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The concept of tradition at the crossroads between liberalism, conservatism, and communitarianism

Acaba de ser publicado o meu mais recente artigo, “The concept of tradition at the crossroads between liberalism, conservatism, and communitarianism”, no Journal of Political Ideologies.

Neste trabalho, em que retomo o tema da minha tese de doutoramento, exploro como Friedrich Hayek, Karl Popper, Edwar Shils, Michael Polanyi, Michael Oakeshott, Roger Scruton e Alasdair MacIntyre partilham um entendimento substantivo do conceito de tradição. Recorrendo à análise morfológica das ideologias proposta por Michael Freeden, o artigo demonstra que, longe de ser um exclusivo da direita conservadora, a tradição opera como um conceito central ou adjacente na intersecção entre o liberalismo, o conservadorismo e o comunitarismo.

A editora disponibilizou 50 cópias de acesso livre para os primeiros leitores, a que podem aceder aqui.

A prova cega da Inteligência Artificial

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No tabuleiro internacional não existem vazios de poder. Os espaços disponíveis são prontamente abarbatados por actores com apetite global. Por outras palavras, o proteccionismo dos E.U.A., de trancas à porta, parece corresponder ao incremento do multilateralismo da República Popular da China (R.P.C.) em diversos sectores — uma espécie de (nova)chamada ao Ocidente, e ao mesmo tempo o desejo da sua ascensão à liderança de uma nova ordem global. E o campo da Inteligência Artificial (IA) não será excepção. Os chineses perceberam que uma organização internacional para a IA ser-lhe-ia proveitosa — mais uma forma de projeção de poder. Paradoxalmente, será difícil conter algo que pela sua natureza exploratória não é passível de ser trancado. A R.P.C. parece prometer o diálogo multilateral para com os parceiros estrangeiros, ao mesmo tempo que pratica o refrear de liberdades dos seus próprios cidadãos. No cerne da questão reside a dúvida existencial — a IA promove a democracia ou avança as causas do autoritarismo? E se a IA ganhar a sua própria consciência ideológica, será que não teremos de lidar com um novo actor político desprovido de território, cultura, que não serve nações ou estados, mas que condiciona tudo e todos? Em quem iremos confiar? E que novas modalidades de crenças serão geradas? Como se pode restringir o ADN mutante da tecnologia que nem sempre anda a par e passo com as aspirações da humanidade? E mais uma vez somos confontados com a noção de que a ética deve imperar, que a mesma deve procurar balançar o justo com o proveitoso. Enfrentamos neste momento da história, como em tantos outros, dilemas. Poderá existir IA que se autoregula? Como pode o homem aspirar a dominar o monstro que está a criar? Talvez possamos invocar as tormentas de 1984 ou afins, mas os arquétipos e os símbolos mais escuros já não servem à caracterização do mundo que se avizinha a passos largos. As amostras do maravilhoso mundo novo são parcas e inconsistentes. A prova parece ser cega. 

Portugal atingido por fogo inimigo

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No teatro de operações da guerra eleitoral, Portugal é a principal vítima do fogo inimigo. As rajadas de tiros das forças políticas não são dirigidas a um alvo comum — ao descalabro económico e social. São disparos recíprocos que geram uma neblina que não permite que se vislumbre Portugal. Após 50 anos de prática democrática os partidos políticos ainda têm sérias dificuldades em discernir o mais importante — o interesse nacional: a tomada de consciência de que existe algo maior e melhor do que o fervor ideológico, do que a paixão pelo clube de sempre. Esta cegueira comportamental é o resultado de um processo autofágico crónico. Os portugueses não conseguem fazer-se representar, porque estão ausentes na sua própria construção, abandonaram-se no dia a dia, para desesperar na pequena hora do desfecho eleitoral.  Assistimos a um vazio no que concerne à visão estratégica que o país exige. Durante décadas foi muito conveniente convergir com a Europa, fazer parte do grémio da União Europeia que subtraiu grande parte da soberania intelectual e cultural ao país. Portugal endossou um cheque em branco a decisores que nunca poderiam pensar os desafios locais. Assistimos nesta campanha ao evocar de fantasmas, ficções e falácias, como se para dissipar a crueza da realidade e da verdade que não carecem de explicações ideológicas. Uma vida digna já não é filha da esquerda ou da direita. Um projecto de esperança e superação colectivo há muito que deixou de poder ser explicado pela ciência dos dogmas. Enquanto não houver civismo político, diálogo transversal a todas as crenças partidárias, há muito pouco que o cidadão comum possa fazer. O mau exemplo anda nas ruas. E vem de cima para baixo. Por aí abaixo.

