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Lei do turista acidental

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Serve de fraco exemplo a cidade de Albufeira — avança a autarquia com um rolo de recomendações de bom comportamento para turistas-hooligans, na sua maioria britânicos. Dá vontade de rir. Já que estamos numa de tira-teimas no que diz respeito à Lei dos Estrangeiros, sejamos sérios e contundentes em relação ao fenómeno da violência e perturbação da ordem pública perpetrada por turistas forasteiros. O Turismo de Portugal é uma das entidades responsáveis pelo declínio acentuado do nível da oferta turística — o barato sai caro. A ideia grandiosa da multiplicação exponencial dos pés de turistas no chinelo, gizada às três pancadas, colocou Portugal à boleia da ilusão de ganhos rápidos. A corja de f…g drunken delinquents vem para estragar o bom que Portugal ainda (enfâse no ainda!) tem para oferecer. Sem demoras, vamos directo ao assunto política e moneytariamente inconveniente. Transgrediu? Agrediu? Insultou? Desrespeitou? Simples. Crie-se um cadastro para o turista acidental que, conforme a gravidade, perde o acesso ao território nacional de acordo com uma tabela de sanções. Esses cockneys e afins querem confusão? Façam-se à estrada de Brighton ou Liverpool entoando cânticos em pronúncias indecifráveis. Basta. Não mais. Para não usar a bandeira de uma força política que por aí anda. Chaga.

créditos fotográficos: Metro News

A prova cega da Inteligência Artificial

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No tabuleiro internacional não existem vazios de poder. Os espaços disponíveis são prontamente abarbatados por actores com apetite global. Por outras palavras, o proteccionismo dos E.U.A., de trancas à porta, parece corresponder ao incremento do multilateralismo da República Popular da China (R.P.C.) em diversos sectores — uma espécie de (nova)chamada ao Ocidente, e ao mesmo tempo o desejo da sua ascensão à liderança de uma nova ordem global. E o campo da Inteligência Artificial (IA) não será excepção. Os chineses perceberam que uma organização internacional para a IA ser-lhe-ia proveitosa — mais uma forma de projeção de poder. Paradoxalmente, será difícil conter algo que pela sua natureza exploratória não é passível de ser trancado. A R.P.C. parece prometer o diálogo multilateral para com os parceiros estrangeiros, ao mesmo tempo que pratica o refrear de liberdades dos seus próprios cidadãos. No cerne da questão reside a dúvida existencial — a IA promove a democracia ou avança as causas do autoritarismo? E se a IA ganhar a sua própria consciência ideológica, será que não teremos de lidar com um novo actor político desprovido de território, cultura, que não serve nações ou estados, mas que condiciona tudo e todos? Em quem iremos confiar? E que novas modalidades de crenças serão geradas? Como se pode restringir o ADN mutante da tecnologia que nem sempre anda a par e passo com as aspirações da humanidade? E mais uma vez somos confontados com a noção de que a ética deve imperar, que a mesma deve procurar balançar o justo com o proveitoso. Enfrentamos neste momento da história, como em tantos outros, dilemas. Poderá existir IA que se autoregula? Como pode o homem aspirar a dominar o monstro que está a criar? Talvez possamos invocar as tormentas de 1984 ou afins, mas os arquétipos e os símbolos mais escuros já não servem à caracterização do mundo que se avizinha a passos largos. As amostras do maravilhoso mundo novo são parcas e inconsistentes. A prova parece ser cega. 

Moralmente miseráveis

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(fotografia da CNN)

Um mundo que permite que Israel faça isto é um mundo moralmente falido. Depois de bombardeamentos indiscriminados e de centenas de assassinatos de pessoas que tentam obter bens alimentares em postos de ajuda humanitária, Israel optou agora por matar pessoas à fome, o que não tem qualquer defesa ou justificação possível. Um Estado que condena crianças à morte pela fome, ainda por cima tratando-se de um país fundado por uma nação que sofreu o que todos sabemos com o Holocausto, pode repetir até à exaustão que é a única democracia do Médio Oriente e que está simplesmente a combater o Hamas, mas as suas acções não deixam margem para dúvidas sobre as suas intenções genocidas.

