Autor: joshuaquim7 (Page 1 of 5)

Cenas de uma Agência de Casos

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Entretanto, como a cena do Pacote VIP não pegou, o pessoal que encomenda casos atirou-se ao telefone vermelho para encomendar outro para a próxima semana:

Ferruginoso Rodriguinhos: Tou?

Agente de Casos: Tá lá?

Ferruginoso: Eh pá, esta merda não tá a colar.

Agente de Casos: O quê?

F: O Pacote.

AdC: E agora?

F: Precisamos de outro para a próxima semana.

AdC: Outro Pacote?

F: Não, pá. Outro caso.

AdC: Com pedido de demissão? Só pa chatear?… Com gravações áudio? Com acesso a documentos surripiados aos ficheiros sigilosos do Fisco, da Segurança Social? Com fotos de sexo comprometedoras em locais comprometedores?

F: Eh pá, sexo não… [Tosse seca] E há matéria?

AdC: Não. Mas podemos alimentar umas manchetes venenosas por uns dias, criar umas suspeições, dizer muitas vezes “a Direita”, “a Direita”, “Fascistas”, resulta sempre, e depois um gajo manda o chibo moralóide de serviço dizer que tem suspeitas, mas não tem provas, dizer umas merdas sobre o Estado de Direito, dizer que os gajos mentiram, que é gravíssimo e tal e, tungas, lá para a Quinta ou Sexta-feira, pede-se uma demissão. É fácil…

F: Fácil!… Os gajos não se demitem… Vá! Ok. Siga. O gajo das fotocópias tem ali umas centenas pa vocês. Bem, depois um gajo fala.

AdC: De quinhentos… A cores. Ok?

F: Chut! Ok.

E a chamada terminou. Entredentes, Ferruginoso murmura: “O tipo não arranca nas sondagens e tem a malta de organizar este teatro! Ora eu tô-me a cagar pó teatro! Quero é sangue, sangue! Hahahaha!”

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Sou Diáspora

Conselho da Diáspora Portuguesa (foto LUSA)Em Cristo, sou dispersão e unidade numa só errância peregrinante comum ao Género Humano. Como Poeta, sou uno e sou vário, porque sou eu mesmo e tudo quanto o meu próximo sofra e sinta, desdobrado nele. Como Profeta, qualquer um o é!, pulverizo-me no corpo e na alma da Palavra, luto pelos Valores da Vida e da Liberdade, pela Justiça Inacabada, pela Tradição e a Sabedoria Acumulada. Disperso no mundo novo em que emoções e volições se entrechocam virtualmente, todos os dias abro os lábios para existir e agir na Rede. Grátis.

 

Disperso, à procura de Gente Capaz de Amar e de Crer e à procura de mim mesmo calibrado na grande demanda interior pela Paz. Os meus caminhos de diáspora íntima vão cunhados em grego antigo, διασπορά: eu sou milhões de portugueses. Fui deslocado violentamente da hipótese de emprego pela Corrupção Endémica do meu País. Fui forçado, incentivado a emigrar e na verdade emigrei dentro de mim mesmo, passando a existir sobretudo enquanto activista cívico-político na Rede, suspenso, sem corpo, platonizado, intelectualizado e sensual, mas dessensorializado, vertido nas plataformas de opinião e confrontação agreste ou pacífica do mundo virtual, todos os dias.

 

Sou um só e ímpar no Cosmos. No entanto, pertenço a essa grande massa de portugueses espezinhados pelas elites político-económicas, essas que legislaram em seu próprio favor durante décadas; essas que durante décadas urdiram leis que os excepcionam da Justiça apesar de a proclamarem e proclamarem «Povo» e «Liberdade» e «Progresso», na sonolência dos colóquios; essas que se perpetuam nas rendas, na ordem mediática, e se cevam através da grosseira exploração da grande maioria de que faço parte; essas que prosperam mediante as lógicas de fechamento em torno de si mesmas e dos privilégios adquiridos e intocáveis que tomaram para si e só para si. Sou Diáspora, forjado no sofrimento e para o sofrimento. Por isso esbofeteio a saudade e o fado com um pontapé rijo no entrepernas.

