Autor: aagora (Page 1 of 7)

A falta que um pai faz

 

Um pormenor que me chamou a atenção no caso do duplo atentado mortífero na Noruega: um dos entrevistados foi o pai de Anders Breivik, o terrorista do momento. Ao que parece, o senhor, um diplomata na reforma a viver no Sul de França, separou-se da mãe do autor dos atentados quando ele tinha um ano e não tem contacto com ele há 15. Diz-se agora “absolutamente chocado” e espera que o filho “se suicide”.

 

 Mas já que ele aprova o suicídio, talvez estivesse na altura de comprar cianeto, uma corda resistente ou um par de balas. É que um pai que corta o contacto com um adolescente quando este tem dezassete anos tem no mínimo as suas responsabilidades. Sabe-se que os nórdicos têm uma visão dos laços familiares bem diferente da que temos no Sul da Europa. Se a emancipação precoce é largamente fomentada, também a quebra de relações familiares se tornou regra. Não só se pretende que os jovens se “façam à vida” muito novos, como ao que parece, devem cortar definitivamente com as origens. Um caso na minha família, através de um casamento, demonstrou-me como o afastamento das raízes familiares pode ser perverso e doloroso. É dos tais casos em que os sistemas nórdicos nada têm de “civilizados” ou “superiores”. O corte e o enfraquecimento das relações familiares representa antes decadência, individualismo extremo, e talvez explique em parte a alta taxa de suicídios na região. A referência paterna, o apoio familiar em ocasiões de crise, a inculcação de valores de pais para filhos é vital para qualquer desenvolvimento são. E nenhum pai que se preze corta simplesmente os contactos com um filho de dezassete anos. Para mais, não parece padecer de problemas económicos. Ao que parece, o progenitor “biológico” não pensou nem pensa nisso. Já que os noruegueses estão em reflexão, recuperando do choque, Talvez fosse uma boa ocasião para pensar se não terão falhado no espezinhamento dos seus valores familiares.

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Cem anos de feriado de S. João

Nos cartazes relativos às festas de S. João deste ano colocados pelo município surge uma novidade: os cem anos da festividade oficial. Em bom rigor, as festas joaninas comemoram-se há séculos, com a justaposição da homenagem cristã ao Baptista às festividades pagãs do solstício de Verão. No Porto, as fogueiras tradicionais perdem-se na memória dos tempos. Mas até serem oficializadas, tiveram de esperar muito.

 

 A 1ª República pretendeu, logo no seu início, criar os feriados municipais, acabando ao mesmo tempo com os religiosos, numa tentativa de laicizar e “educar” a sociedade. Assim, os municípios e as suas novas vereações republicanas estabeleceram os que eram mais próximos aos munícipes, ou mais convenientes. No Porto, as autoridades camarárias não chegaram a acordo, pela que a decisão acabou por ser referendada, numa “consulta ao povo do Porto” levada a cabo pelo Jornal de Notícias. Havia várias propostas, além do 24 de Junho, já muito festejado: 1 de Maio, 8 de Dezembro, 9 de Julho (entrada das forças liberais no Porto), e outras que não vêm à memória. Acabou por ganhar, com grande maioria , o S. João, que era assim, em 1911, instituído como o feriado municipal da cidade do Porto.

 

Não deixa de ser irónico que, em plena República laicista e com assomos jacobinos, tenha sido o Santo que baptizou Cristo a nomear um feriado criado por iniciativa de um organismo republicano, mesmo que as festividades fossem sobretudo pagãs. Em todo o caso, é graças a esse referendo municipal de há cem anos que hoje em dia podemos festejar o Baptista e a chegada do Verão, sabendo que no dia seguinte se pode sempre recuperar das mazelas.

 

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Dos isqueiros ao i-phone

No soberbo concerto que os National deram ontem no coliseu, não faltou a já previsível comunhão da banda com o público, com o vocalista Matt Berninger a percorrer as coxias e a ir até ao fundo da sala, convivendo efusivamente com a plateia em delírio, e o final acústico, um clímax sereno. Mas dei-me conta de uma marca dos tempos: os tradicionais isqueiros, que costumavam acompanhar as baladas, desapareceram, substituídos pelos telemóveis e i-phones. Não há concerto hoje que não tenha um testemunho de três minutos. As luzes permanecem, mas sutentadas em baterias e digitalismos, e não mais em combustível. Terríveis tempos tecnológicos, estes.