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Comentadores políticos: a falência da objectividade analítica

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Após um interregno de quase seis anos, por razões de ordem académica, tenho alguma dificuldade em reintroduzir-me neste ambiente e redigir um texto digno deste blog. Paradoxalmente, estive ocupado durante este tempo todo com a redação e a entrega da minha tese de doutoramento que espero poder defender em breve. Ou seja, fartei-me de escrever e não menos pesquisar. Mas isso não me habilita particularmente para a tarefa do escrutínio analítico do estado da arte do comentário político em Portugal. As campanhas seguem a todo o gás e os comentadores da praça (com rarissímas exceções) não são mais do que filiais falantes dos partidos de sua eleição. Ou seja, perderam, se é que alguma tiveram, a equidistância analítica objectiva que se exige na e da ciência do comentário político. De um modo despudorado inclinam os pratos da balança, servem-se de figuras de distorção ou simplesmente deixam-se guiar pelas emoções da ideologia desenfreada que os cega. O apelo às emoções que afirmam representar um perigo para a democracia são precisamente as mesmas que já os contaminaram. Se a democracia corre sérios riscos, o comentário político não. O comentariado político já caiu no marasmo que dá azo à perda da credibilidade, que apunhala a objectividade e destrói a possibilidade do contraditório. A espécie de ultra-ortodoxia de género ideológico que destilam não tolera o contraditório e aniquila a possibilidade de estabelecer pontes e consensos. Mas os comentadores não têm culpa. Foram doutrinados pelos gurus que seguem na bruma que tolda o pensamento e a reflexão. Resta saber quais são as contrapartidas esperadas ou os favores que ainda são devidos. Tenham medo, muito medo. O extremismo do comentário político já se encontra entre nós. Está vivo e é pouco recomendável. Não sei o que é preferível: comentário político que não é comentário político, ou silêncio total.

 

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O regresso do fim das ideologias?

Hoje escrevo no Observador sobre como a guerra na Ucrânia nos coloca perante um retorno da tese do fim das ideologias. Aqui fica um excerto:

Nesta conjuntura internacional, parece-nos importante questionar se não estaremos também a assistir ao regresso da tese do fim das ideologias, desta feita com base na dicotomia entre democracias liberais e regimes autoritários. Esta já era uma característica da política internacional pós-Guerra Fria, mas a interdependência económica entre as democracias liberais e, principalmente, a Rússia e a China, levou o Ocidente a lidar com uma certa bonomia com as interferências e tentativas de subversão das suas sociedades abertas. Agora que as aparências caíram por terra, somos todos, nas democracias liberais, convocados para um confronto político e ideológico. Com raras excepções, as divergências entre a esquerda e a direita parecem dar lugar a uma coesão social que se revela no apoio à Ucrânia e na consciência de que estamos perante uma ameaça existencial ao modo de vida demoliberal. A política internacional volta a definir as convergências e cisões ideológicas. O século XXI começa agora.