 

O Conselho da Diáspora está talhado para mim, para a minha Diáspora no Âmago, igual à Diáspora Física e Emocional de milhões de portugueses que foram aportuguesar longe, lusificar, aculturar bairros, fábricas, escritórios, lojas, Bancos, e tão calados, cumpridores, obedientes e discretos que os povos de acolhimento os tomam por sub-espanhóis ou sul-americanos, gente cinza e inócua que cumpre exactamente o que deve. O Conselho da Diáspora exala sucesso, capacidade, contactos, trabalho, dinheiro. Ó coisa boa que Cavaco pariu! É bom que me represente, anónimo, perdido, esmagado, esquecido, traído, escavacado pelo PS Dissoluto-Dissipador, e bode-expiado por PSD e CDS-PP em modo SOS.

 

O Povo Hebreu, desde o exílio na Babilônia no século VI a. C. e, especialmente, depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C., experimentou a desterritorialização nacional, o expatriamento de milhares, mas não a excisão de uma Alma verdadeiramente comum e um sonho por que viver onde quer que esivesse e como quer que fosse perseguido em Pogrom-погром e outras sábias limpezas seculares europeias-médio-orientais. O Povo Português, desde o século de Camões, inventou uma Diáspora Colonizadora e Aventureira, forjada na dor e na ousadia, uma Diáspora Conquistadora, Militar, Evangelizadora, Pícara, feita de coragem e com o ar discreto evangélico do não saiba tua mão esquerda o que faz a direita.

 

Por isso, ainda hoje meio-mundo não imagina quem somos, o que fazemos e o que fizemos. E esse anonimato e esvaziamento identitário de Portugal num Mundo Globalizado é somente a outra metade desta tragédia processional de quatro décadas lentas, o nosso desgoverno cheio de Esquerda e boas intenções.

 

Sou Diáspora. E tu, Tuga, também és. Ou não és nada.

Xarope Emocional

No Sábado passado, fui levar ao aeroporto uma querida família, sangue do meu sangue, para um inédito Natal em Londres, junto do rebento que emigrou. A Gare estava a rebentar pelas costuras, especialmente os voos da Ryanair, mas não só.

 

Pensei na maravilhosa mobilidade portuguesa, hoje mais sofisticada e mais “móvel. Uma desgraça? Não inteiramente. Um alívio e a primeira confirmação dos tempos globais que ou enfrentamos ou enfrentamos. Tanta gente, meu Deus!

 

Mesmo que não quisesse, não deixei de meditar nisto, na nossa Emigração de Enfermeiros, Engenheiros, Professores, Arquitectos, Informáticos, Picheleiros… E isto é amargo como um Xarope Emocional. Amargo e Doce porque os que se firmam e têm trabalho por essa Europa e esse Mundo têm mais trabalho e mais carreira que alguma vez teriam cá, provavelmente em Países que se dão ao respeito na Justiça, na Civilidade e numa estimulante retribuição.

 

Doce e Amargo pela distância dos corações nos nossos corpos apenas mais próximos graças ao platonismo do Facebook, que nunca suprirá Abraços e Beijos em Carne e Osso, tudo em que se resume a Espécie Humana e faz com que valha a pena.

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Não é Impressão Minha, Estou Morto

Relanceio o meu olhar pelo ano de escrita que está prestes a acabar. Derramei-me. Como sempre. Se agora um torpor alastra pela minha alma, espécie de fadiga por tanto ter lutado, não no meu reduto, mas no da mesma trincheira hostil da mais retinta incompreensão, insulto e oposição pessoal, meses consecutivos houve em que nada me deteve na fabricação da violência feita palavra reactiva a vestir a ideia filigrana contra o terror de ver resvalar o meu Portugal para a agitação estéril e o vazio.

 

Era necessária uma barragem de verve contra os que nos VídeoMedia berram mais alto e por mais tempo na defesa de mais do mesmo, toda a prosperidade e adaptabilidade globalista de que a velha Esquerda é incapaz. Contra a sedição dos soares, a malícia dos sócrates e a rebelião em pólvora seca das esquerdas, marchei, marchei.

 

Pausa, portanto.

