral que existe é o que lhe convém —, mas entre rebentar ou viver.

 

Anedota: Um homem morre e chega às portas do Inferno; em cada uma das entradas se afixaram as ementas de tormentos e o retrato do diabo responsável. O homem lê:”Guichet n° 1 — Inferno Alemão — Horário dos fogos: 9h-13h; 14h-18h. Gás da Companhia. Descanso semanal. Extras: roda de entortar, chicote, discursos políticos. Não se fazem devoluções.” O homem espreita: só duas pessoas esperam junto do guichet.

Dirige-se à outra porta, onde se lê o menu do “Inferno Francês — Horário dos fogos: 9.30h-12.30h; 15h – l7.45h. Atendimento personalizado. O diabo-chefe deseja-lhe uma boa eternidade. Não franceses: é favor dirigirem-se ao guichet n° 1.” O homem espreita: cinco pessoas esperam entrada naquele inferno.

O homem prossegue. Uma porta a que falta a maçaneta anuncia o “Inferno Português — Horário dos fogos: 7.30h-19.30h. Não fazemos intervalo para almoço. Fogos individuais, de grupo e colectivos. Patrulhas de hora a hora, chicote, censuras, culpabilização incluídos. Horrores nunca vistos. Última palavra em tecnologia da dor. Não se aceitam reclamações.” Junto ao guichet aglomera-se uma multidão ululante, empunhando maços de documentos oficiais. Todos se empurram para entrar. Os mais velhos passam à frente, alegam dores nas costas, antiguidade. O homem relê o anúncio. Parece-lhe o inferno pior, o mais tenebroso, o mais ameaçador.

Chega-se a um pretendente que, na bicha mal-formada, grita para a frente o universal “Então essa merda não anda?”. O nosso homem informa-o de que os outros infernos estão às moscas e são muito melhores, mais humanos. O alemão até faz descanso semanal. É então que o homem-da-bicha esclarece, apontando o guichet português que, às dez e meia, ainda não abriu: “Bem vê: aqui, o horário é mais terrível, mas, normalmente, não é cumprido; o mais das vezes não há gás para os fogos; os diabos jogam às cartas o tempo todo e deixam-nos descansados; havia umas chibatas e uns pingalins, mas desapareceram, diz-se que foi o superintendente que os vendeu aos alemães. E os horrores que eles anunciam são um dragão vegetariano a cair de fome e uma figura de cera do Marques Mendes que diz ‘Portugueses!’ com voz de falsete, quando se mete a moeda. Mas como nunca há trocos, mantém-se de olho semi-aberto e bico calado. E aquela da tecnologia da dor é um tipo magrinho que traz uns alfinetes, mas meteu baixa aí há três meses porque tem a mulher doente e não arranjaram substituto.” E o neófito, convertido ao paradisíaco inferno português, integrou-se na bicha para pedir as minutas necessárias e tirar as cento e cinquenta e sete certidões, certificados, registos, cartões, bilhetes, cartas e fotos e poder, enfim, acolher-se à sombra daquele oásis de cândida ineficiência, fabricada com as mais altas intenções.

 

Ler 19, 1992, pp. 50-51.

 

 

Retirado do site LUSOMANIA, onde se encontram outros textos satíricos que vale a pena ler.

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Ode Alegre a Passos Coelho

 

Abaixo el-primeiro Passos

É preciso enterrar el-Coelho

é preciso dizer a toda a gente

que o empassado já não pode vir.

É preciso quebrar na ideia e no governo

a troika fantástica e doente

que alguém trouxe numa legislatura

 

Eu digo que está em marte.

Não deixai em paz el-primeiro Passos

deixai-o no desastre e na loucura.

Sem precisarmos de sair do ponto

temos aqui à mão Seguro e a terra da aventura.

 

Vós que trazeis por dentro de cada gesto autárquico

uma cansada humilhação

deixai falar na vossa voz a voz do eleitor

cantai em tom de grito e de protesto

matai dentro de vós el-Coelho redentor

 

Quem vai tocar a rebate os sinos de Portugal?

Poeta: é tempo de um cunhal por dentro da canção.

Que é preciso bater em quem nos bate

é preciso enterrar el-Passos vingador

 

(variação do poema de Manuel Alegre – Abaixo el-rei Sebastião)

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