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O vote appeal de Seguro

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Se votasse cá, seria no António José Seguro. Passo a explicar em resumidas palavras. Mas vamos por partes. Depois de dois mandatos histeriónicos, em versão benigna de populismo, multiplicados pelo dom da ubiquidade do gelado na testa e da feira do livro, os portugueses estão saudosistas da serenidade e do recato, da temperança e da discrição. Os portugueses estão de ressaca. Não se trata de casas ideológicas ou causas partidárias. Quando olho para Seguro vejo o Partido Socialista (PS). Vejo o PS de António Costa, e o próprio, a dar umas valentes bofetadas a Seguro —  muito feio, foi muito feio, mas adiante. Assim de repente, muito oportunamente, os socialistas que votaram ao abandono Seguro, agora festejam a sua proposta presidencial, irrecusável. O candidato Seguro, que já não lhes pertence, tem um vote appeal maior do que o Largo do Rato. Pela leitura que faço e pela evidência das palavras proferidas por Seguro, o seu perfil preenche os requisitos de Belém. Será capaz de se abster de cair no limbo da amizade governamental, para ser apreciado pelo camarada acidental. Será suficientemente hábil para não puxar da selfie fácil para gaudio próprio e devoção epidermal dos portugueses. Será astuto para saber quando oferecer uma palavra ou subtrair outra. Mas mais importante do que tudo isto — apresenta-se com um grau de descontaminação político mais que bastante. Não corre o perigo de dar à luz conflitos gémeos de interesses, ao contrário de Marques Mendes que até pode desconectar-se da Abreu $ Associados, mas não se livra de um extenso caderno de encargos, inúmeros dossiês e décadas de argolas. E há mais. O tom paternalista de Marques Mendes não serve para nada. Ele bem que tentou emular a receita pré-presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa aquecendo claramente a cadeira de comentador televisivo, mas essa fórmula só funciona com o original. A malta não vai em conversa de Temu ou Aliexpress. O maverick presidencial tem de ser autêntico, inigualável. Muitos acharam que o Marques Mendes deu uma tareia no Cotrim ao vivo e a dores, mas não. Marques Mendes foi autofágico — demonstrou que rasteja na lama das tricas, que desce aos pântanos onde grassam as larvas e as miudezas dos tira-teimas. Agora imaginem o que seria se eu votasse em Portugal?

 
Photo copyright: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

 

O PS ficou em prisão domiciliária

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O Partido Socialista colocou-se numa situação difícil. Diria mesmo que ficou em prisão domiciliária. A derrota eleitoral da noite de ontem põe em evidência alguns factos relevantes. António Costa, que fez da alternativa de confiança a sua bandeira de campanha, nem sequer é alternativa de si mesmo, mas ficou preso à cadeira do Largo do Rato como se não fosse arguido de uma noite eleitoral para esquecer. António Costa não se apresenta como um homem toldado pelos mais recentes acontecimentos. O que ontem aconteceu deveria ter implicado outro discurso. Em primeiro lugar, e em nome do fair-play democrático, congratular a coligação Portugal à Frente (PàF) e os portugueses pela escolha dessa maioria (mesmo que relativa). Em segundo lugar, e sem demoras, apresentar a sua demissão à luz de um outcome insuficiente, servindo-se da mesma régua que serviu para admoestar António José Seguro. São comportamentos desta natureza, que “administrativamente” podem dizer apenas respeito aos socialistas, que transbordam para o espectro integral da matriz electiva nacional – os portugueses viram e tornam a ver incongruências, e isso afasta-os cada vez mais, para gaudio do Bloco de Esquerda que soube interpretar as deficiências congénito-políticas do partido rosa. Os socialistas, pela mão de Costa, parecem não estar interessados em aprender. Repetem erros e mais erros que minam os fundamentos da representatividade partidária. As consequências do descalabro de Costa devem se fazer sentir o mais celeremente possível no Largo do Rato. A coligação, por seu turno, pode encarar a maioria relativa como algo de positivo. Um governo, fragilizado pelo número de assentos parlamentares, pode aproveitar a dissonância para conduzir a governação de um modo que assenta no envolvimento colectivo. As propostas que a coligação venha a apresentar em sede legislativa podem ser inviabilizadas pela oposição, mas a plenitude dessa negação recairá sobre os ombros de Costa e sua bancada parlamentar. O Partido Socialista (PS), se for inteligente, poderá aproveitar a estrada que tem pela frente para capitalizar junto da população portuguesa, demonstrando que é capaz de pensar para além do lugar dianteiro reservado aos ganhadores. O conceito de lead from behind seria um modo do PS paulatinamente renascer das cinzas. Mas não me parece que o ego político de António Costa queira acomodar o melhor para o país. A aposta foi de tudo ou nada. Pelos vistos o tema monolítico da Austeridade tem mais nuances do que os olhos querem ver. Aguardemos com expectativa, e com algum grau de suspeição, para confirmar se António Costa pretender mesmo lançar Portugal no marasmo político. Apenas mais uma coisa para terminar e que salta à vista de um forasteiro como eu: em Portugal temos quase sempre um grupo de génios que é sempre melhor que o outro grupo de atrasados mentais.

