Autor: Nuno Castelo-Branco (Page 1 of 365)

Moçambique

 

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Se amanhã for às compras, não se esqueça de adquirir:
– Latas de feijão encarnado
– Latas de ervilhas
– Latas de atum, sardinhas em óleo com ou sem tomate
– Bolachas Maria, pois toda a gente as come
– Tudo o que estiver pronto-a-comer, desde que não contenha carne de porco. Desaconselho também sacos de puré em pó, pois a gente do mato não sabe prepará-lo
– Arroz, e massas
– Sacos de farinha de milho branco ou amarelo para a confecção de “Chima”

Se se lembrarem de algo mais, poderão também entregar as dádivas num quartel de Bombeiros que generosamente se prestaram a ajudar.

Aos que sabem o que este som significa para tanta gente, decerto não hesitarão: http://www.lmradio.org/Sounds/rcm%20historical%20recording_01.mp3?fbclid=IwAR163lIJnCERFZ9ZMgdryiXBan03-IqzgOX30rNLBg2iKwlz6ac9Lha_N78

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1º de Fevereiro

 

7826_1065498920023_1302524520_30188997_5640247_n cO acto fundador da República consistiu em dois crimes de sangue impunemente perpetrados contra as pessoas dos mais altos representantes do Estado português.

Muito antes do fatal desenlace que mergulharia Portugal no caos, numa escusada série de violências de que a Grande Guerra fora de fronteiras é apenas um entre os inúmeros exemplos internos, abusos de poder e prepotência  que teve como cúmulo a total e reconhecida inépcia no exercício do governo deste país, os republicanos souberam aproveitar o regime de liberdades públicas existentes na nossa terra, liberdades essas garantidas pela Carta Constitucional e pela instituição que superiormente representava o Estado: a Coroa.

Se numa fase inicial desta República brutalmente implantada, os seus responsáveis prodigamente se vangloriaram do Regicídio através de romagens ao Alto de São João ou piedosas pagelas santificando os assassinos, inadvertidamente também deram a conhecer ao mundo quem afinal eram os novos senhores do poder em Portugal. Os desastres que os acontecimentos de 1908 e 1910 despoletaram na nossa sociedade, foram por si suficientes para uma decidida e bastante oficial política de forçado esquecimento do acto primordial da fundação do regime de 5 de Outubro de 1910. O Regicídio foi deliberadamente apagado da memória, o seu Processo Legal lógica e escandalosamente desapareceu, mercê da intervenção dos detentores do poder ilegitimamente tomado pela força dos tiros da artilharia, assassinatos indiscriminados, repressão sindical e da imprensa. Durante quatro gerações, os donos das três Repúblicas nas quais voluntariamente se incluiam alegados monárquicos de oportunidade, ingloriamente tentaram apontar outros responsáveis por um acto do qual eles e apenas eles foram os beneficiários morais e materiais.

Com o assassinato do Rei D. Carlos I e do Príncipe D. Luís Filipe, os republicanos desferiram o golpe que despojaria Portugal da sua normal evolução para uma sociedade ainda mais livre e progressiva. Apesar dos rotineiros contratempos políticos propiciados por um regime fortemente parlamentar já bem enraizado, este país beneficiou de décadas de progresso material e intelectual. Durante a Monarquia Constitucional, Portugal integrou-se plenamente naquilo a que à época era a Europa do liberalismo oitocentista em todos os seus aspectos, fossem eles positivos ou não. Os avanços materiais foram evidentes e sem paralelo na nossa história, o país modernizou as suas infraestruturas e integrou-se no comércio mundial. O período monárquico constitucional foi um alfobre de grandes nomes da nossa cultura e também garantiu a nossa futura presença em todo o mundo, activamente  e através de um enorme esforço participando Portugal na delimitação de esferas de influência que muitas décadas mais tarde dariam origem à Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

O Rei D. Carlos I foi um dos maiores entre os grandes da nossa História. Culto e aberto àquilo que a seu tempo eram as novidades da ciência e das artes, mereceu o respeito politico e pessoal dos seus contemporâneos estrangeiros, enquanto em Portugal enfrentava só e indefeso as contingências impostas pelo próprio regime de liberdades que não o soube proteger de afrontas, esmagadoras calúnias e na fase final do seu reinado, da conspiração subversiva que não apenas fez  violentamente tombar o trono, como também de forma irremediavel ditaria o catastrófico século XX que o povo português resignadamente sofreu.

