Autor: lusavoz (Page 1 of 2)

Regresso a Casa

Durante cerca de um ano o Samuel e restantes companheiros fizeram a amabilidade de me albergar no ES. Sem o fulgor, vitalidade e disponibilidade de outros tempos, vim escrevendo aqui sobre os assuntos que me pareceu interessarem aos leitores desta casa que, com o tempo fui sentindo como minha.

Preocuparam-me as coisas de sempre.  Os disfarces de que o vazio se cobre para exercer a sua arbitrariedade. Um mundo hipermoderno que se alimenta das próprias concepções de bem que alardeia desprezar.

É tempo de voltar a casa. Uma casa diferente, mas que é a minha casa de sempre.

Talvez num tempo a que a discussão está cada vez mais ausente e depauperada, em que a servilidade tomou conta da blogosfera, em que o cálculo prudencial e a habilidade substituíram qualquer forma de pensamento digno e de princípios, este regresso faça sentido. Talvez não.

Mas regresso com perfeita certeza de que há coisas por dizer e uma visão de que ainda vale a pena deixar testemunho.

Deixo um grande abraço ao Samuel e aos restantes companheiros, na esperança que tenha merecido o meu lugar na sua companhia e que me continuem a acompanhar no Novo Pasquim.

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Avenida da Servilidade

Quando relembro o alarido que o surgimento de uma direita liberal da blogosfera gerou, dá-me vontade de rir. Já se via o que aconteceria a tanta independência e espírito de liberdade quando houvesse dinheiro para distribuir.

 

Como é claro, as pessoas têm todo o direito de se cobrir de ridículo, mas o RMD tem levado o dito à náusea.

 

Desta vez equipara o cursus honorum da praxis política (compadrio, ser filho de cacique, ganhar o torneio de matrecos da “jota”, dominar a chafarica local) com o conhecimento teórico de um fenómeno que transcende a experiência individual (dominar as implicações comunitárias, sociais, éticas dos modelos de convivência política). Não há diferença entre uma pensar e fazer. Entre theoria e tekné. O pintor ou o canalizador são o mesmo que um arquitecto. O enfermeiro ou o auxiliar do hospital, o mesmo que um médico.

 

Para um colunista, aspirante a político, não está mal. O conhecimento científico da política é, segundo RMD, aquilo que os políticos fazem. E isso é bastante ilustrativo da forma como o RMD analisa a política (nos seus blogues e colunas), ou seja, a fazer política. Não dá ponto sem nó, que é como quem diz, não analisa imparcialmente e desligado dos seus fins pessoais coisa nenhuma.

 

Sem querer tecer considerações metodológicas, não sei se e o quê o RMD terá cursado, mas não perceber o papel da ciência (política ou outra) não augura nada de bom. Talvez deva ficar pela política…

Algumas Questões

Sobre este texto do Samuel:

 

1) Uma religião que tem uma finalidade social é um código político, ou seja, um mero instrumento do Poder. Se se aceita isso, nunca mais poderás dizer que algo é justo ou injusto, porque a justiça é apenas reflexo do Poder. Tocqueville, p.ex., vê no Cristianismo uma verdade transcendente que tem utilidade social. E tu estás a afirmar a primazia desse papel social, face ao Transcendente, o que implica uma subordinação do padre ao sociólogo. Isso é positivismo puro e incompatível com a fundamentação do liberalismo que defendes…


2) A modernidade não matou Deus. Foi a pós-modernidade. A modernidade de Locke a Kant está cheia de Deus, de um Deus que possibilita o progresso (individual e colectivo) que é tão patente no vitorianismo e na obra de Hayek. Nenhuma dessa modernidade ousou afirmar que haveria uma independência entre o Homem e Deus, ou que o segundo fosse subproduto do primeiro.


3) Esse vitorianismo foi uma forma de fundamentalismo sem fundamento. Sem transcendência divinizou os “mores” sociais (vide penas sobre a homossexualidade ou mendicidade) utilizando o aparato de Poder para perpetuar “manners not morals”. Foi certamente mais repressivo moralmente que toda a Idade Média, com os seus filhos bastardos e liberdade para o pecado socialmente irrelevante.