O congresso do PS ou como pensar pequeno

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O congresso do Partido Socialista (PS) confirma o que nós já sabíamos, e o que certamente transcende aquela unidade política. Os lideres não estão à altura dos desafios que enfrentamos. Este fim de semana fomos agraciados com prestações de nível intelectual medíocre. O que está em causa é muito maior do que saneamentos internos, escândalos socráticos, viragens à Esquerda, rejeições da alianças ou maiorias absolutas. O que está em causa é areia demais para a camioneta destes protagonistas. Ou seja, a capacidade de pensar um modelo societário profundamente diferente daquele que nos conduziu ao descalabro. António Costa, Ferro Rodrigues, e os outros recrutas, simplesmente não têm a visão e a cultura para repensar a sua condição. O congresso do PS eterniza os mesmos vícios que definem a política. Os arranjos internos são mais importantes do que uma abordagem integrativa de soluções trans-políticas, para além da ideologia. Por outras palavras, a fonte da ideologia já não serve de um modo pertinente para encher as medidas das pessoas carentes de soluções “civis” – respostas económicas e sociais desprovidas de assinatura programática ou ideológica. Pelo que escutamos ontem, podemos afirmar que o PS deseja (mais uma vez) reclamar o estatuto de fundamentalista da verdade política. Os socialistas não conseguem esconder o vazio que permeia o seu espírito. Servem-se da mesma cartilha para enfrentar um mundo radicalmente diferente. São vítimas dos mesmíssimos paternalismos que enfermam os seus processos de pensamento. Definitivamente, a filosofia e a política estão divorciadas. De nada serve o lirismo bacoco de Alegre ou o apelo ao rasgo visceral da violência doméstica. A política, quando é eticamente movida, parte de uma base racional, metódica e autocrítica. Quando as emoções se tornam arma de arremesso sabemos que pouco ou nada resta. A agremiação deste fim de semana foi um mero exercício de austeridade de pensamento, ou simplesmente, um caso de pequenez.