 

Entre o meu corpo e a minha alma desenrola-se agora o justo armistício, apaziguamento momentâneo de que careço. As naus das minhas palavras seguiram, seguiram viagem, deram-se à trópica rota de contundir ou consolar. Reparo, no entanto, que não há ninguém. Vejo que estou morto. Cercado de silêncio e frieza. Morto. Pobre e morto. Na verdade, não tenho ganho absolutamente nada com a minha escrita apaixonada na defesa de causas, princípios e éticas fora do grande lastro esquerdejante nacional mentiroso. Não lucrei nada, a não ser experiência escrevente, prazer no acto escritor e a espessa solidão do eremitério da escrita, vantagem da liberdade sem venalidade de emitir o que penso.

 

Zeros. É tudo quanto me é dado contemplar. Nenhuma oportunidade. Nenhum convite. Nenhum apreço. Nenhum horizonte. Zero. Sina. Portugal. Um dia será diferente. O mais provável é que seja diferente, mas longe, lá, onde possa voltar à vida social e financeira que o Regime, na sua horrorosa corrosão moral e propensão para a falência, comprometeu no meu caso e no de milhares.

 

Entretanto, estendo a mão. Sou qualquer um que estende a mão pelas ruas, avenidas e ruelas de Lisboa e Porto e perante quem o cidadão desvia a face enfastiada pela viciosa recorrência rotineira, pela habitualidade viscosa das ciganas romenas. No meu caso, os cortes foram muitíssimo mais radicais e só há uma maneira de reagir em devida conformidade com eles: estendendo a mão e defendendo o Ajustamento contra os soares, contra alguma maçonaria, contra os fósseis-sindicalistas, contra os comunistas do PCP, contra os rendeiros e devoristas do Regime, contra a tal nomenclatura endogâmica, neocorporativista e partidocrata que explica eloquentemente a minha penúria, o meu desemprego, o meu naufrágio.

 

Continuação de um bom dia, se puderem.

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O Pontificado da Compaixão

Pope Francis kisses a man suffering from boils in Saint Peter's Square at the end of his Wednesday general audience, Nov. 6 2013. Credit: ANSA/CLAUDIO PERI.

Porque não é a Luta, a Violência e a Crispação gratuita, mas a compaixão, o encontro e a partilha que fizeram, fazem e farão toda a diferença pela positiva, neste Mundo, nesta Vida, neste trânsito Histórico da Espécie Humana. O Caminho a seguir é esse, a compaixão, o afecto, o calor humano, como únicos embrulhos com sentido numa mensagem Espiritual credível.

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Blatter, Portugal, Europa, Mundo

Ao longo dos anos, FC Porto, outras equipas nacionais, e Mourinho têm tido manifestas razões de queixa da UEFA. Ronaldo começa a ter razões de queixa grossas da FIFA, com o último deslize tresloucado e parcial de Blatter, que certamente não foi por acaso, mas corresponde a uma cultura ociosa e satírica de cúpula.

 

Há, notoriamente, um lóbi anti-português nesses dois organismos pela simples razão da inveja e da escala. Para efeitos europeus, a escala portuguesa parece desprezível e fazem-nos o desfavor de no-lo darem bastas vezes a entender, e muito mais nestes tempos de egoísmo e salve-se-quem-puderismo europeu.

 

No entanto, para efeitos do grande balanço histórico e da grande inveja entre as nações europeias relativamente a Portugal por causa da sua influência linguística, cultural e mesmo por causa da nossa expressão demográfica, não no rectângulo, mas no resto do mundo, Portugal e o enorme continente de afectos português têm um peso cada vez mais não desprezível nos espaços materiais e imateriais do Planeta, coisa que a França não tem, a Bélgica não tem, a Alemanha não tem, e muitos outros países europeus poderosos e ricos, manifestamente não têm nem terão. Isso e um legado secular fora da Europa, no Oriente, em África, na América, na Oceania, ou seja, virtualmente em todo o lado porque estar em todo o lado sempre foi e continua a ser eminentemente português.

 

Era preciso que tais países tivessem sido e feito, nos séculos passados, o que Portugal, Espanha e Reino Unido fizeram de ímpar no Planeta, sobretudo Portugal, atendendo às suas dimensões, e nenhum outro Povo pôde ou soube.

 

Posto isto, que a UEFA, a FIFA e todos os invejosos e desprezivos de Portugal se fodam e façam bom proveito.

