Os corredores diplomáticos de há perto de três décadas, confirmavam as suspeitas lançadas pela Casa Imperial iraniana. Sobretudo por duas razões, os norte-americanos da catastrófica administração Carter ter-se-iam interessado pela queda do Xá Mohamed Reza Pahlevi: a primeira respeitaria à cada vez maior proeminência do Irão no Médio Oriente, estando em vias de obter uma confortável independência face à tutela estabelecida por Washington após a queda de Mossadegh. O Xá era poderoso, estava cada vez mais crítico – tinha relações com os israelitas, mas atrevia-se a criticar a exclusivista política americana na região – e agia demasiadas vezes segundo o exclusivo interesse do seu país, sendo isso intolerável. Segundo aquilo que normalmente se alega, “falou demais”, não hesitava em apontar as falhas internas dos seus teóricos aliados.
A segunda razão consistia nas ambições nucleares que o soberano acalentava, prevendo a rápida modernização do país e insistindo numa fonte de energia alternativa ao petróleo que exportava. Não se excluía também a possibilidade de passada a fase da energia para fins pacíficos, o Irão ingressar no restrito clube das potências nucleares. Para outro país daquela parte do mundo, isso seria intolerável. Conseguiu-se impedir o caminho gizado pelo Xá, mas acabou por ser o Paquistão o beneficiário.
O Irão alcançou uma importante vitória em vários sectores. Diplomaticamente quebrou a unidade ocidental, conseguiu esbofetear o Estado de Israel e iniciou uma fase de degelo que externamente oferece alguma legitimidade ao regime absolutamente tutelado pelo clero xiita. Economicamente as vantagens são imensas, conseguindo aquilo que o regime de Saddam jamais obteve, ou seja, o levantamento de sanções que antes de tudo estavam a minar gravemente o regime, fazendo desesperar uma população que hoje se encontra muito longe dos padrões de consumo e de progresso material e social dos tempos do Xá. Esta conferência poderá significar a salvação do regime islâmico e as autoridades locais estão muito justamente eufóricas. O Ocidente cedeu e numa época de profunda crise, os negócios estabeleceram o diktat.
As garantidas dadas pelo governo de Teerão, não valem a folha de papel em que foram escritas. Todos o sabemos, embora os ocidentais tentem dourar-nos a pílula.
Não é apenas Israel que teme os resultados desta conferência internacional. Todos os vizinhos do Irão estão receosos pelo evoluir de uma situação que queiram ou não queiram os norte-americanos, acabará por conceder a Teerão a arma final. Tratando-se apenas de uma questão de tempo, não são de descartar alguns realinhamentos estratégicos na zona.
Há perto de oitenta anos, a Alemanha remilitarizou a Renânia, denunciou – com toda a justiça, há que dizê-lo – o Tratado de Versalhes e daí rapidamente passou à ofensiva diplomática, económica e militar. É este o longínquo paralelo que em primeiro lugar a quase todos ocorre: Munique.
Não deverá ser muito difícil proceder a um exercício de imaginação acerca daquilo que a administração de Obama significará para a história, mas de um dado podemos estar certos: com alguma baraka para os iranianos, o risonho Sr. Obama concedeu-lhes a bomba atómica. Bem pode correr escadas acima para bordo do Air Force One. Missão cumprida.






