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A Europa na corda bamba

 

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Não sei se deva referir-me à União Europeia ou à Europa. Ambas existem, de facto. E a França também. Seja qual for a plataforma a partir da qual se queira observar a realidade, os indicadores não são famosos. Não é preciso um relatório Draghi para entender que a Europa (ok, fiquemo-nos pela Europa) está em apuros — falta de competitividade, excesso de regulamentação, ausência crónica de um projecto de defesa comum e défice no que concerne a consenso e sincronia políticos. Historicamente sabemos que certas crises promoveram projectos económicos e sociais, a união dos povos, e visões estratégicas de conjunto. Não é líquido que, no plano europeu, possamos concluir que as arestas de diferenças poderão ser desbastadas de um modo satisfatório quando colocamos sobre a mesa a guerra na Ucrânia e os eventos que afligem Gaza. Diria o seguinte: são mais as razões que afastam as nações europeias umas das outras do que aquelas que as fazem convergir. A ideia de comunidade europeia, o embrião que deu origem ao projecto de união, está expressivamente fragilizada. A quantidade de mecanismos e artefactos de ajustamentos e concessões já não serve para dissimular a dureza dos factos. A União Europeia (ok, desta vez a união) ficou ensanduichada entre Putin e Trump. A relação transatlântica já não é o que era, e a Rússia parece estar a erigir uma nova cortina de ferro — um traçado que demarca cruamente onde a realpolitik e o idealismo se confrontam, se digladiam. Nem o fim da história nem o choque de civilizações servem para interpretar os desafios do presente. Assistimos a alterações da matriz que assumimos como inquestionável. A linguagem empregue está aquém das palavras requeridas e da ação que urge. A União Europeia evidencia-se no sistema internacional como um actor passivo, sujeito a intempéries alheias. Talvez seja o momento, à laia de Putin ou de Trump, para achocalhar as bases que sustentam convições defraudadas. De facto, não sei ao certo. Talvez seja europeu e não o saiba.

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A Bastilha, Jacarés e Política

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Emmanuel Macron declara que para ser livre neste mundo é obrigatório ser temido, ser poderoso. Onde já escutámos isto? Soa intensamente familiar. Não nos esqueçamos de que a Bastilha,  uma fortaleza medieval,  serviu de prisão política — um Alcatraz francês, se quisermos.  O fosso de água em torno da Bastilha não estaria infestado de jacarés como nos Everglades da Flórida, mas existem paralelos que podem ser extrapolados: um símbolo de repressão empregue pela monarquia para castigar os seus detractores — no king! A tomada de força expressa pelo presidente francês coloca em primeiro lugar os interesses da França, e depois aqueles da Europa. É curioso que não refere a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN) uma vez sequer. Ou seja, o que afirma constitui uma clara demarcação em relação aos E.U.A. — a vocalização tácita da sua independência em relação à superpotência e à aliança. O aumento da despesa em defesa promove o presidente a Marechal, a Marechal Macron, se quisermos.  Existem ainda outras nuances que devem ser escrutinadas. Estabelece enquanto axioma de valor acrescido a liberdade, mas não refere a democracia como alavanca fundamental para a sua preservação. Perguntemos então se, in extremis, face a eventuais agressões e ataques à soberania, devemos aceitar a ideia de democracias mitigadas e o reforço da autoridade, o autoritarismo? Talvez uma parte da resposta esteja a ser dada pela via orçamental. Servindo-se da justificação securitária acrescida, fica demonstrado que paulatinamente pode ser lançado um regime de excepção que cancela valores mais altos, e eventualmente direitos e garantias fundamentais dos cidadãos.  O que enfrentamos societariamente é algo corrosivo, como vem expresso no enunciado de Macron. O que devemos depreender é a noção de que a erosão de democracias tem início no seu seio, no seu âmago. Não resulta necessariamente de ventos que assolam outras latitudes. Enfim, talvez não seja uma verdade de La Palisse ou de Lacoste, mas a dentada política far-se-á sentir mais cedo ou mais tarde.