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Autárquicas 2013, Roteiro Para o Futuro

Podemos adoptar duas atitudes relativamente ao nosso futuro colectivo imediato. Ou acreditamos nele e apostamos nele. Ou dispomo-nos a desistir, sendo que desistir é morrer, mesmo que só seja emigrar. Os desafios colocados pela Troyka, por causa da dívida cavada pela Gestão Política em Portugal até 2011, são, na verdade, os velhos desafios colocados pela Política à Portuguesa a si mesma e a nós: durante anos, mesmo décadas, toda a noção de obra materializava-se em estruturas físicas, basicamente, e na parecerística cara contratada fora do Estado para coisa nenhuma a não ser para bizantinar e tornar inextricáveis contratos como os swap, as ppp e estupros colectivos a prazo similares. Chegou a hora em que as dimensões espirituais, culturais e humanísticas, farão toda a diferença no grande menu dos principais centros urbanos nacionais e, logo, dos Governos com Estratégia Nacional. Em vez de uma rotunda, um ciclo de Música Popular; em vez de um Anfiteatro, de um alargamento de Cemitério, de uma Sala sumptuosa para Reuniões e Espectáculos, uma Semana de Teatro e Poesia e a profusão de grupos, devidamente apoiados e acarinhados pelos poderes públicos e pela comunidade, onde iniciativas de Arte pontifiquem. Aqui se inscreve a minha confiança total nos munícipes que investem parte dos recursos autárquicos em manuais escolares gratuitos, em medicamentos comparticipados, em residências municipais sociais, Infantários, ou mesmo em vacinas fora do plano nacional igualmente gratuitas. As pessoas, primeiro, e não há melhor investimento quanto aquele que dignifica vidas, premeia responsabilidades assumidas e incentiva a excelência. Não alimento qualquer espécie de receio do futuro, no plano local. O futuro já está a ser moldado segundo a pedagogia da escassez do dinheiro e das crassas dificuldades que cada um experimenta só em sobreviver em Portugal. Portanto não concebo as nossas grandes cidades alhearem-se de um apoio muito concreto e inteligente a idosos sós tal como a famílias com baixos rendimentos. Um município rico pode e deve ser um município da gratuitidade em domínios absolutamente incontornáveis no plano social, ensino e saúde, e mesmo no combate ao desemprego pelo desbloquear de um reabilitação urbana acelerada especialmente nos centros históricos, onde a atenção dos turistas se concentra e onde geralmente mais se dispõem a consumir. Não se trata de mais emprego autárquico, de mais empresas municipais. Trata-se de não andar a passo de caracol na revolução da malha urbana dos centros históricos de Porto, Lisboa ou Coimbra, por exemplo. Entretanto, os cortes apresentam-se-nos no horizonte como inescapáveis para fazer face às nossas necessidades de financiamento de curto, médio e longo prazos. Para garantir mais dinheiro, o Estado Português, nós, dependemos ou de mais impostos ou de mais supressões de despesas fixas. Não há volta a dar: qualquer família em que ambos os cônjuges ficaram desempregados sabe como regressar a um módico de equilíbrio financeiro doméstico, com que privações e com que dores, até voltar a levantar a cabeça. Desde logo, mediante um fundo de meneio diligentemente alimentado e irrenunciável. O Estado Português terá de comparecer de testa alta, credível, digno de confiança, junto de quem nos empresta dinheiro, amortizando o máximo de dívida possível, como há dois dias, coisa que se repercutirá na confiabilidade para toda a espécie de novos investimentos provenientes do exterior. Um Estado Dubitativo, Hesitabundo, em crise quanto ao caminho a seguir por um significativo desafogo das nossas contas, não atrai dinheiro, nem inspira confiança. Acabou o investir em estradas? Invista-se nas ideias, nos negócios inovadores com margem de progressão planetária. Não há futuro sem a obtenção do respeito do credor pois as intervenções troykistas só se dão em Países comidos de corrupção, com décadas de descontrolo legífero e hábitos manhosos de indisciplina orçamental a fim de satisfazer os estômagos estabelecidos dos mesmos que, segundo Paulo Morais, fazem do Parlamento a sofisticada plataforma de negócios que em nada interessam aos cidadãos, caos cultivado e acalentado pelos vampiros habituais dos orçamentos, basicamente um conluio entre banqueiros sem escrúpulos, políticos sem escrúpulos e construtoras sem escrúpulos, todos eles bem na vida, todos eles com um tipo de sucesso pessoal que esmaga milhões e os condena, todos eles com bom fato e gravata e o dinheiro como ídolo e finalidade religiosos. Confio inteiramente no futuro em Portugal, mau grado os sinais depressivos e os riscos e terrores de falhar, mas é preciso que o PS deixe de vender ilusões e demagogias, para crescer em credibilidade e merecer o respeito que não merece de todo; é urgente que os partidos de Esquerda, abanando-se com o grande leque do Verbo Rebuscado e a perpétua Indignação profissional por tudo e por nada, abandonem a retórica ultrapessimista, amarga e sem esperança, em completo desuso nos países mais prósperos. Não é com doses cavalares de depressão e de petrificação mental, não é com um estado psíquico raivoso, insultuoso, mais insatisfeito que uma mulher mal-amada, frustrada aquém-orgasmo, que se dá a volta ao Pato Feio de Perversão made by Troyka, Pacto criado e atraído por quem perverteu a Política, por quem sujou as mãos com negócios, negociatas, fretes e fellatios, bons para a Banca, bons para as Construtoras, excelentes para as MegaFirmas de Advogados, e que se revelaram horror para nós, desgraça para nós, condenação e vexação para nós. É preciso rejeitar a Mentira, a Impunidade, e as narrativas mariquescas de auto-absolvição desavergonhada 2005-2011.