O campeão do Largo do Rato

António Costa está feliz e contente. Os camaradas socialistas estão felizes e contentes. Mas para continuarem a sorrir vão ter de mentir e muito. Vão ter de convencer os portugueses que a Troika não existe, que o memorando nunca foi assinado, que não existem compromissos financeiros incontornáveis, que a dívida será resolvida por si, que o desemprego baixará dramaticamente assim que formarem governo, que vai haver orçamentos sempre extremamente favoráveis, e, que quando chegarem ao poder vão resolver todos os problemas que Portugal enfrentar. António Costa bem pode anunciar o início de uma nova maioria de governo e acumular a pasta da presidência da câmara e da secretaria do partido socialista (PS), e exercer o magistério da superioridade política e intelectual que afirma deter – as tais condições que Seguro não reunia -, mas António José Seguro ficará na história política do partido socialista e do país por ter obrigado um partido a entrar em alvoroço, a colidir com a sua condição endémica, a revelar os seus vícios e a sua tendência arcaica para entronizar os mesmos de sempre. Os últimos meses serviram para confirmar os nossos piores receios – o poder é um fim em si. A política não pertence aos partidos, pertence a um concílio eterno, a um cartel disposto a regressar às lides. Vimos ontem os camaradas Ferro Rodrigues, Maria de Belém Roseira, assim como a darling Ana Catarina Mendes, efusivos com a “vitória da casa”, a piscar o olho e a esfregar as mãos com a possibilidade de um retorno ao executivo ou, nalguns casos, com uma estreia auspiciosa. E o problema é esse. A deixa de Seguro não serviu de grande coisa. Não aproveitaram o quadro maior das suas intenções. Não o escutaram para além da sua voz. Os intentos do outsider esbarraram com os barões que nunca poderiam autorizar o seu próprio fim. A triste conclusão que podemos tirar deste processo, é que o PS não se renovou, nem se renovará. Mas o mais grave de tudo isto é a confirmação de que o povo português é tradicionalista, conservador. Não quer a mudança, embora se sirva da mobilização enquanto engodo, decepção. Porque mobilização nada tem a ver com mudança. Mobilização tem mais a ver com mobília. Cadeiras que se arrastam de um local para o outro, sem que se mexa no estilo, no design, nos amigos de sempre que se sentam à volta da mesma mesa. E mudança também tem a ver com móbilia, mas neste caso nem sequer foram urbanos na aplicação deste conceito. Ninguém saiu da sua zona de conforto, ninguém saiu de casa para se aventurar na genuína alteração das condições de exercício político em Portugal. Para já António Costa é o campeão absoluto do Largo do Rato. E pouco mais.

Punhadas socialistas

Anda tudo espantado com o baixo nível do derradeiro debate televisivo que opôs Seguro a Costa, ou vice-versa. Não se trata de baixo ou alto nível. As coisas são o que são. Ponto final. Não me venham com a conversa de indignação, de espanto pela falta de decoro. As ilusões há muito que foram estilhaçadas. Estes dois políticos resultam do mesmo sistema. Um mais do que outro. Foi a matriz democrática dos últimos 40 anos que autorizou este género de lideres. Ataques pessoais? Não me parece. E pela simples razão dos negócios político-partidários deste país assentarem na premissa da pessoalidade, dos conhecimentos e das amizades. Então, se é essa a prática, a linguagem deve ser coerente com a mesma. Seguro fez muito bem em inaugurar uma série de ataques às condições endémicas do partido socialista, à promiscuidade entre a política e os negócios, contingências essas que são transversais ao universo político, partidário e ideológico de Portugal. Do mesmo modo que se exige transparência, rigor e legalidade na conduta do primeiro-ministro (refiro-me ao caso Tecnoforma), também seria expectável um escrutínio preventivo em relação àqueles que se apresentam como salvadores da pátria, futuros governantes. O que Seguro fez, no terceiro round, nos sucessivos assaltos, nada tem a ver com o sagrado e o profano do discurso político. Todos os Godinhos da cena política nacional devem ser arrastados para a praça pública para tirar a limpo as consequências. O problema, que aflige mais Costa do que Seguro, é precisamente esse. A ideia de que o sucesso político e a consolidação de poder dependem de uma boa rede de apoio que opera nas margens do exercício político em sentido restrito. Ao longo dos anos António Costa praticou a mesma religião de sempre, cultivou as mesmas tradições de envolvimento da sociedade civil a seu favor, em seu benefício. É esse o espólio de que dispõe Costa, designadamente junto dos agentes culturais, dos proto-intelectuais, da boémia das modas lisboetas. Porventura sem o desejar, mas em resultado das condições de disputa, Seguro levanta lebres importantes, mas, o mais provável, à boa moda portuguesa, é que o atavismo ganhe, qualquer que seja o candidato a levar o troféu das Primárias.