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Bugalho e um par de botas

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Sebastião Bugalho tem o peito inchado. Discorre sobre os grandes desígnios da Europa. A sua ambição é maior do que a própria União Europeia (UE). Apresenta-se como Secretário-Geral das Nações Unidas da Europa e refere diversos planos Marshall em simultâneo. Ao mesmo tempo faz lembrar o mito de D. Sebastião que surge por entre a neblina da ignorância para salvar as pobres almas lusas dessa condição fatal. Fala sobre um tudo para todos da ascensão económica e social, a possibilidade do apanhador da azeitona deixar de ser azeiteiro. O calceteiro que deve abandonar essa arte em nome da aeronáutica espacial. A peixeira tornada gourmet das ovas. Bugalho vai defender a democracia, mas omite que é um produto mediático fabricado sem provas dadas no mundo real onde contam mais as ações do que as palavras. Este embandeirar em arco é algo típico de regimes de seleções nacionais. A ideia dos Ronaldos da vida que podem resgatar equipas disfuncionais. É esse o seu cotovelo de Aquiles — a pose de estadista sem licença para governar. Mais uma vez os media servem-se do delfim para servir os seus propósitos: validar a ideia de que o embrulho vale mais do que o conteúdo. Se apenas escutássemos o Bugalho ficaríamos com a ideia de que o Sebastião é a Europa e o resto é paisagem, que os outros Estados-membros da UE não têm candidatos porventura amplamente mais competentes e capazes. De uma assentada, de repente, Bugalho domina todas as pastas políticas, todos os temas que ainda nem sequer foram inventados. Infelizmente, faz lembrar outro no qual depositávamos grandes esperanças para liderar a banda, mas que já demonstrou de um modo inequívoco e presidencial que descarrilou por completo. Os tiques sobranceiros da perda da auto-percepção já estão presentes neste jovem. O rapaz tem muita garganta, mas não sabemos muito mais. Sabemos que repete diversas vezes a expressão númerica em língua europeia: sixty-five. Para já não passa de um Bugalho e um par de botas.

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Macron Bonaparte

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Para atenuar os efeitos nefastos na mioleira, gerados pela verborreia incessante de políticos em campanha e comentadores de serviço em Portugal, hoje volto-me para outro personagem toldado por manias de grandeza europeia. Macron Bonaparte, que ambiciona ser o lider da Europa, não se inibe de produzir declarações no mínimo inflamatórias e que colocam em risco nações europeias. Ao sugerir a ideia de colocação de soldados de países europeus no teatro de operações da Ucrânia, fala como se já houvesse um consenso militar, como se já existisse um exército da União Europeia, como se a Europa não dependesse da sombrinha protectora dos EUA e por extensão da NATO — e como se a Rússia não existisse. Um lider que produz este género de declarações, esconde algo mais dramático na manga. A França que se encontra a braços com uma revolta agrária, é sobretudo uma sociedade fracturada, dividida e guetizada, fruto da realidade islâmica e de décadas de pilarização. Macron encontra assim um modo de incendiar a casa europeia, uma vez que França representa o maior exemplo na Europa de como a integração falhou. Não me refiro à integração europeia — que também padece de males, mas da sua própria sociedade, da qual os cidadãos mais abastados fogem para encontrar refúgio em Portugal, no bairro agora conhecido por Champs d´Ourique.

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Programa para hoje

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A última sessão do conjunto de webinars Presidência Portuguesa: As ‘5 Europas’ realiza-se no dia 24 de junho pelas 18h através da plataforma zoom.

A “Europa Global”: Nós e os Outros, será uma discussão sobre a inserção internacional da UE, o relacionamento com vários parceiros económicos e políticos, desde o Reino Unido e os EUA ao espaço Indo-Pacífico e continente africano.

O webinar conta com a participação de Ana Gomes (Embaixadora) e Nuno Severiano Teixeira (FCSH/UNL). A moderação será realizada pela Investigadora do CAPP, Professora Doutora Maria João Ferreira.

Seguem os dados de acesso ao Zoom:

Link Zoom: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/86842479021?pwd=ZWZxY1RwbU1ha3Z6NytueU1EL2V4UT09
Meeting ID: 868 4247 9021

Contamos com a vossa presença!

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Ciclo de Webinars “A Europa em tempos de (Des)União: Reflexões e Prospetiva”

O Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP) do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – Universidade de Lisboa promove um ciclo de webinars subordinado ao tema “A Europa em tempos de (Des)União: Reflexões e Prospetiva”. As sessões serão realizadas via Zoom, estando sujeitas a inscrição prévia através deste formulário. Podem encontrar mais informações no site do CAPP. 

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Do eterno retorno

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Patrik Ouředník, Europeana:

E em 1918 espalhou-se por todo o mundo uma gripe a que chamaram espanhola e que matou mais de vinte milhões de pessoas. Os pacifistas e antimilitaristas disseram mais tarde que estas também foram vítimas da guerra porque tanto os soldados como a população civil viviam em condições higiénicas miseráveis mas os epidemiologistas diziam que a gripe tinha matado mais gente em países que não tinham sido atingidos pela guerra em ilhas do Pacífico na Índia ou nos Estados Unidos e os anarquistas disseram que estava bem assim porque o mundo está podre e no caminho da perdição.

