Narciso Cunha Rodrigues, antigo Procurador-Geral da República, na Grande Entrevista da RTP, a 28 de Fevereiro, explicou de forma cristalina que a demissão de António Costa não resultou de parágrafo algum, pois não se pode deduzir do comunicado do Ministério Público a obrigação ou sequer a sugestão de que o Primeiro-Ministro se devesse demitir.
Nada obrigou António Costa a demitir-se a não ser a sua própria conclusão de que, após um ano marcado por 13 demissões do seu governo, e tendo sido encontrados 75.800 euros em dinheiro no gabinete do seu chefe de gabinete, já não tinha condições políticas (políticas, sublinhe-se) para permanecer no cargo.
Passado cerca de um mês, o próprio António Costa, a máquina de propaganda do PS e boa parte dos comentadores na comunicação social começaram a ecoar a narrativa de que a demissão de Costa teria resultado do tal parágrafo. Em grande parte, são os mesmos que andam há anos numa sanha persecutória contra o Ministério Público, de que o infeliz manifesto dos 50 é apenas o mais recente episódio.
Hoje, nas páginas do Público, um ex-ministro de Costa, Pedro Adão e Silva, recorrendo ao teste do pato, volta à mesma narrativa e aventa até a possibilidade de se ter tratado de um golpe de estado. No mínimo é caricato, e no máximo um perigoso disparate, mas, sem dúvida, original. Seria interessante aplicar o mesmo teste a muitos que, pese embora até se possam afirmar defensores da democracia liberal, continuam a procurar erodir pilares desta, designadamente a separação de poderes e a autonomia do poder judicial. Se se parecem com autoritários e agem como autoritários, talvez sejam mesmo autoritários.
Dão-lhe daqui e dacolá, mas nunca tocam no essencial: os medíocres invocam as virtudes da tolerância para acederem ao poder; aí chegados tornam-se intolerantes para quem lhes denuncia a mediocridade.
Mas bem sabem a que valor devem o seu estatuto e que tudo devem fazer para que domine a mediocridade que lhes dá o ser.
Falam de leis e regulamentos, não de valores a serem exigidos a quem se aproxima de posições de poder, a começar por magistrados e procuradores.
GRANDE SENHORA
Só o facto de ser bombardeada por altas figuras responsáveis, fósseis e rebentos, obreiros do estado a que isto chegou, e a maneira límpida da sua exemplar prestação, faz com que venha a sair de cabeça erguida pela porta do tamanho da sua grandeza, interdita a circulação de pigmeus que só são grandes olhando para a sua sombra quando o sol vai rasteiro.