 

 

 

Apenas ficou a faltar isto:

 

 

 

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E agora, Muammar?

Há uma pessoa para quem o desaparecimento de Osama Bin Laden deve deixar sentimentos ambivalentes: Muammar Kadhafi. Se por um lado vê um adversário feroz (e potencial inspirador de movimentos jihadistas na líbia) liquidado, por outro perde o argumento de que os rebeldes eram “jovens drogados” apoiados por Bin Laden, que pretenderiam estabelecer um “emirado islâmico” na Líbia. Pode é ser mais um pretexto para o seu derrube. Do mal o menos, por agora o coronel sobreviveu ao criador da Al Qaeda.

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A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David. O Mestre explicando aos seus assessores e “boys” chorosos que a cicuta, de tipo PEC, é consequência da crise internacional e que a “direita neoliberal” e a “esquerda radical” é que agravaram a situação, apesar de todas as Apologias e virtudes filosóficas (TGV, Magalhães, “racionalização das estruturas escolares”, etc).

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O mar e as suas razias

Imagens da tempestade da semana passada, com ondas que chegaram aos dez metros e levaram boa parte da duna, fustigando Moledo, a praia mais nortenha do país. Note-se a posição do moinho, num dia, e no outro, já quase na borda da duna. Há vinte anos, tanto a praia 

como a duna eram o triplo do que são hoje. Um exemplo, e nem necessariamente o pior, da erosão do nosso litoral.

 

 

Forografias recolhidas de A Origem das Espécies

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A triste história de Augusta Martinho

A notícia da idosa encontrada morta em casa, após nove anos de silêncio, atordoou o país. Desgraçadamente, nem devia espantar muito. O abandono a que são votados os velhos e a enfastiada e emperrada burocracia a que estamos submetidos, os verdadeiros causadores desta descoberta terrível, levam a estes desfechos aberrantes. Não é a primeira vez que ouço falar de pessoas que morrem sozinhas e só tempos depois são descobertas. Mas nunca imaginei que alguém pudesse ficar tanto tempo ignorada para além da morte. O que choca mesmo é a indiferença e esquecimento total a que a idosa esteve votada, tirando uma vizinha ou uma outra pessoa mais escrupulosa.

 

Nesta nossa sociedade que despreza tudo o que é velho e “do passado” em detrimento do novo e “moderno”, que cultiva a juventude esticada ao máximo e a devoção à saúde eterna, os velhos são um estorvo e não ficam bem entre a mobília. Algumas famílias tendem muitas vezes a esquecê-los, e noutros casos nem restam familiares próximos, tendo então de se entregar à sua sorte. Os poucos voluntários que propositadamente os visitam para aliviar a sua solidão não chegam. Muitos vivem no centro das cidades, em casas decrépitas, ou em subúrbios uniformizados e deprimentes, como a senhora deste caso. São apesar de tudo aqueles que vivem nas aldeias e pequenas vilas que recebem mais atenção dos que os rodeiam. Mas com o decréscimo da natalidade e o aumento da esperança de vida, a situação tende a piorar. No futuro haverá um batalhão de idosos a cuidar. Muitos dos que hoje desprezam os velhos muito provavelmente receberão a dobrar o mesmo tratamento. Só se deseja que daqui a uns anos não invente qualquer forma de “eutanásia involuntária” para impedir o colapso da segurança social que restar.

 

Espero contudo que esta notícia chocante possa servir para alertar para casos semelhantes e para a extrema solidão que acompanha tantos idosos deste país. Quem sabe se a mulher que nem depois de morta teve tratamento condigno possa afinal chamar a atenção pra a indignidade das pessoas mais velhas. E já que (quase) ninguém quis saber dela, ao menos que se recorde que era uma pessoa, e que tinha nome. Chamava-se Augusta Martinho.