Quiseram os assassinos abater o monarca que por sinal era um homem bom e generoso. Procurando eliminar toda a Família Real, julgavam poder obliterar oito séculos de uma história ininterrupta. Não o conseguiram e cento e onze anos decorridos após o crime que de forma indelével enodoa o regime a que ainda hoje todos nos submetemos, já se adivinha o total alijar da canga imposta pelo silêncio que viu na ignorância das gentes, a suprema garantia de um poder prepotente e sem peias.

O ajuste de contas chegará, já não existe qualquer dúvida. Não virá de um outro acto violento que imponha a vontade de uma minoria, pois esse acerto de contas com a História já começou. D. Carlos I e os seus encontram-se hoje perfeitamente reabilitados. O estudo que propicia o conhecimento da verdade já não conhece obstáculos e são precisamente os mais jovens que se interessam, quem decidida e porfiadamente tem quebrado as grilhetas do preconceito, da mentira e da despudorada prepotência que tem humilhado e menorizado Portugal.
Uma vez mais, o Regicídio não foi esquecido. Tenham paciência, mas jamais o será.

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Não por acaso, nisto MRS tem muita razão

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Prudentemente e no seguimento da sua já muito longínqua e muito profícua aprendizagem nas suas férias em Moçambique, o ocupante do casarão rosa de Belém foi visitar a mesquita de Lisboa. Irritaram-se as tias, arrepelaram-se as cabeleiras com ou sem caspa.
A razão da visita parece insólita, mas deve-se sobretudo a um velho costume que agora parece espantar os mais incautos nas redes sociais. Ali foi realizado um repasto natalício, como se tal trivialidade obedecesse a recônditas conspirações onde a reserva mental tecerá das suas. 

Nada disto é novidade e já à distância de meio século, quem tenha nascido no Ultramar decerto se recordará da lojas pertencentes a muçulmanos, caprichosamente decoradas para este período do ano e onde eram comuns as alusões a mais esta religião do Livro. Era habitual o nosso pai chegar a casa com presentes destinados ao Nuno, Miguel e Ângela com um cartão do Abdool, Momade ou Karim, prendas cuidadosa e vistosamente embrulhadas, atitude decerto comum a uma infinidade de nomes que por si identificavam a origem das lembranças.

Portugal tem o privilégio de há muito poder contar com a lealdade dos seus muçulmanos, uma muito discreta, pequena e laboriosa minoria que para os mais exaltados auto-proclamados nacionalistas que pela propaganda escolar são formatados mentalmente por uma certa não menos auto-proclamada esquerda, fazem agora a amálgama do que se vê fora de portas, naquele incontornável princípio que  descerebradamente ambiciona do vizinho o espelho onde almeja  barbear-se. Aquela dita esquerda, na sua ânsia iconoclasta de rebenta quarteirões da História, aqui reproduziu ponto por ponto tudo aquilo que decerto terá aprendido com vários tipos de Marchais e sucedâneos mais ou menos aburguesados e alapados às instituições do Estado. Criado o precedente e o consequente caldo de cultura, o resultado está à vista.

Aquando da invasão do Estado da Índia e sem sequer contarmos com o bem conhecido auxílio político e logístico do Paquistão, as diversas comunidades muçulmanas que nele habitavam mantiveram intacta aquela lealdade, em boa parte para sempre partindo em direcção a outro território no Índico sob soberania portuguesa e ali provisoriamente refazendo as suas vidas até 1975, quando tiveram de voltar a refugiar-se. 

Não tomem os espantados por aquele recente almoço de Natal, as dores que pertencem exclusivamente a franceses, belgas ou alemães, entre muitos outros.

De factos fomos e podemos ser diferentes.

Não nos convém, não queremos ser confundidos e é um desnecessário e criminoso insulto ao povo que durante séculos talvez inconscientemente soubemos ser. Disto tomem boa nota uma parte irada dos alegados nacionalistas, pois o termo em Portugal significará exactamente o oposto daquilo que supõem.

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Brincar com o fogo….