4) Essa visão que tens em relação à verdade e expuseste em “Não creio que a modernidade tenha transformado a verdade numa percepção humana, creio que sempre o foi” é radicalmente incompatível com os teus pressupostos liberais políticos e económicos, uma vez que um pós-moderno não pode ser defensor de visões protestantes ou deístas. Como sabes melhor que eu, o fundamento de Hayek para a liberdade repousa na concepção de que a melhor (um termo qualitativo) forma política é revelada através do sucesso material, ou seja, presume uma transcendência protestante, incompatível com essa visão. Até porque se a consciência empírica fundamenta a liberdade, temos de aceitar também a boa-fé dos que não aceitam a liberdade. A circularidade do argumento é evidente e demonstra que nesta formulação não há possibilidade de fundamentar o que seja.

 
5) Como verás, o texto a que te referes não é uma apologia do Cristianismo. E portanto o argumento do agnosticismo ser mais antigo que o Cristianismo não tem razão de ser. O que sabemos é que a definição de uma Verdade em Sócrates (de Platão) conduziu a uma concepção religiosa monoteísta (a Ideia do Bem) e a aceitação de que a Verdade não é um artefacto humano (o diálogo com Trasímaco). O oposto do que afirmas. O que significa que a dúvida socrática tem uma fé que a fundamenta. Essa fé é em algo que é exterior ao homem e constitui a referência para este! Algo radicalmente incompatível com essa concepção humanizante da verdade. Mesmo o cepticismo presume que se pode atingir uma verdade externa ao Homem. A tua posição não é céptica, mas sofística.

 

6) Nas últimas linhas fazes uma profissão de fé na tua concepção, acreditando que a mesma toca a transcendência. Mas como? E não podemos fazê-lo todos? Hitler acreditava firmemente nisso. E também na verdade como produto humano e num conjunto de máximas morais. Se não há nada de transcendente na posição dele, o que é que a distingue da tua?

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Uma Verdade Demasiadamente Humana

“Um grão de filosofia dispõe ao ateísmo; muita filosofia reconduz à religião.”

 – Platão

 

O Samuel, que há tempos se afirmou agnóstico, tem escrito e citado muitas máximas curiosas e complexas sobre a crença e Deus. Infelizmente não tenho tempo para escrever com detalhe sobre estas, mas tento aqui escrever qualquer coisa sobre a relação entre filosofia e religião.

Há um erro que é evidente no agnóstico. E dois no filósofo que se diz agnóstico.

 

O agnosticismo, por se fundar numa concepção deformada do conhecimento, acredita que Deus (transcendente) não pode ser conhecido como as coisas do nosso mundo. Esquece que nos apoiamos na fé para conhecer tudo o que nos rodeia. Física, química, biologia, apoiam-se em crenças sobre elementos invisíveis e sobre um conhecimento que é indubitavelmente duvidoso. A física newtoniana, o modelo de Bohr, a fábula mecanicista de Darwin, eram infalíveis porque intramundanos, porque baseados no conhecimento experiencial e testado de elementos materiais. Todos já estão no cemitério das ideias, ou servem como meras bases rudimentares das teorias contemporâneas. O agnosticismo colapsa para o niilismo se se levar demasiado a sério. Geralmente não leva e é apenas uma fuga rápida para uma discussão que alcança profundidades inaceitáveis. 

 

Mas um pensador ou filósofo agnóstico ainda encontra um problema acrescido. Quando pensa, não pode duvidar do carácter da Verdade? Como pode acreditar chegar à verdade se não pode estar certo de que a mesma existe? É importante perceber como pode alguém dizer que o conhecimento humano é incapaz de vislumbrar a Transcendência e, no entanto, aceitar a Verdade, um subproduto do Divino, como algo inquestionável. Esta concepção, tão frequente no agnosticismo contemporâneo, é um reflexo da estranha inversão moderna, em que o conceito de Verdade é transformado numa mera percepção humana.