Opinião não é ciência

André Barata escreveu um excelente texto sobre a relação entre política e ciência, opinião e conhecimento, nos tempos que vamos vivendo. Está destinado a eriçar os espíritos fanáticos e dogmáticos cheios de certezas absolutas e que ofendem os que não só não concordam com eles como ainda evidenciam a sua ignorância, ou não seja o anti-intelectualismo uma marca destes tempos. Já Eric Voegelin explicou que “Quando a episteme é arruinada, os homens não deixam de falar acerca da política; mas agora têm de se expressar no modo da doxa.” Não lêem, mas reivindicam um suposto pensamento original que não passa de um arrazoado de opiniões sem sustentação científica. Confundem opinião com conhecimento, ideologia com ciência e convicção com verdade. São meros subjective knowers, na classificação de Ken Bain, indivíduos que utilizam os sentimentos, as crenças, para realizar juízos de valor, em que uma ideia está certa se a sentirem certa. Há-os à esquerda e à direita, e as redes sociais, com a democratização do espaço de opinião que lhes está associada, mas especialmente as suas câmaras de eco e bolhas, acabaram por agravar este estado de coisas, mostrando à saciedade que o diálogo civilizado é bastas vezes suplantado por discussões irracionais, ataques ad hominem e teorias da conspiração. No fundo, tornaram mais evidente a ausência de critério para arbitrar entre diversas posições, restando apenas a razão da força, com tribos ou barricadas ideológicas a tentarem gritar mais alto que as suas adversárias – se não mesmo inimigas. Deixei, há já algum tempo, de ter paciência para muitas destas pessoas que pululam por aí e para as provocações e ofensas que algumas me dirigem. Muitas já teriam idade para ter juízo, mas não chegaram a atingir um certo estado de maturidade no sentido aristotélico do termo. São casos perdidos, pelo que há que manter o foco naqueles que procuram atingir a maturidade estudando e pensando de forma racional e justa. Não por acaso, os meus alunos pensam melhor que muitos dos fanáticos que andam por aí, por isso há que continuar o labor da tradição científica.

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PCP – o partido da ética, do genro e da rosca

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O Partido Comunista Português (PCP) sempre foi o moralista supremo, o campeão da ética, a auto-proclamada voz da verdade, o exemplo de justiça, o símbolo-maior de liberdade, a bandeira do universalismo dos valores humanos, o farol dos direitos dos trabalhadores, o adversário dos capitalistas, o dono da isenção ideológica, o santo padroeiro da inovação política, o exemplo-maior de fulgor existencial, o muso inspirador do cancioneiro nacional e da estrofe lusa, o intérprete exclusivo da ideia de governação, a excelsa repartição de pensamento e filosofia, o único agente da transformação civilizacional, o derradeiro instigador de revoluções e mudança de paradigmas, o timoneiro do pacifismo, o libertador das correntes do colonialismo e da opressão…e, mesmo dispondo desse património rico, bastou um genro e uma rosca para deitar abaixo tanta presunção e água-benta.

Vais querer a opção Vegan?

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O Bloco de Esquerda é  accionista maioritário da empresa do preconceito em Portugal. Destaca diversos espaços de regalia paradoxal e do efémero do absurdo. Contribui para a anormalidade ao sublinhar a etnicidade sociológica da homo-diversidade, e eterniza uma certa noção de pseudo-provincianismo – oferece conceitos e definições exactas, absolutas. Temos a barraca Queer ou a tenda Feminista. Temos o Boicote a Israel e a celebração da Palestina. E temos a opção Vegan. São compartimentalizações sectárias desta índole que confirmam os nossos piores receios. O homem não é livre. Leva um rótulo na testa e um pontapé no traseiro se optar por planos que faltam gizar. Daqui a 100 anos quando arqueólogos políticos esbarrarem com os panfletos e a propaganda, os mesmos terão sido comidos pelo bicho da intransigência autofágica. Que tristeza de festa.

 

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A direita, a esquerda e a minha liberdade

Tenho lido críticas a uma certa direita trauliteira que não tem – nem remotamente – o nível intelectual e cultural de verdadeiras referências direitistas. De facto, do Observador às redes sociais, passando pelo CDS, a direita portuguesa tem-se tornado um espaço pouco recomendável, porque dominado por caceteiros, hiper-moralistas com telhados de vidro e que não passam de aprendizes de Maquiavel, muito economês, liberalismo de pacotilha e pouca ou nenhuma capacidade de pensamento e reflexão e de diálogo moderado e civilizado com outras perspectivas filosóficas, ideológicas e partidárias. Dir-me-ão que os jornais, os partidos e as redes sociais não são universidades ou think tanks, mas quer-me parecer que o grau de indigência intelectual não necessitava de ser tão elevado. Trata-se, tomando emprestada uma expressão, de uma direita analfabeta, uma direita que pouco ou nada lê, permeada por um dogmatismo impressionante para quem, como eu, subscreve o decálogo liberal de Bertrand Russell