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…. é precisamente o que ocorre ao mais comum dos mortais quando diante de um aparelho de televisão escuta gente tresloucadamente perorar acerca dos mais recentes eventos relacionados com o Brexit. Invariavelmente, sejam eles comentadores profissionais ou duvidosamente dotados jornalistas enviados, mostram à saciedade uma descarada satisfação por todos os escolhos desmioladamente colocados diante da Senhora May, primeiro-ministro britânico. Durante dias todos escutámos veladas apostas que tendiam para o agora é que cai, para logo depois do resultado a que sem surpresa alguma assistimos, apostarem numa vitória pírrica com os dias bem contados. Veremos, veremos.

Não possuindo dotes de adivinho que pelos vistos à muito mais esclarecida maioria esmagadoramente pertence, não arriscaria muito numa rendição incondicional britânica, pois se há coisa em que historicamente se notabilizaram, foi durante os mais desesperados momentos de aflição e quando tudo indicava estarem perdidos, com zelo encontraram soluções que não apenas os salvaram, como infalivelmente destruíram aqueles apostados na sua ruína. Não os provoquem e é precisamente o que neste momento todos os dirigentes dos 27 países fazem a cada minuto que passa, pois no final das contas bem feitas, o resultado poderá ser uma previsível catástrofe sem desculpa. Não pretendem tão só defender-se nos redutos de Estrasburgo e Bruxelas, mas sobretudo humilhar ao máximo quem até hoje foi um incontornável e bem sólido pilar desta construção. A mesquinhez tecnocrática sairá cara, disso não poderá existir a menor dúvida.

Tal como a Senhora May, desde o primeiro momento fui contra o Brexit, nem que tal posicionamento apenas fosse ditado pela nacionalidade a que pertenço ou se devesse à mutualidade da dívida histórica que ambos os países têm um para com o outro. Hoje é vergonhosamente indigno o espectáculo que diariamente nos é oferecido. Em vez de discretamente minimizar-se o efeito da soberana decisão de há dois anos, agravaram-no e acirraram os ânimos. Mais longe ainda, percebe-se que hoje tudo apostam na divisão do país.

Tanto pior. Aqueles milhões de ilhéus são gente de outra têmpera e para isso recorde-se simplesmente o que sucedeu em 1982, muito longe da Europa e contra a opinião do mundo inteiro. Não por teimosia, quixotismo ou que queiram considerar, desse tempo existe um já esquecido facto a reter: apenas foram publicamente apoiados na omnipresente imprensa por um governo, precisamente o português. 

Ficamos ainda mais sós, não é verdade?

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Imperiais, ou não

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Ainda a propósito da recente visita do Chefe de Estado chinês, ontem Paulo Portas teceu uma série de muito oportunas considerações a propósito das relações internacionais portuguesas, mostrando-se moderadamente entusiasmado e chamando à razão que directamente provem de um quase ininterrupto processo histórico secular. Muito positivo, sem dúvida.

Não se trataria de qualquer excentricidade, se durante demasiado tempo todo o esquema vigente em Lisboa não tivesse sofrido um deliberado e oportunista curto-circuito mental que apagou precisamente a memória daquilo que ontem através da sua boca terá miraculosamente ressuscitado. Todos recordamos as tiradas de Sampaio a propósito da ilha indonésia que foi Timor e das decorrentes humilhantes e infindáveis esperas a que se submeteu nos corredores ministeriais de Lisboa um homem da classe de Ramos Horta, aquele que seria o Prémio Nobel da Paz que sempre escapou a qualquer outro português. Sampaio é apenas um daqueles que foi emulado por praticamente toda a gente que do regime se tem servido, alijando como tralha inútil aquilo que ciosamente deveria ter sido preservado como continuidade de um país que se reconhece e pretende progredir, adaptando-se a qualquer modificação da ordem internacional e mantendo intacto o núcleo duro da sua política externa, precisamente o que não pode mudar ao sabor da corrente ou interesses de grupo. Foram e ainda são fracos imitadores do que de fora vem, estando muito distantes daquilo que britânicos, espanhóis ou franceses têm feito.  Deveriam ter aprendido algo com D. Carlos I que antes de dar posse a qualquer um dos seus Presidentes do Conselho, os advertia como princípio basilar de conduta internacional:

– Toma nota de que poderemos estar de mal com todo o mundo, menos com a Inglaterra e o Brasil. 

O mesmo princípio é hoje extensível a todos os países componentes da CPLP e a quem connosco tem aproximadas relações de dimensão variável como as económicas, políticas ou históricas na Europa, Américas, África e Ásia e no pleno respeito pela ordem interna de cada um ditada pela soberania. 