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O banco que vai dar barraca

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Não é preciso ser vidente para saber que a construção da nova sede do Banco de Portugal vai dar barraca. Ainda por cima a mesma será paga a suaves prestações como se de um aparelho auditivo se tratasse, ou de uma frigideira. Obras públicas que envolvem somas avultadas implicam, de um modo geral, cambalachos, prevaricações e desvios. Não há volta a dar. Quando o guito é muito, aparece sempre malta que não sabia de nada e que nada teve a ver com os desfalques. A sua localização, nos antigos terrenos da Feira Popular, não poderia ser mais adequada — montanhas russas e carrosseis. A expressão parque de diversões serve na perfeição, e rima com distrações. É muito curioso que na terra do Tio Sam já haja quem esteja a implicar com a renovação da sede da Reserva Federal. Mas naquelas paragens sabemos bem porquê, por isso irei refrear-me de tecer mais considerações. Enfim. O que queria hoje redigir já está a descarrilar. Tinha intenções de aflorar o tema das casas pré-fabricadas que estão a ser polvilhadas sobre a paisagem de Portugal. Segundo relatos de um técnico camarário, cuja identidade irei preservar, cada vez mais o concelho algarvio que lhe diz respeito está a ser devassado por estas habitações rápidas, que em termos de licenciamento deixam muito a desejar. Não entrarei pela porta das considerações estéticas e da poluição da paisagem tradicional. Isso terá de ficar para outro momento. O que saltou à vista da córnea, no contexto da crise do Talude em Loures, foi a possibilidade imediata de fazer uso desta unidades pré-fabricadas para suprir a necessidade urgente de habitações. Parece imoral referir os muitos milhões de euros para fazer face a um novo edifício-sede do Banco de Portugal quando, com quantias bem menores, seria possível conceber de raiz um bairro social. Dirão muitos que uma coisa não tem a ver com a outra. Mas no meu entender, passou a ter. A única certeza que temos é que as eleições presidenciais serão disputadas. Segundo a última contagem, já teremos para cima de dez candidatos. Até podiam ser mais e não faria grande diferença. Os despejados do bairro do Talude não votam nestas paragens. E por não representarem uma divisa eleitoral desejável, são perfeitos para serem arremessados politicamente. 

Que power…

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Que fique bem claro. Eu não sou como aquele que aparece nas televisões a dar dicas e mais dicas sobre investimentos e poupanças. Não senhor. Não tenho licença para o exercício de tal função e, tanto quanto eu sei, aquele indivíduo também não está autorizado a fazê-lo. No entanto, lá aparece a dar receitas e sugestões de produtos e aplicações financeiras com o patrocínio de não sei quem das quantas. Enfim. Por quem sois? Eu não sou aquele, definitivamente. Nunca ousaria bradar aos céus como um divo oracular. Nem pensar. Mas estudar as grandes correntes que transformam o nosso mundo é o que tenho ensaiado desde que me lembro — ler e tornar a ler, reler. Porém, a repetição, de nada serve, nem sequer rima.O que pode servir a pulsão da busca é a realização de exercícios de extrapolação sobre as revoluções que assolam o nosso mundo. Neste caso não me refiro à política, embora a mesma possa vir a ser uma manifestação das roturas. Refiro-me às disrupções tecnológicas que não são passíveis de serem balizadas com precisão paramétrica. Mas que elas acontecem, acontecem. Já estão a decorrer — refiro-me a dimensões, que embora destacadas, acabam por se envolver com intimidade. Não irei referir a inteligência artificial, porque já anda na moina de toda a gente. Não irei mencionar as divisas virtuais, porque todos sonham com a taluda. Não invocarei o blockchain, porque a complexidade atrapalha. E por último e por agora, não irei convocar a computação quântica. A bandeira que vou hastear é basilar — quase simplex. É neandertálica na sua pré-concepção. Tem a ver com a invenção da roda, a máquina a vapor, o motor de combustão interna ou os chips dos processadores das bimbis das lolas que por aí andam. Como diria o Herman — Energia. Energia e mais energia. Electricidade, para ser mais preciso. Volts para ser razoável. E ampères, se quisermos ser extravangantes. Nunca na história da humanidade os sinais foram tão claros, a corrente tão forte. A revolução conceptual que atravessamos, à falta de melhor glossário, exigirá quantidades avassaladoras de electricidade. Os data centers por esse mundo fora, com maior expressão nos E.U.A. ,já estão a ser arquitectados na cercania de centrais geradoras de energia, sejam elas respeitantes a gás natural (vulgo lng) ou a energia nuclear. Necessito de ser mais explícito no que toca a temas de investimento? Ou preferem ver o que o loiro do tal canal anda a impingir? Não sei o que andam a fazer na Europa. A corrida já começou há muito. E tem tudo e nada a ver com tarifas. Quem dominar as faíscas dominará o mundo.