 

Sem a certeza de um ponto exterior , sem a presunção de uma ordem exterior de referência (e a verdade não é mais que o confronto do ser racional com um Ser que não é o seu), toda a discussão é meramente contingente, impossibilitando qualquer discussão sobre princípios, valores ou fundamentos. Toda a discussão e fundamento político passa a mero jogo de Poder.

 

A verdade regressa ao ponto de Trasímaco, a opinião do mais forte.

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O Estranho Iluminismo do Liberal Burke

A apresentação desta tarde de João Pereira Coutinho sobre as Reflexões sobre a Revolução em França teve alguns pontos que se destacaram. O carácter da ideologia, o carácter iluminista de Burke e o fundamento marcadamente liberal do conservadorismo foram temas aflorados e que merecem alguma reflexão.

À primeira vista nada disto destoa de uma certa interpretação britânica das Reflexões. A uma segunda também. Mas há algumas questões que permanecem por esclarecer e que assolam a interpretação de JPC, assim como a de certo conservadorismo contemporâneo.

 

Burke fala da Revolução como “armed doctrine”. Como é evidente Burke considera que essa doutrina, aquilo a que chamamos hoje ideologia, é uma ideia com uma finalidade própria, a subversão da sociedade com vista a uma finalidade. Mas ao contrário do que é afirmado por JPC, o problema macro de Burke não é o facto de a sociedade dispor de uma finalidade (ao contrário de Hayek ou Oakeshott, em que a comunidade bem organizada é desprovida de finalidade, em Burke a finalidade é sempre a justiça e esta um reflexo de Deus), mas o facto de se dispor voluntariamente dessa finalidade, subvertendo o justo à vontade do povo ou do governo.

 

Essa questão levanta um problema mais profundo. Se se acreditar que Burke escreve contra a instauração de um governo ideológico, como pode defender um governo liberal? Como é evidente há duas opções. Pode considerar-se que o liberalismo não é uma ideologia, o que é manifestamente errado, uma vez que este se encaixa na perfeita definição de ideologia (um conjunto de ideias com suposta independência da religião e validade filosófica). Pode considerar-se, por outro lado, que o liberalismo não é uma ideologia, uma vez que esta é dependente de uma ideia que lhe é superior. O liberalismo seria assim uma fracção mais pequena de uma ideia maior, essa sim com valor normativo. Só dessa forma o liberalismo poderia não ser uma ideia entre as muitas da Modernidade. Só assim Burke poderá não se tornar irrelevante enquanto um ideólogo que escreve contra a ideologia. Parece-me certo que JPC não terá reflectido sobre este contra-senso.

 

Há ainda outros problemas profundos na interpretação de JPC. Afirma que Burke se inscreve na perspectiva do Iluminismo Escocês. Há, contudo, um conjunto de problemas que esta posição acarreta. Segundo JPC, Burke teria uma visão instrumental da Religião, assemelhando-se a Hume e outros autores dessa formulação filosófica. Segundo este, Burke dispensaria a Religião em favor de um liberalismo e de uma sociedade ordenada segundo princípios liberais. O problema desta visão é a torrente de escritos de Burke que são dirigidos contra Hutcheson e Hume. O Philosophical Enquiry into the Origins of the Sublime and Beautiful é uma obra que pretende resgatar a filosofia da irreligiosidade de ambos os autores desse “Iluminismo Escocês”. São profusas as referências depreciativas ao cepticismo filosófico de Hume e à sua proximidade, também filosófica, com Rousseau (o maior alvo das Reflexões). Mesmo em matérias constitucionais divergência entre ambos não poderia ser maior, criticando Burke com veemência as posições de Hume sobre a Monarquia. Interessa saber como poderá uma forma de Iluminismo Britânico mover-se contra a sua própria fundamentação. Filosófica ou constitucionalmente Burke e Hume são mutuamente excludentes. Ambos o sabiam. O tempo tratou de fazer com que os nossos contemporâneos o não percebessem.