Seguindo adiante, muito tempo viveu Portugal diante do El Dorado das croissanteries pagas com perdidos fundos europeus, nisto irmanando-se os três partidos que rotineiramente têm feito a alternância do exercício do poder. Enfim, gostam e ainda almejam dar-se a ares europeus, mesmo que os seus homólogos do eixo Estrasburgo-Bruxelas, na sua imensa maioria utentes de passaportes provenientes de algo que existe no mapa-mundi há pouco mais de um século, entre discreta galhofa dentro de portas os reduzam a todos como partisanos de “copos e gajas” e a quem, nesta hora aflitiva da U.E., entre duas palmadinhas nas costas atiram uns amendoins que os entretenha. 

O que pareceu ser uma novidade, afinal nunca o foi para os mais atentos e sofríveis conhecedores da nossa história. Estando quem esteja no poder, voltou-se ao equilíbrio que nos fez ser alguém neste planeta e isso é o que há a reter. Oxalá não seja mais um subterfúgio tendo na mira mais uns tantos confortáveis lugares e respectiva engorda de conta bancária in ou offshore.

Nisso o regime teve pleno sucesso, o de fazer da imensa maioria dos portugueses gente muito desconfiada. 

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Que seja bem-vindo

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Portugal não pode dar-se ao escusado luxo de ter deficientes relações com qualquer um dos países onde tenha, mercê da história, exercido qualquer tipo de soberania, fosse ela longínqua como naquelas paragens asiáticas – Índia, Ceilão, Birmânia, Tailândia, Malásia, Indonésia, China e Japão -, como noutros temporalmente mais próximos, na América do Sul, África e Oceânia. São os nossos aliados históricos e isto deveria ser sentimentalmente tão válido como a aliança luso-britânica.

A vinda do muito corajoso presidente angolano a Lisboa é um sinal de um possível recomeço numa relação multissecular, onde no mapa surgiu uma Angola unificada que deve as suas fronteiras a Portugal, fossem elas ditadas pelos acasos da política local, ou pelo seu delimitar como resultado da Conferência de Berlim. Esta é uma trivialidade tão conhecida em Luanda como na capital portuguesa e ultrapassados os complexos após quatro décadas de independência, há que rechear os ditos fáceis da oratória, com resultados concretos.

Foi bem recebido e muito merecidamente com todas as honras. 

* Nota: nada nos poderá surpreender quando atitudes nos chegam através do único e odioso partido fake news, Panem et circenses com assento parlamentar. Digno sucessor da contra natura aliança UDP/LCI, possui um espantosamente inesgotável cardápio  de antiportuguesismo, não hesitando em cometer todo o tipo de baixezas que roçam a vulgar ordinarice. A última foi a atitude após o discurso de João Lourenço, permanecendo grosseiramente sentados e sem sequer aplaudir um discurso mais do que aceitável, aquela pedra que por si tapa todos os buracos abertos inadvertidamente pela inépcia de ambos os lados. Não têm o menor resquício do sentido de Estado a que nem o cada vez mais respeitável PCP,  muito escrupuloso cumpridor do protocolo e das instituições, escapa.
Já tinham feito algo semelhante na última sessão extraordinária do Parlamento, aquando da visita oficial de Filipe VI. Esta tarde repetiram a dose, com a agravante de J.L. significar agora e neste preciso momento, a possibilidade de um corte radical na praxis política até há pouco julgada eterna em Angola.

Neste tipo de duvidosa gente surgem os Pol Pot e outros genocidas deste mundo, pois é assim que funcionam os mais descerebrados esquerdistas, no presente caso nem sequer blasés por defeito ou virtude de classe. São apenas histéricos terroristas sociais. Dada a ignorância que campeia no eleitorado e a inveja que por cá impera, talvez seja impossível  existir a felicidade de erradicá-los do mapa parlamentar na próxima eleição geral. Oxalá seja daqui a um ano conhecido pelo partido do tuk-tuk.   