Inter de Melão

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Encontramo-nos em plena época de verão e já faltou mais para a rentrée, sem que venha a haver um intervalo político, um inter de melão, fresquinho, em que não se pensa em coisa alguma. As presidenciais assim o dita — até lá é um tirinho, vai passar a correr. O mercado de transferências para Belém parece estar quase fechado, mas ainda há espaço para manobras presidenciais, surpresas de vão de escada. Reza a tradição portuguesa que as eleições para chefe de Estado são, de um modo geral, um evento benigno, sem castanhadas ou insultos — com aquelas mazelas e indisposições, típicas das legislativas ou das autárquicas. Mas a coisa pode mudar de figura num ápice. Desta vez os candidatos são mais do que as mães. Não sei se a lista inscrita no Wikipédia corresponde na íntegra à lista oficial de pretendentes ao cargo. No entanto,  a mesma é digna de nota: a quantidade de aspirantes é assinalável. Veremos se ventos de desinformação, usados em campanhas eleitorais alheias, chegam ao país com a mesma força de distorção preocupante com que assolaram desfechos no estrangeiro. Deambulando pelas redes sociais encontramos os apêndices ideológicos do costume, os proto-comentadores de serviço ou os fazedores de likes, mas ainda não vislumbramos algo que se possa equiparar a manipulação intensa da opinião pública. Digo isto com sentido de Estado, com respeito por Portugal que ainda mantém a intenção política num nível de civilidade que deve ser reconhecido, apreciado. Mas desenganem-se. Nada tem a ver com a bondade e a empatia. Este estado de alma tem a ver com o modelo de negócio presidencial — a dimensão do país, mas sobretudo o retorno económico sobre o investimento em Belém. Ao contrário das legislativas, e por extensão das autárquicas, das presidenciais não resulta grande distribuição de dinheiros ou favores (vamos omitir as gémeas, por breves instantes, está bem?). Onde pretendo chegar com isto tem a ver com o sagrado presidencial, o tabu de Belém. Se Portugal fosse dotado de um sistema presidencialista seria um caso sério de preocupação. Mas não. Os primeiros constituintes pensaram e pensaram bem: a natureza política do povo português compadecer-se-á de um modo mais adequado com um sistema semipresidencialista. E assim sucedeu. O próximo presidente da república será igual aos demais, aos precedentes. Não destoará do padrão dos presidentes portugueses. Deixará a coisa andar, puxando o tapete ao executivo apenas se o mesmo estiver deitado no chão contorcido ou a pedir de joelhos. Ou seja, a ideia da extremização ou radicalização presidencial é algo mais do que improvável em Portugal, diria mesmo impossível. E isso é uma garantia para o pleno funcionamento do país, a sua virtude democrática. 

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Evitar as barracas

 