 

Não que a esquerda seja necessariamente melhor. Com efeito, continuamos a ter, como assinala José Adelino Maltez, “A direita e a esquerda mais estúpidas do mundo”, que “são como aquelas claques da futebolítica que afectaram socrateiros e continuam a infestar certos coelheiros, segundo os quais quem não é por mim é contra mim, porque quem não é por estes é a favor dos outros. Eu continuo a seguir a velha máxima de Unamuno: o essencial do homem ocidental é ser do contra. Para poder ser qualquer coisinha…”

 

Na verdade, a direita que habitualmente critica a esquerda por esta se alcandorar a uma certa superioridade moral, mimetiza esta atitude, o seu modo de pensar e comportamentos. Ambas reflectem aquilo a que me referi como a política do dogmatismo e a política da utopia, ambas alicerçadas no que Oakeshott chamava de política racionalista ou política do livro, da cartilha ideológica. Afinal, como também há tempos escrevi, é muito fácil ser libertário ou comunista: “Não por acaso, para o esquerdista, o Estado é o principal instrumento a utilizar e o mercado é o principal inimigo a abater, enquanto para o libertário é precisamente o contrário. Um pensador conservador pensa a partir do real, das circunstâncias práticas, sem deixar de criticar a sociedade em que vive, encontrando no Estado e no mercado diferentes esferas da vida humana, ambas necessárias a uma sociedade livre e próspera; um pensador esquerdista ou um libertário pensam a partir de um qualquer ideal e clamam contra tudo o que não se conforma a esse ideal. O racionalismo dogmático ou construtivista do esquerdista ou do libertário que defendem um valor acima de todos os outros em qualquer tempo e lugar, independentemente das circunstâncias práticas, consubstancia a política dos mentalmente preguiçosos.”

 

Talvez valha a pena relembrar uma célebre passagem de Alçada Baptista, para quem “Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.”

 

Ao que eu acrescento que conservadores não dogmáticos, que entendam a dimensão pluralista e flexível da reflexão e da praxis política a que alude Kekes, também já reparei que há muito poucos. Há muito poucas pessoas, em Portugal, que, atentando especificamente no domínio do político, compreendam o que Oakeshott transmitiu, em On Being Conservative”, ao considerar que a disposição conservadora não implica necessariamente quaisquer crenças religiosas, morais ou de outros domínios “acerca do universo, do mundo em geral ou da conduta humana em geral.” O que está implícito na disposição conservadora em política são “determinadas crenças acerca da actividade governativa e dos instrumentos do governo,” que nada “têm a ver com uma lei natural ou uma ordem providencial, nada têm a ver com a moral ou a religião; é a observação da nossa actual forma de viver combinada com a crença (que do nosso ponto de vista pode ser considerada apenas como uma hipótese) que governar é uma actividade específica e limitada, nomeadamente a provisão e a custódia de regras gerais de conduta, que são entendidas não como planos para impor actividades substantivas, mas como instrumentos que permitem às pessoas prosseguir as actividades que escolham com o mínimo de frustração, e portanto sobre a qual é adequado ser conservador.”

 

Tendo eu passado por uma escola, o ISCSP, onde, citando Adriano Moreira, aprendi “a olhar em frente e para cima”, tendo como referências mestres como José Adelino Maltez e Jaime Nogueira Pinto, tendo ao longo da última década lido e reflectido sobre diversos autores, como Hayek, Popper, Oakeshott e Kekes, ou seja, como alguém que privilegia o mundo intelectual sobre o político ou partidário, torna-se particularmente penoso não só constatar tudo o que acima escrevi, mas também continuar a compactuar com este estado de coisas através da minha condição de militante do CDS. Por tudo isto, solicitei hoje a minha desfiliação. Porque mais importante ainda do que ser do contra, é ser livre, e porque como escreveu Ortega y Gasset, “A obra intelectual aspira, com frequência em vão, a aclarar um pouco as coisas, enquanto que a do político, pelo contrário, costuma consistir em confundi-las mais do que já estavam. Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas são, com efeito, formas da hemiplegia moral.”

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