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Rien

 

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No final da tarde de 14 de Julho de 1789, Luís XVI, distante umas léguas de Paris, não podia ter certezas quanto aos acontecimentos daquele dia e assim limitou-se a apor “Rien” à entrada referente àquela terça-feira.
Ontem a situação foi diferente, pois decerto Macron viu em directo o que se passava de norte a sul da França e não deve ter compreendido que não se trata apenas de questões de preços, pois existe muito mais combustível à espera da chispa. Naquele país os petits–riens podem ser seguidos através das redes sociais, da tv, rádio, e “aipádes”. Como diz o outro, let’s see what happens.

 

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Fake news, ou no news is good news

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Na RTP3, um interessante debate entre o deputado Diogo Feio e aquele verdadeiro Senhor que dá pelo nome de Honório Novo, focou alguns aspectos do Congresso, perdão, da bem mais jacobina Convenção bloquista.

Passando sobre o conhecido e contraditório posicionamento daquela agremiação de socialmente muito bem acomodados, faz-se então o imediato paralelo de toda aquela ofegante oratória com o assunto da moda, as fake news. O BE tem em Portugal a honra de ter inaugurado institucionalmente este recurso com garantido futuro, pois todos decerto se recordam de Catarina Martins apontando o dedo às mentiras quanto ao caso Robles, sendo em poucas horas ela própria desmentida pelos factos sempre em crescendo de ignomínia, desfaçatez e reserva mental. Como se vê, julgando-se acima de qualquer suspeita, Catarina Martins tornou-se perita no lançamento de cortinas de fumo. Bem a propósito do Armistício ontem recordado, talvez uma inconsciente homenagem à já mais do que centenária Batalha da Jutlândia.

O embaraço não se fica por este ou aquele bloco de apartamentos e respectivas mais valias, ambos legais e caindo sob a alçada dos preços do odioso mercado. Soubemos como o caso rapidamente ficou reduzido a uma memória já muito difusa, para isso contando com o beneplácito da imprensa cujos mais conhecidos títulos pertencem a dois bem identificados grupos económicos, hipotéticos inimigos mortais dos propalados princípios defendidos por aquele bando de burgueses envergonhados. Bem vista a tradição daquela área política, o sacrosanto Trotsky também foi ciosamente protegido pela plutocracia novairoquina que lhe verteu copiosos donativos antes da revolução de Outubro e já bem depois, quando o caudilho voltou a exilar-se.
Voltando ao Caso Robles, o BE beneficia então da prestimosa colaboração de uma imprensa que a seu bel-prazer silencia e censura o que não convém. Com que fim? Isso é o que se verá.

As fake news existem, mas em perfeito paralelo com a maravilhosa descoberta no news is good news. Foi este o essencial resumo do Congresso, perdão, da Convenção. 

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No Dia do provisório Armistício

 

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Acompanhado por oficiais britânicos, é o quarto militar a contar da direita para a esquerda, na segunda fila. Sempre lhe conheci aqueles bigodes à Kaiser

 

Aconteceu há um século, num tempo cada vez mais distante do qual a memória colectiva portuguesa, desde sempre bastante ténue, apenas retém aquilo que dentro de portas as lendas familiares garantem ou o que os livros dos sucessivos regimes fazem difundir como verdades. Na prática, a participação portuguesa quer-se resumida à necessidade de defender o Ultramar em várias frentes, nisto se notabilizando o soldado Milhais. Ponto final, acabou a história.

Não se duvidando minimamente do esforço e extremado sacrifício individual, a participação de Portugal na I Guerra Mundial ter-se-á devido a vários factores entre os quais surge esmagador e prepotente, o desejo de legitimização internacional da casta política que meia dúzia antes tomara o poder na Rotunda, transmitindo a nova ordem de coisas por telégrafo a todo o país, então do Minho a Timor. 

Já estabelecido em Moçambique numa data tão incerta como o seu alegado nome, José Silva, por vezes vagamente referia as suas origens na zona da Anadia e se a conversa porfiasse, diria também que a família produzia vinhos. Tudo muito enigmaticamente vago, dir-se-ia ter vindo ao mundo na segunda década do século XX, quando nascera muito antes, por altura do Ultimatum. Isto foi durante décadas um motivo para todo o tipo de elucubrações, umas mais fantásticas do que outras, mas todas tendo algumas certezas quanto à sua participação nos acontecimentos que levaram à proclamação do novo regime. 