 

Na ânsia de autonomizar e a si adaptar o conservadorismo, os liberais transformam-no naquilo que ele pretendia combater, numa ideologia. Para isso recorrem à obliteração do carácter eminentemente cristão de Edmund Burke, algo que torna o autor das seguintes linhas (as últimas da quarta das Cartas sobre uma Paz Regicida, um dos últimos escritos de Burke) totalmente incompreensível.

 

“That the Christian Religion cannot exist in this country with such a fraternity, will not, I think, be disputed with me. On that religion, according to our mode, all our laws and institutions stand as upon their base. (…)

 

It is a great evil, that of a civil war. But in that state of things, a civil war which would give to good men and a good cause some means of struggle, is a blessing of comparison that England will not enjoy.”

 

O mito do Burke que vê a Religião como algo dispensável cai, assim e por via do próprio, por terra. A ideia de que Burke aceitaria a irreligiosidade da constituição em favor do expediente, de uma teoria liberal ou de qualquer forma de cepticismo (uma posição muito liberal contra os “reaccionários” que nunca se sentariam à mesa com a Revolução) é nada mais que isso. Um mito. E nem sequer dos mais bem construídos…

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A Nossa Natureza

«We know, and it is our pride to know, that man is by his constitution a religious animal; that atheism is against, not only our reason, but our instincts;»

(Edmund Burke)

 

É frequente falar-se da religião como uma escolha pessoal. Essa visão da escolha individual é uma condicionante, um pressuposto religioso falso, uma colocação do Homem em termos que não são verdadeiros. O Homem tem em si muitas escolhas, mas esculpir da sua própria natureza não é certamente uma delas.

 

Nos tempos que vivemos a Fé é vivida como uma mera questão de sentimento, um sentir que se pode dispensar sem prejuízo individual ou social. Mas há elementos racionais na existência do Homem que assombram as suas escolhas. Por cada escolha humana há um preço a pagar.

 

Quando Burke escrevia sobre a natureza religiosa do Homem, não o fazia por acreditar que ninguém poderia viver sem a existência da Divindade, mas por saber que as consequências de tal aceitação implicariam ofenderiam os instintos mais básicos da humanidade. Esse instinto era nada mais do que um instinto humano de Justiça. A possibilidade de haver uma Norma que daria sentido às restantes. Uma Medida que colocaria as outras em perspectiva. Um Princípio que não poderia ser afastado por ser maior que o Homem. Essa é uma ideia que perpassa toda a estrutura das suas Reflexões. Que o Homem se tornara Deus, a Política um artefacto humano que lhe satisfaz os caprichos. Aceitar este estado de coisas revolucionário seria aceitar a catástrofe de um Homem liberto de ter um lugar na ordem das coisas.

 

Ao prescindir de Deus, individual e comunitariamente, o Homem teria de encontrar algo que cumprisse essa função. A Razão, a Vontade, a Segurança, foram os caminhos ideológicos encontrados para essa divinização de elementos humanos. A antropomorfização de Deus é um processo que se verifica nesse processo, através da idolatria. É um processo longo e que não se pode aqui resumir. Pelo menos até que chega ao ponto de se enxertar no pensamento religioso e apor-se a todas as religiões como uma ideia de tolerância como absoluto. Começa aí uma longa história de idolatria da tolerância (como se esta não fosse um valor articulável entre outros num contexto de Bem), de combate ao dogma (à curiosa excepção do dogma da tolerância).

 

Esta existência patética do Homem é a sua única esperança de vida em Comum: encontrar o elemento que o transcende, divinizar sucedâneos dessa Transcendência ou viver o Império da Força, de argumentos que não vivem de lógica, mas de armas ou apoiantes.

A natureza trágica do Homem está aí à vista. Quem mais prescinde de Deus ou do Dogma, é quem mais faz uso, embora veladamente, dessas categorias. Vivemos numa era de Dogma sem Deus. Nada mais que um subterfúgio para a falta de coragem para afirmar que se acredita que o Homem é Deus. Que toda a norma é vontade. Might is Right.

 

Podemos escolher viver em Deus ou não. Mas a nossa natureza, e a das coisas, não permite que o façamos sem consequências.