Mas outros historiadores disseram que o século XX na realidade tinha começado mais cedo que se tinha iniciado com a revolução industrial que perturbou o mundo tradicional e que a culpa era toda das locomotivas e dos barcos a vapor. E outros ainda diziam que o século XX tinha começado quando se chegou à conclusão que o Homem descende do macaco e havia quem dissesse que descendiam menos do macaco que outros por terem evoluído mais depressa. Depois apareceu gente que se pôs a comparar as línguas e a perguntar-se quem tem a língua mais evoluída e quem está mais longe no processo civilizatório. A maioria achava que era o caso dos Franceses porque em França acontecia todo o género de coisas interessantes e os Franceses sabiam conversar e usavam conjuntivos e condicionais passados e brindavam as mulheres com sorrisos sedutores e as mulheres dançavam o cancã e os pintores inventavam impressões. Já os Alemães diziam que a verdadeira civilização tinha de ser frugal e próxima do povo e que tinham sido eles a inventar o romantismo e muitos poetas alemães escreviam sobre o amor e nos vales andavam as brumas. Os Alemães diziam que eram eles os porta-estandartes naturais da civilização europeia porque sabiam fazer a guerra e o comércio mas também organizar convívios populares. E que os Franceses eram arrogantes e os Ingleses presunçosos e que os Eslavos nem tinham língua que se prezasse e que a língua era a alma da nação e que os Eslavos não precisavam nem de nação nem de Estado porque tais coisas só haveriam de lhes fazer mal à cabeça. E os Eslavos por sua vez diziam que isso não era verdade que na verdade tinham uma língua que era de todas a mais antiga e que isso era fácil de provar. E os Alemães chamavam aos Franceses COMEDORES DE LESMAS e os Franceses tratavam os Alemães por CABEÇAS DE CHUCRUTE. E os Russos diziam que toda a Europa estava em plena decadência e que os católicos e protestantes tinham estragado a Europa até ao tutano e propunham-se correr com os Turcos de Constantinopla e em seguida anexar a Europa à Rússia em nome da salvação da fé.

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A crítica é a alma das democracias liberais

Hoje escrevo no Observador sobre como o processo de crítica imanente é central nas democracias liberais e na competição entre estas e potências revisionistas não-democráticas, como a China e a Rússia, que visam subverter a ordem internacional liberal. Aqui fica uma passagem:

A superioridade, nas mais diversas áreas, das sociedades demo-liberais em relação às não-democráticas resulta em larga medida deste processo de crítica que opera através da liberdade de expressão, do debate público, da concorrência e da inovação, permitindo às sociedades corrigirem o seu rumo com base nas experiências passadas, mudando de forma gradual, reformista ou evolucionista, não de forma revolucionária, como frequentemente acontece em sociedades fechadas.

(também publicado aqui.)

Para um debate sobre a política externa portuguesa numa época de turbulência

Esta semana podem encontrar um artigo da minha autoria no Prisma, nova plataforma de slow journalism do Jornal Económico, em que viso contribuir para o debate sobre a política externa portuguesa na era de turbulência em que vamos vivendo, marcada pela crise do euro, crise dos refugiados, Brexit, Trump, Putin, Merkel, populismo, eurocepticismo, fundamentalismo islâmico e uma União Europeia à procura de perceber o seu futuro.

Catalunha! Bem-vinda à Europa

 

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Os Estados Unidos perderam a Guerra do Vietname. O Presidente John Fitzgerald Kennedy foi assassinado. O muro de Berlim caiu. O que têm em comum estes três eventos? O desfecho de cada um foi determinado pela vontade humana. De nada valeram constituições, escaladas militares ou a construção de vedações. O mesmo sucede na Catalunha. Olhemos com rigor para o que sucede, e para além dos tratados redigidos em Madrid. Esqueçamos Bruxelas e a União Europeia. O povo, mesmo que desunido, é quem mais ordena. Assistimos chocados, do conforto da nossa poltrona de superioridade intelectual e civilizacional, à História. Ao desenrolar de eventos que polvilham o cenário dinâmico da história política da Europa, mas também do resto do mundo. Sempre assim foi, e decerto que assim continuará a ser. No seio da Europa da União, da paz imaginada por Schuman e outros estadistas no rescaldo da segunda Grande Guerra, registamos agora algo inédito com consequências potencialmente surpreendentes, violentas. Madrid, se quiser fazer valer os factores de coesão da união espanhola, terá de implementar medidas de coacção que em muito transcendem a estrutura administrativa e política forjada em documentos validados por assinaturas. Não creio, dado o extremar de posições, e a efectiva Declaração de Independência da Catalunha, que exista uma mecânica possível de reversibilidade, de regresso ao status quo anterior. Prevejo o uso de força de Madrid, numa primeira fase moderada e, numa segunda fase, na sequência da contra-resposta dos independentistas de facto, um agudizar dos métodos repressivos e uma escalada da resposta da Catalunha. Não esqueçamos que Espanha detém um legado que facilita a disposição das peças no tabuleiro. O regime de Franco aperfeiçoou os métodos, que com a revolução foram metidos na gaveta, mas que não foram inteiramente esquecidos. A Europa pode muito bem ganhar mais uma república, mesmo que a UE não venha a somar ou a subtrair um membro – o artigo 155 não parece valer grande coisa.

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