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Participou na guerra levado na massa da mobilização geral, fosse ela oriunda da Metrópole ou nas parcelas coloniais e logo deixou Lourenço Marques integrado numa das expedições que recentemente chegara com armas e bagagens com o fito de rapidamente fazer boa figura, tomando o considerado não muito difícil alvo que era o então Tanganica germânico, território este já desde 1914 isolado de reabastecimentos e contudo nunca  completamente submetido pelas forças britânicas que se adentraram naquele vasto espaço africano. Tremenda desilusão, pois apesar de todos os esforços, o Tanganica estava muito longe de ser um cenário bélico idêntico ao europeu, tanto na amplitude do espaço como nas condições gerais que condenaram contingentes inteiros à morte por doenças, abandono em postos no mato recôndito ou a mais descabelada inépcia dos comandos militares onde o desinteresse rapidamente se seguiu às atoardas marteladas pelos agentes políticos que compunham as expedições, sendo o representante do regime, o bem resguardado e iracundo governador Álvaro de Castro o cabeça de fila que sem sair de Lourenço Marques ordenava acções completamente desfasadas da realidade no terreno. Saneados liminarmente os oficiais tidos como thalassas que conheciam a verdade acerca do que era possível ou não realizar em África, a confiança política sobrepôs-se à competência militar e em consequência o desastre foi total, absoluto, passando rapidamente os teres e haveres dos militares portugueses a abastecer regularmente o esforço de guerra alemão sob o comando do brilhante oficial que foi von Lettow-Vorbeck. 

 

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O monumento à Grande Guerra 

O bisavô recusava-se a falar da campanha propriamente dita, rosnando entre dentes todo o tipo de palavras que contradiziam as versões oficiais acerca dos acontecimentos e com isto, vindo o Armistício, para sempre se desligou da sorte do regime, continuando os seus afazeres profissionais pontilhados por esta ou aquela tomada de posição, a réstia da sua fidelidade, como a colaboração no erguer do palácio maçónico erguido na Av. 24 de Julho, então o mais imponente edifício do género existente em qualquer um dos territórios sob soberania portuguesa. Preferiu então dedicar-se totalmente às suas funções na Agrimensura da Câmara Municipal de Lourenço Marques, a ele se devendo as medições para o risco ortogonal da parte alta da capital moçambicana. Ali casaria com a minha bisavó que já nascera em Lourenço Marques na derradeira década do século XIX, em 1896.

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Vivo ou morto nunca mais voltou à parcela europeia, considerando Moçambique como a sua terra. Por vezes, sentado na sua varanda que dava para a Baía do Espírito Santo, deixava soltar alguns comentários acerca da Situação, sem que jamais com esta tivesse comprometido aquilo por ele julgado como o mais certo, logo acrescentando …“enquanto forem vivos os da minha geração, Salazar pode considerar-se seguro, o que antes dele sucedeu foi terrível, inesquecível”. Não gostava do que significava a 2ª república, mas resignava-se à compreensão das razões da sua já então longa vigência. 

Bisavô copy.jpegNo início da década de sessenta

 

Um dia anunciei-lhe a minha entrada na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, já há muito estabelecida naquele palácio maçónico que ajudara a construir. A sua reacção foi típica, dizendo com um desabafo, …“afinal o mono sempre teve alguma utilidade prática”. Mais satisfeito ficaria se soubesse que ainda hoje a escola vai funcionando, realizando após o regime das promessas ocas e daquele que lhe sucedendo realizara o pretendido seguimento material, um bastante intermitente trabalho na formação de quadros. 

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 Quando se aposentou no final da década de quarenta, no terreno que como recompensa pelos seus serviços recebera da Câmara Municipal de Lourenço Marques, construiu a casa na artéria que estoicamente homenageava um conhecido vulto republicano que ali arribara num misto de recompensa e pontapé para o alto. Ainda existe, hoje ocupada por outra gente que por vezes em quentes tardes de ciclone se refrescando na mesma varanda, nem sequer sabe que o antigo proprietário imitava Homem Cristo, dizendo que habitava na Cabrito Macho. Dito isto, o bisavô levava o polegar e o indicador a pressionar as narinas, num gesto que poucos compreendiam como directamente relacionado com a imorredoura fama de um homem escassamente dado a banhos. 

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 Uma ainda relativamente recente foto da sua casa erguida na então R. Brito Camacho, Lourenço Marques

Não quis regressar à terra natal e morreu já depois da independência em 1975, em Lourenço Marques. Qual seria o seu verdadeiro nome?