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A Aridez da Pedreira

Compreendo que seja difícil defender algo tão esquivo como a Maçonaria (foi o Samuel que escolheu fazê-lo e não eu), mas o argumento “É tão diverso que nada lhe pode ser imputado” simplesmente não colhe. Isto porque a Maçonaria, quer a teísta quer a ateísta, se funda na compreensão, imediata e não-revelada (sem Graça), de certos segredos do tecido do Universo. Esta visão gnóstica (de onde vem esse culto inevitável da tolerância senão de uma revelação privada?) colide com e subverte a Revelação, que é fundamento do Cristianismo católico, e sobrepõe a esta visão uma principiologia secular. Dispensa para a compreensão do mundo, do Bom e do Justo, a Igreja e o clero.

 

O argumento da compatibilidade entre ambos, pelo facto de haver maçons na Igreja, tem o mesmo valor que o argumento atrás aduzido pelo Samuel da pedofilia na Igreja Católica. Nenhum. Se a Doutrina o proíbe, quem vai contra esta é contrário à Norma. E é por isso que não há católicos maçons. Pode lá haver quem vá à missa, receba sacramentos, reze a santinhos, mas sempre em incongruência e nulidade total, como alguém que reza para que aconteça uma coisa má.

 

Já vimos como a Maçonaria é patriótica (quando por pátria entende os seus interesses). Já vimos como é tolerante (com aqueles que se lhe submetem). O Samuel diz, agora, que a Maçonaria é “uma pluralidade de crenças e pertenças onde vários indivíduos podem compaginar-se com esse anticlericalismo e outros não. É um universo simbólico assente na tolerância e pluralismo que não liga com os rótulos profanos e maniqueísmos com que estamos habituados a lidar.”

Em suma, é um sistema de crença na tolerância que tolera quem não adere a esse mesmo valor. Como comecei o meu post anterior, a gente de facto lê, mas nem acredita… Pelos vistos também não liga com o senso-comum ou um módico de razoabilidade.

 

À ideia maçónica subjaz um princípio Relativista de fundo, a ideia de que não há dogma ou Revelação, que tudo é passível de discussão, que o livre-pensamento é o elemento salvífico do Homem, e a obediência à loja a norma de comportamento. E esse relativismo vem acompanhado do carácter perfectível do Homem. A Maçonaria (todas as maçonarias o fazem) acredita na perfectibilidade do Homem, na capacidade que este tem, em si e por si, de alcançar a sua forma perfeita.

Por isso é que todo este liberalismo que se diz anti-utópico e anti-relativista, mas que aproveita todas as oportunidades para colocar todo o saber, conhecimento e fé à mercê da Vontade Humana, merece um sério olhar. Mas que o não levemos a sério…

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Sobre o Individualismo Metodológico

Uma espécie de trivialidade ética que por aí se difunde como se fosse um grande progresso da ciência, é fundamental dizer que, se é verdade que só os homens são dotados de racionalidade, são as instituições (formais ou informais) que articulam as finalidades do ser humano e que lhes dão um sentido. Não faz tem qualquer nexo afirmar que os homens são desligados das instituições, ou que há boas e más pessoas em todo o lado, independentemente do ambiente e contexto. O argumento da Igreja face à pedofilia, que o SPP utiliza, é particularmente interessante.

 

Diz o SPP que se tal raciocínio holístico se aplicasse, toda a Igreja Católica seria pedófila. Caso a Igreja apoiasse a pedofilia, tivesse doutrina a favor dessa prática e houvesse um incentivo (ou não sanção normativa) à mesma, poder-se-ia afirmar tal coisa. Mas as normas do Catolicismo a esse respeito são claras e a acção de determinados membros do clero foi escondida por violentar essas normas. Ou seja, não existe nada na fonte de normatividade que apoie a prática e a própria ocultação (interna) dos actos violava em si essa mesma norma.

Como está fácil de ver o argumento é erróneo e a expressão infeliz.