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Discursos

Nota de referência na noite eleitoral foram os discursos dos candidatos e líderes presidenciais. Entre a falta de respeito de Defensor Moura, a “mesmice” de Francisco Lopes e Jerónimo de Sousa (deve haver um modelo escrito que só é preciso decorar), a esperança hesitante de Fernando Nobre, e o ímpeto do costume de José Manuel coelho, sobraram discursos de variados tipos. Louçã, com aspecto lívido, teve das piores saídas da noite, como referências à “direita a afiar as facas”, mas conhecendo o seu historial de acusações e recriminações, nem espanta nada. Tivemos um Manuel Alegre derrotado mas digno, e até com ar mais aliviado, um Portas calculista e um pouco ao ataque, mas sem excessos. Sócrates disse umas vagas palavras de consolação que o seu ar descontraído traíam. Não convenceu ninguém a não ser os incautos, e mesmo esses…Passos Coelho teve o melhor discurso da noite, sensato, frugal, polido, desmentindo as suspeitas que Louçã atirara. Pode não ser um grande estadista, mas é minimamente decente.

 

O pior ficou reservado para o fim. Cavaco Silva, aplaudido pelas jotas e pelos apoiantes que a máquina da sua candidatura deslocara para o CCB, o monumento símbolo do cavaquismo, resolveu enaltecer certas áreas a que ele próprio jamais deu a atenção devida, como a agricultura, e lançar violentos ataques rancorosos aos que lhe “lançaram infâmias”, sem saudar os adversários, antes achincalhando-os sem nunca referir os seus nomes (viu-se no repetido “foram cinco contra um”, o que além de não ser verdade revela que, com esta curiosa expressão, Cavaco tem uma noção do cargo ainda mais solitária e unipessoal do que se julgava). O reeleito, que se calou durante grande parte da campanha, como é seu hábito – como se um candidato não devesse ser o mais transparente possível – aproveitou o momento em que já nada lhe podia acontecer, e em que os ex-adversários já se tinham pronunciado, para os atacar da pior forma, alçando-se em grande referência moral, lançando ainda suspeitas de que havia uma campanha da comunicação social contra ele, fonte de “calúnias”. Nunca um seu antecessor chegara a tais extremos, nem Sócrates, com a sua “campanha negra” (recorde-se que em 1996, quando ganhou, Jorge Sampaio, entre as comemorações, ordenou que fosse retirado um gigantone que ridicularizava Cavaco Silva). E no fim não houve sequer possibilidade dos jornalistas lhe fazerem perguntas. O pior do cavaquismo (arrogância, covardia, falta de transparência, até o novo-riquismo da pompa) ficou exposto ali.

 

 

 

Mas ao fazer semelhantes ataques, Cavaco mostrou, até explicitamente, que não era presidente de todos os portugueses, mas apenas de uma facção. O embuste do cargo de presidente da república como líder uno de um país e de um povo caiu assim, definitivamente, por terra. Já havia indícios, mas esta é a prova definitiva, magnificamente servida por Cavaco. Um chefe partidário, que é reconhecido pelos seus eleitores e odiado pelos adversários: eis a essência do cargo. A falta de confiança em tal figura cresceu ainda mais com a abstenção e os votos nulos e brancos, de tal forma que há até quem proponha que seja eleito no Parlamento. Seria o total descrédito e o golpe final na 3ª república.

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Presidenciais

Cavaco ganhou. Ficou abaixo da abstenção e é o candidato reeleito com menos votos de sempre, mas ganhou. Apesar de Alegre ser apoiado por vários partidos, e das candidaturas independentes, que granjearam um boa quota de popularidade. Mas no seu discurso de vitória revelou revanchismo (neste aspecto teve a companhia de Louçã) e falta de sentido de vitória, e, para cúmulo, não permitiu que os jornalistas fizessem perguntas. Mostrou os mesmos silêncios e as questões sem resposta de que já dera mostras na campanha. Mas isso não admira. Já há muito que Cavaco evita as perguntas quando não está para isso, usando os meios que tem mais à mão.

 

 

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