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“Evitar as barracas” — são algumas das palavras da candidata à Câmara Municipal de Lisboa (CML) Alexandra Leitão. Se não soubéssemos o contexto, diríamos que a língua socialista é muito traiçoeira. Barracas são muitas — o Processo Marquês, o falhanço do camarada Pedro Nuno Santos ou os alegados sintomas de prevaricação de Fernando Medina enquanto presidente da CML. Pois. Sabemos que a candidata necessita de se demarcar dos camaradas como pão para a boca. Carece de uma figura paternal de peso para se inspirar. António Costa está indisponível, a tratar da sua vida em Bruxelas, e o secretário-geral José Luís Carneiro anda perdido num rebanho de fantasias e absurdos políticos. E assim sendo, nada como pedir uma mãozinha ao quase extinto Bloco de Esquerda, à unicórnia do PAN e ao céfalo do LIVRE. Tudo junto, somado, à falta de argumentos próprios, configura uma frente revolucionária para derrotar Carlos Moedas, mas não necessariamente os problemas da cidade. Teremos uma autarquia, se a elegerem, em que todos gritam e ninguém tem latão. Já lá estiveram, em ciclos recentes, socialistas de corpo e alma, e o resultado não foi grande coisa. Transformaram Lisboa num enorme urinol e a Baixa num anexo indistinto. Leitão diz-se fazedora e menos faladora. Mas aponto-lhe outras qualidades. Não tem memória de elefante. Esqueceu-se por completo de que fez parte do governo que gizou as grandes opções estratégicas do país, que naturalmente ajoelharam Lisboa e que colocaram a cidade no estado que se conhece. A candidata quer fazer parte da solução, sê-la. O que joga a seu favor? O que joga a seu favor é a pulsação ideológica que ainda bate na carótida de tantos que dividem os factos e as verdades entre a direita e a esquerda, onde dizem que abril nasceu. Mas convenhamos, já não há remédio ideológico ou partidário para remendar o que está estropiado. Alexandra Leitão, se tivesse juízo, cedia o lugar a alguém com folha limpa. Mas não. Ela insiste em colocar o Rato em Lisboa ou o Rato em Lisboa, não sei bem. Perdido por mil ou perdido por abril, quem se lixa é o concidadão. Alexandra Leitão não soa a futuro. Faz parte do passado. E ainda não percebeu que nada tem para oferecer à capital. Nem que as barracas abanem.

A divisa falida de Moedas

 

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De boas intenções está a autarquia cheia. Carlos Moedas é bom rapaz e educado, mas convenhamos, a cidade de Lisboa não está melhor. Bem (mal) pelo contrário. A capital é suja e ruidosa. Mas muito mais grave — a cidade já não pertence aos alfacinhas. Posso debitar à vontade sobre o assunto, mesmo sendo um eterno refugiado. Estou em Portugal há mais de 40 anos e bato-me pelo país e a capital com maior intensidade do que grande parte dos compadres. Sou um genuíno patriota. Só falta mesmo adotar a nacionalidade, embora não seja necessário para fazer honra à identidade e a cultura deste país. Até já escrevi um livro sobre Portugal a bater e a elogiar, na mesma demão, em cada página, e naquelas por escrever. Custa-me ver os portugueses expulsos do seu habitat. Os sucessivos presidentes da Câmara Municipal de Lisboa, de um modo consistente e ganancioso, estenderam a passadeira às massas turísticas, aos estrangeiros endinheirados, fazendo de seus inimigos bairros tradicionais e costumes locais. A folclorização de Lisboa arrastou consigo os tuk-tuks e as lojas da pseudo-portugalidade. Não sei ao certo como reverter a situação, porque questiono se os políticos o desejem — o regresso a um estado cada vez mais ténue, distante. E aí reside  grande parte do problema — o provincianismo declarado ou dissimulado dos governadores do concelho: A falta de cultura, ensaiada por intelectuais (que palavra suja!) como Eduardo Lourenço, em tomos incontornáveis,  de pouco consolo serve. Esse défice de leitura é a culpada radical, o extremo mental que habita dentro de portas, no gabinete e na tesouraria. A ausência de (auto)percepção, a falta de visão civilizacional dos lideres também é da responsabilidade das gentes. Um povo encantado por promessas de grandeza, estrofes históricas, que se deixou carregar para a subúrbia acrítica, deslavada e inconsequente. O eleitor que também esfregou as mãos estendidas em busca de um módico rápido. A situação é grave. A paisagem, habitada por espécies invasivas, já não pode ser acalentada em estufas frias. As tribos vivem agora em reservas, arriscando a sua própria extinção. A divisa alfacinha já não vale grande coisa.