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Requiem pelo Memorando?

Se houver um segundo resgate é porque a política, o jornalismo e o comentário político falharam. Não sou, jamais serei, como outros que imputam quase exclusivamente a Passos Coelho o malogro do Primeiro Programa de Resgate. Não suporto a linha discursiva ultradestrutiva de Pacheco Pereira. Estranho muito João Gonçalves cujo conhecimento privilegiado da experiência governativa recente não se traduz em qualquer expectativa favorável para Portugal, em confiança no nosso destino, ou no recato de uma lealdade básica, mas apenas no ressabiamento, justificado ou não, pela própria evacuação com a saída de um dos melhores ministros, Álvaro Santos Pereira. Não podemos alegrar-nos por Portugal cair de borco; não se pode fazer figas por que naufraguemos, dadas as desavenças com o timoneiro em plena borrasca. Como é que há gente lucidíssima que traz para a arena pública nada mais que a incontinência dos seus maus fígados, vísceras viciosas de quem detesta outra gente por razões muitíssimo pessoais?! Em todo o caso, se este Primeiro Programa de Resgate falhar, falha por razões bem amplas, até longínquas. Falhará porque terá estado errado? Sem dúvida, especialmente na tentativa de concentrar no tempo um sofrimento esmagador sobre milhões de nós. Quando o PS negociou esta merda já se sabia que seria assim. Antes do Resgate, porém, o País não vivia no paraíso das contas e sem problemas, ilusões ou falácias. Antes deste Primeiro Programa de Resgate, a economia não crescia. Só a dívida, só adjudicações, só o engendramento de pagamentos pesados futuros, só despesa pública, só os ajustes directos da política pré-eleições, só a inefável engenharia dolosa das PPP e dos Swap. Se este Primeiro Programa de Resgate falhar, falhará por acumular erros, sendo que o erro é o efeito da tentativa de acertar por contraponto à esterilidade de apenas opinar. Falhará por causa do calculismo excessivo do CDS-PP sob Portas e da instabilidade idiossincrática de Portas. Falhará por incompetência global, geral, alargada, da sociedade, dos seus políticos, dos seus especialistas, dos seus jornalistas, todos incapazes de se deixarem mobilizar para um objectivo inequívoco, claro, onde nem sequer o pantanoso PS tergiversasse, coisa impossível. Falhará porque uma só eleição, as autárquicas, e a tarefa hercúlea de ganhá-la ou não perder demasiado muda muita coisa, sendo o CDS-PP o primeiro a entrar na mais agitada angústia pelo temor da extinção. Falhará porque a mediocridade e o comodismo das Centrais Sindicais não muda nem consente que se mude uma vírgula ao Portugal fossilizado desde 74, cíclica e sucessivamente falido por défice de replicação dos modelos funcionais de uma AutoEuropa, por exemplo. Falhará porque a incerteza nesta Europa é a nossa certeza acerca do que de mais sádico e cruel urge fazer: cortes, a fim de sossegar os detentores do dinheiro internacional e únicos capazes de financiar dignamente o Estado Português no futuro. Falhará porque o Presidente da República é um Presidente da República ao retardador e falhará porque nos últimos dois anos Seguro fez de conta que o Memorando não era com ele, que o compromisso salvador do País, ainda que crucial, poderia sacrificar-se aos desígnios eleitorais imediatos. Falhará porque, em Política, a