 

Afirmar a independência da benignidade ou malevolência do homem face às instituições é o mesmo que dizer que todos os Astecas eram más pessoas, indivíduos de má-índole, quando na verdade eram apenas fruto de uma comunidade (homicida e sacrificial) com uma compreensão bastante limitada do Bem e do papel do Homem na Criação. Ou seja, temos o comportamento individual, o comunitário, e a norma externa, em vez dessa unidimensionalidade redutora do homem bom ou mau que o liberalismo fez por difundir.

 

Logo, não só de uma posição não se infere a outra (a explicação institucionalista não gera responsabilidades partilhadas que só seriam sanadas pelo individualismo, como defende o Samuel), como a aplicação de uma grelha conceptual moral comum que o SPP utiliza (homens bons e maus) já implica em si a definição de uma componente valorativa. Ou seja, o individualismo metodológico, e a sua neutralidade, vai à vida no argumento e na conclusão, que é contraditória com a premissa.

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Coisas de Conspiradores

A gente às vezes lê coisas e nem acredita.

Parece que a Maçonaria está a sofrer um ataque gigantesco por parte de teorizadores da conspiração, de pessoas malevolentes que querem reavivar velhas perseguições e destruir uma entidade que para além de patriótica, tanto fez pela liberdade em Portugal.

 

Como é evidente a Maçonaria nunca nada teve a ver com perseguições religiosas, extinções e expulsões de ordens religiosas, hasta pública de bens roubados por decretos ilegais e substituição por essa via das elites do país. E nossos liberais, que tanto se insurgem contra o Estado Omnipotente, contra as nacionalizações e o crescimento do Estado, são capazes de olhar o saque da propriedade da Igreja, a repressão das consciências e a sua subordinação, como se isso nada tivesse tido a ver com um conflito entre religiões ou visões do mundo. Foi só uma questão espontânea de interacções entre indivíduos e quem diz o contrário é um maluquinho das conspirações.

 

Como é evidente, as pessoas que esgrimem o argumento da conspiração são as mesmas que afirmavam que o país precisava de destruir o catolicismo, ou de um Vaticano II, para que a democracia e liberdade emergissem. Os mesmos que afirmam que as pessoas que professam uma religião a deveriam subordinar a um conjunto de ideais cívicos que são passados através de segredos. Ou seja, os que dizem que as suas crenças e formas de associação são irrelevantes, são os mesmos que andaram durante os últimos dois séculos de dedo em riste, dando caça a todos os, reais ou imaginários, inimigos da liberdade. Sobre isto não há quaisquer dúvidas.

 

Sobre deformações da História e o grande patriotismo da associação não-religiosa benemérita o Nuno Castelo Branco já aqui meteu ordem numa história digna dos parodiantes.

 

Falta-me ainda relevar mais uma. Quando se refere como o conservadorismo europeu é obra de um maçon, Edmund Burke, é preciso não esquecer o ataque que à Maçonaria é endereçado nos escritos posteriores a 1790 e a ideia de que a Igreja é a última esperança e salvação da Europa. Curiosamente são esses escritos que dão origem ao conservadorismo europeu e não as discussões sobre Hastings, a carga fiscal, ou os gastos militares. Apresentada a coisa como aqui, o leitor mais incauto e menos versado na literatura conservadora, pode até acreditar que Burke realmente só se opunha a meia-dúzia de princípios da revolução e que no fundo era um pedreiro-livre que acreditava na liberdade como propriedade racional, quando na verdade a sua oposição é integral a essa visão racionalista.

 

A insistência de que a Maçonaria não é uma ideologia ou uma religião é talvez das mais curiosas. A Maçonaria gaba-se do seu anti-clericalismo, do seu apego à secularidade do Estado. Mas para o fazer não precisa de um conjunto de pressupostos, de uma afirmação de supremacia da sua própria racionalidade? Essa mesma racionalidade que lhe permite seleccionar e proceder a uma meta-intepretação de todas as religiões, para obter as suas finalidades seculares, não é em si uma racionalidade e uma interpretação cosmológica (ainda por cima alicerçada num deísmo que é totalmente insustentável nos dias de hoje) que se torna suprema face às outras? E como afirmar que uma posição que não é religiosa exclua a da sua concepção de verdade a possibilidade do Deus Vivo e Encarnado? E como todas as ideologias, esta não substituiu uma visão do bem divino por uma concepção secularizada que ordena, ela própria, a própria estrutura da Revelação?