António Costa, presidente voluntário de Lisboa

A expressão sacudir a água do capote assenta que nem uma luva. António Costa demonstra mais uma vez que não tem o que é preciso para governar um país:“foi mais o susto que o prejuízo” (?). Não sei há quantos anos este político lidera os destinos da cidade, nem sei há quantas décadas anda o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles a se bater pelas causas da eco-sustentabilidade de Lisboa, mas António Costa nem sequer é capaz de limpar as sarjetas e os sistemas de drenagem de águas. E se um sismo de grandes proporções ocorrer, is Costa our man? Não me parece. Onde esteve António Costa quando os rápidos desceram pela Av. da Liberdade? Não o vi de galochas ao lado dos senhores da protecção civil. Não o vi mais ou menos molhado. Ah, já percebi. Se aparecesse em cena seria logo acusado de estar em campanha, de se aproveitar despudoradamente do evento para granjear uma opinião favorável junto dos simpatizantes. Mas não é disso que se trata. Trata-se simplesmente de estar no exercício das suas funções. De fazer o que lhe compete. Em vez disso, apresenta-nos um paleio empírico de águas em abundância, surpresas e sustos. A água que certamente irá regressar a Lisboa para apanhar desprevenidos outros autarcas, levanta a eterna questão, permanente: de que modo a cidade de Lisboa tem vindo a redesenhar a estrutura sobre a qual assenta o seu futuro? Em plena festa de protesto climático em todo o mundo, Lisboa levou um aviso sério, mas os mesmos desafios que puseram os lisboetas com água pelos joelhos, são transversais à integridade do país, à sua totalidade. Seguro que também quer mandar, também não soube aproveitar a deixa. Viram-no de galochas a armar-se em bombeiro? Não vi nada. Em 1927, o Estado do Lousiana, EUA foi devassado pelas cheias que se viriam a tornar épicas. O então presidente Coolidge acorreu logo ao local para emprestar a sua aura de lider e dar confiança aos cidadãos. É óbvio que o que aconteceu ontem não se pode comparar com a catástrofe da cidade de Evangeline, mas o chefe Costa não cumpriu os requisitos mínimos. Se acontecer algo realmente devastador nesta cidade, pelo menos sabemos com o que não contamos. Não contamos com presidentes de câmara capazes de pensar nas questões de fundo subjacentes ao governo de uma cidade ribeirinha. E diz ele que quer ampliar os resultados da gestão de Lisboa ao resto do país. Ao que restar dele.

O mundo infantil das primárias

Enquanto uns realizam testes primários, outros demonstram ao mundo o valor da ausência da palavra. Enquanto uns discutem IVAs e restaurantes, outros redesenham mapas de continentes. Enquantos uns estão à janela, outros organizam respostas concretas a ameaças substantivas. Enquanto uns falam de traições, outros dão facadas. Enquanto uns estão focados em si, outros sabem que deixaram de ter importância. Enquanto uns angariam simpatizantes, outros inscrevem combatentes. Enquanto uns pensam em tachos, outros aumentam a pressão da panela. Enquanto uns dormem, outros estão acordados. Enquantos uns são o que são, outros nem isso conseguem ser.

Sobre o debate de ontem

Do que se pode ler por aí, o Pedro Correia talvez tenha feito a análise mais isenta. Da minha parte, pareceu-me que António Costa saiu vencedor. Em larga medida porque, como escreve Luís Aguiar-Conraria, “Seguro teve momentos patéticos”. Tenho alguma dificuldade em ver o empate técnico de que fala Luís Menezes Leitão, especialmente porque logo nos primeiros minutos Costa esvaziou o suposto programa de Seguro. Nas palavras de João Miguel Tavares:

Costa provou que aprendeu com os erros do debate da TVI, encostando várias vezes Seguro às cordas com o achado que foram as “seis propostas e meia” novas das 80 medidas do Contrato de Confiança, e atirando-se à sua jugular após a enorme argolada da “janela do município”. Bastou ver o ar destroçado de Seguro no final do debate, sem sequer conseguir valorizar as propostas de uma nova lei de incompatibilidades (importantíssima) ou de uma nova lei eleitoral.

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