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Milagre de Tancos, parte II

 

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Saiu-lhes a sorte grande por algo que já estava programado há muitos meses, coincidindo esta altura com a turbulência que tem abanado o regime na sua vertente militar e política.

O Comendador de La Vichyssoise, hoje na sua versão de Supremo Comandante, disse um disparate monumental, quando relativamente à Alemanha de 1914 insistiu no apodo do odioso.

Odioso era o regime que então vigorava em Portugal, capaz de todas as infâmias e violências contra a sua própria população usada como carne para canhão, fosse ele o que troava a partir dos cruzadores surtos no Tejo disparando metralha em direcção à Rotunda, ou os de 75 que em Monsanto varejavam o Torel, a zona da Duque de Loulé, o Príncipe Real, enfim, praticamente a cidade inteira. A isto acrescentaremos os caceteiros e facas de mato de Afonso Costa, os assassinatos ao domicílio, a destruição de jornais e espancar de jornalistas em plena via pública, o corte radical dos cadernos eleitorais recebidos da “ominosa Monarchia“, a fome generalizada e a ruína económica que significou uma enorme vaga de emigração para o Brasil, a repressão do sindicalismo ou os massacres contínuos no qual se evidenciou o Movimento das Espadas que acabaria com montões de cadáveres.

Comparativamente àquele Portugal, o que era então a Alemanha do Kaiser Guilherme?
– Tinha no Reichstag o SPD como principal partido eleito.
– Tinha direitos sindicais e um correspondente movimento sindical determinante e muito poderoso.
– Tinha assistência social com direitos que a maioria dos países europeus apenas adquiririam décadas depois: creches do Estado e das empresas, escolas públicas e alfabetização generalizada, escolas e institutos técnicos de primeiro plano em termos mundiais, reformas de aposentação garantidas, ensino grátis e escolaridade obrigatória, saúde pública e os mais avançados hospitais do mundo, etc.
– Uma imprensa livre e bastante dinâmica.
– Era a vanguarda científica mundial onde sobressaía o Instituto Kaiser Guilherme, hoje conhecido por Max Planck

Relativamente à França, Reino Unido, Itália ou Rússia, o II Reich estava num plano de superioridade a todos os níveis, apenas destoando das democracias ocidentais por ser o imperador quem nomeava o Chanceler, geralmente em contraponto com os deputados do Reichstag. Longe de ser um ditador, de facto Guilherme II tinha a palavra final e isso era algo que colidia com a praxis francesa, britânica ou italiana, mas num plano muito diferente da situação russa, também parte integrante e vital da Entente. Passe o anacronismo, o Kaiser retinha atribuições que hoje são atribuídas ao ocupante da Casa Branca e nem sequer presidia ao Conselho de Ministros. Noutro prisma, a própria organização territorial alemã, não sendo a de um Estado unitário, acabou por facilitar os jogos de interesses e a preponderância prussiana, não apenas ditada pela sua dimensão territorial, como pela concentração dos meios materiais. Tal como hoje acontece, a Alemanha era um Estado Federal.

A descendente longínqua dessa Alemanha também hoje foi vista, incompreensivelmente afastada dos contingentes francês, americano e britânico, sendo nestes tempos todos eles aliados de Portugal. Má decisão por parte dos organizadores.

Voltando ao desfile, para além da subliminar mensagem de aviso transmitido pela presença de um forte contingente de elementos pertencentes a duas unidades militarizadas que desfilaram na companhia de equipamentos destinados à repressão interna, o Comendador poderia ter retido um lampejo de grandeza e por uma vez, deixar-se de recaduchos político-partidários. Como se comprova a tentação é insuperável e não deixa de ser alguém oriundo de um sector político que rotineiramente vai a votos. Isto é tão válido para ele, como para os seus antecessores. Pareceu no que interessava para o caso, um desfile bem realizado e com uma certa grandeza, não faltando evocações históricas e os sempre esperados espectáculos de cavalaria e respectivos uniformes que atestam a passagem de séculos que tudo o mais secundarizam.

No que ao mais se refere, apenas duas peças de artilharia, dois blindados Leopard II e a bem visível falta de uniformes de parada. Dir-se-ia estar aquela mole de gente preparada para dali mesmo ter de seguir para uma frente de combate qualquer, tal era a predominância de camuflados que camuflam a penúria geral na instituição.

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