 

No meio de tantas cortinas de fumo, esta visão do mundo, bem limitada e insuficiente, faz bem em esconder-se e lançar engodos e meias-verdades. Porque o rabo do gato está mesmo de fora.

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Miopia Liberal

 

Sempre achei particularmente divertida a relação dos liberais com o Estado. Em particular a obsessão dos neo-liberais com o tamanho do Estado. O assunto é fascinante pela sua bizarria e pelo conjunto de contradições que encerra.

Os liberais clássicos sempre acharam que poderiam controlar o Estado através de um conjunto de máximas que secularizavam o seu pensamento religioso. O pensamento de Locke fazia coincidir através de um conjunto de experiências mentais uma racionalidade que pretendia inevitável (e que era tudo menos isso) e alguns preceitos retirados ad hoc das Escrituras e era o fundamento de um enquadramento do qual o Estado não poderia fugir. Como está bom de ver, o Estado fugiu desta caixa. Fugiu porque os próprios liberais a abriram, considerando que a caixa não servia e libertando o Estado para servir os seus próprios intentos. Quer na Revolução de 1688, quer na de 1789, ambas as comunidades decidem que o Estado será não aquilo que por natureza é, mas aquilo que a comunidade pretende que este seja. Independentemente do que a historiografia whig e demais prosa ideológica de oitocentos pretendeu fazer passar, o corte de legitimidade da Glorious Revolution foi tão grande e tão arbitrário como o da Revolução Francesa, mas ficou simplesmente disfarçado no meio de um conjunto de tensões sociais que nunca deixou patente a nudez de tal apelo. O liberalismo, um conjunto de preceitos racionais para o controlo do Estado, deu lugar a uma forma de voluntarismo que transformava a máquina do Poder em escravo da comunidade. Toda a sua vontade seria a do Estado. Todas as limitações do Estado dependeriam da mesma forma da comunidade. Esta ideia ridícula de que seria o Soberano, o povo, a fonte de um poder e da sua própria limitação é, numa comunidade que é definida por actos de Vontade, onde nenhuma forma de identidade ou racionalidade perdura, a defesa da total plasticidade do Poder.

Chegamos aqui ao ponto essencial do problema. Através da Democracia o liberalismo mostrou a sua verdadeira fragilidade, a sua falta de um fundamento verdadeiro para o Estado. Nunca foi nada senão um misto de teologia protestante e vontade pura. Foi a sua ausência de um fundamento sério para o Estado que o libertou da única limitação que poderia ter, Deus. Foi o fim dessa própria limitação no seio dos liberais que os fez aderir à ideia democrática da vontade fundamentadora do Estado. E essa mesma fundamentação impede o Estado de qualquer limitação.

Os liberais falam muito do Estado grande e pequeno, quando a sua medida não é mais do que a sua vontade. Não há aqui qualquer forma de mensurabilidade.

O que deveria preocupar os liberais não deveria ser o tamanho, mas a omnipotência do Estado, porque é isso que caracteriza a política do nosso tempo. Deveriam preocupar-se não com o facto de poder fazer muito ou pouco, mas com o facto deste aumentar e diminuir segundo a sua vontade momentânea. Mas, como é claro, alguém que não defende a existência de uma verdade com capacidade de cercear comportamentos e calar o erro, nunca poderá compreender que o Estado possua limitações que sejam externas às vontades, percepções e sensibilidades dos cidadãos. E desta forma, como poderá o Estado ser limitado?

Ver o Estado actual como grande ou pequeno é como ver uma criança a levitar e a fazer milagres e achar que “o miúdo é fofinho”. É isso que o liberalismo opera, através de uma ausência total de reflexão sobre o que é realmente importante, acha que a crucialidade está no tamanho e não na fonte do poder. Uma infantilidade que impede de ver o próprio problema.

 

 

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