esperança covarde e ilusória é sempre a primeira coisa a morrer depois de mendigar em vão as ideias pródigas e psudo-redentoras do sr. Hollande ou a ajoelhar na esperança vã da remoção de Frau Merkel. Falhará, em suma, porque milimetricamente o Tribunal Constitucional, Portas, Seguro, Cavaco, todos contribuíram para as brechas, as inconsistências, as hesitações, os cálculos, a lógica de salvamento do próprio couro antes de mais. Falhará porque as coligações responsáveis só saem bem sucedidas em Países Europeus Prósperos, à prova de Corruptos: num Regime Corrupto, como o nosso, o cidadão sempre amargará, emigrará, suicidar-se-á. Num Regime Corrupto só há salvação para quem rouba a tempo e horas e passa incólume. Uns ficam em prisão domiciliária. Outros exilam-se em Cabo Verde. Outros litigam-isaltinam pelos séculos sem fim, amem. Outros ainda, depois de terem crucificado directamente o próprio Povo com decisões e efeitos duríssimos a repercutir no futuro imediato e devidamente saídos de cena a tempo para parecer que não foram eles, comentam na RTP como quem fuzila. Unhas polidas. Face esfoliada, escanhoada, maquilhada. Corte de cabelo impecável. Fato do mais caro, pose científica, perfeita, fotogénica, a beleza que passa bem, o lixo coberto de ouro e mundanidade. Esta miserável capacidade de nos deixarmos ludibriar, de consentirmos impunidade, explica, desde o doloroso Camões, o Portuense, por que motivo cenas como o Primeiro Programa de Resgate podem falhar, talvez falhem, o mais certo é que falhem. No entanto, ao contrário do Pacheco, do Gonçalves, de tantos e tantas que salivam por que isto dê com os burros na água, necessito de acreditar ser possível salvar os dedos. Contemplando os mais frágeis e sofredores, os mais desvalidos e maltratados, os desempregados, rejeitados, excluídos, recluídos na sua solidão de decepados da vida social e activa, tenho a obrigação de rezar, torcer, sofrer, chorar, babar, por que Portugal resista à tentação derrotista de falhar. Falhar o caralho, portugueses! Quem trouxe a Índia ao Terreiro do Paço e gerou com viagra natural todo o glorioso Colosso Brasil, não falha. Não sabe o que seja falhar. Não chora. Não espera o pior, não vai na cantiga cangalheira do Semedo, da Catarina, do Jerónimo ou do Seguro. Não fomos feitos para um colossal, monumental, vergonhoso, estatelarmo-nos internacional. Não somos, não podemos ser, jamais seremos, helénicos no caos consentido e cultural de não sermos levados a sério, no diz uma coisa e faz outra, tirando o PS e Paulo Portas, claro. 2.º Resgate? Digam-me que não. Assegurem-me que não.

O Grande Incêndio Constitucional

Chumbado, pelo Tribunal Constitucional, o novo regime que criaria o sistema de requalificação na função pública porque viola o princípio de protecção de confiança dos trabalhadores do Estado quanto à estabilidade do vínculo laboral, abre-se um problema de quatrocentos e tal milhões de euros que incumbia ao Estado Português poupar. Nós e os nossos bloqueios, obsolescências, mais fadados para a paralisia que para actos de coragem e ruptura. Dir-se-ia que, lavrando um monstruoso incêndio, manda a Constituição que se não apague com agulhetas. Cada qual segure as pilinhas e dome as labaredas como puder. Nesta matéria, as barricadas estão definidas.

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