O problemático das barracas de Loures

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Tenho alguma dificuldade em ser imparcial e equidistante em relação a alguém com responsabilidade directa em certos estados de arte. Não se pode aparecer altivo e sereno no comentário televisivo sem o mínimo de pudor político. Vem isto a propósito da demolição de barracas no concelho de Loures. Concelho que esteve às ordens de Bernardino Soares durante oito anos. Não se trata apenas de um problema de habitação, de barracas. Tem a ver com o desperdício, o esbanjar da posição política para resolver desafios económicos e sociais. O homem esteve lá oito anos, não oito semanas e meia — tempo suficiente para castrar o problema. O fenómeno é transversal a partidos e ideologias. Neste caso lidamos com a Esquerda cerrada, aquela intransigente e imune a contaminações — o Partido Comunista Português. Não vi, nas televisões, em directo ou em diferido, um ou uma camarada a dar o corpo às balas ao lado dos (ex) moradores. Pois. Não daria muito jeito. E ocorre-me ainda outra falência moral. O atacar da franja mais desfavorecida da sociedade, famílias declaradamente depauperadas, mas que preservam intacto o sonho de possuirem uma casa. As barracas são um esquisso arquitéctonico. Assentam na premissa do tecto sobre a cabeça, e um soalho sobre o qual assentam ladrilhos de desejos. As imagens a que assistimos sugerem uma micropipeta de Gaza. Um emaranhado de latão e pladur. É preciso ter lata para avançar com a remoção coerciva de pessoas sem o mínimo de respeitabilidade, de dignidade. Sabemos que quem agora lidera as hostes daquele concelho são os socialistas, que também são artistas demagógicos, que viram a cara às responsabilidades quando não lhes é oportuno. As perguntas que se impõem com naturalidade — qual a urgência topológica da limpeza dos terrenos? A quem pertencem? E será que está na calha um novo empreendimento imobiliário naquele local? Por onde andam os verdadeiros jornalistas? Não sei. Apenas sei que o Bernardino não vai em conversas de barraca. Prefere ficar refastelado na poltrona como se nada fosse com ele. Mas teve tudo a ver. E ainda tem. Bernardino Soares é um dos problemáticos das barracas de Loures.

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A Bastilha, Jacarés e Política

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Emmanuel Macron declara que para ser livre neste mundo é obrigatório ser temido, ser poderoso. Onde já escutámos isto? Soa intensamente familiar. Não nos esqueçamos de que a Bastilha,  uma fortaleza medieval,  serviu de prisão política — um Alcatraz francês, se quisermos.  O fosso de água em torno da Bastilha não estaria infestado de jacarés como nos Everglades da Flórida, mas existem paralelos que podem ser extrapolados: um símbolo de repressão empregue pela monarquia para castigar os seus detractores — no king! A tomada de força expressa pelo presidente francês coloca em primeiro lugar os interesses da França, e depois aqueles da Europa. É curioso que não refere a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN) uma vez sequer. Ou seja, o que afirma constitui uma clara demarcação em relação aos E.U.A. — a vocalização tácita da sua independência em relação à superpotência e à aliança. O aumento da despesa em defesa promove o presidente a Marechal, a Marechal Macron, se quisermos.  Existem ainda outras nuances que devem ser escrutinadas. Estabelece enquanto axioma de valor acrescido a liberdade, mas não refere a democracia como alavanca fundamental para a sua preservação. Perguntemos então se, in extremis, face a eventuais agressões e ataques à soberania, devemos aceitar a ideia de democracias mitigadas e o reforço da autoridade, o autoritarismo? Talvez uma parte da resposta esteja a ser dada pela via orçamental. Servindo-se da justificação securitária acrescida, fica demonstrado que paulatinamente pode ser lançado um regime de excepção que cancela valores mais altos, e eventualmente direitos e garantias fundamentais dos cidadãos.  O que enfrentamos societariamente é algo corrosivo, como vem expresso no enunciado de Macron. O que devemos depreender é a noção de que a erosão de democracias tem início no seu seio, no seu âmago. Não resulta necessariamente de ventos que assolam outras latitudes. Enfim, talvez não seja uma verdade de La Palisse ou de Lacoste, mas a dentada política far-se-á sentir mais cedo ou mais tarde.

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