É preciso mudar alguma coisa para que fique tudo como está

Anda por aí uma grande agitação em torno do fait divers António Costa Silva. O governo que não conseguiu reorientar a economia quando devia e tinha poderes acrescidos para o fazer pretende agora fazê-lo por via de um plano de recuperação económica com moldes ainda por conhecer. Nada contra, mas a nossa limitada capacidade de planeamento, a memória do que por cá foram as últimas décadas em matéria de investimento público e afectação de fundos provenientes de Bruxelas para investimentos públicos e privados e ainda o que se conhece do plano da Comissão Europeia – por ora apenas uma proposta – deveriam acalmar os espíritos mais agitados. Porque continuamos a viver numa economia mista marcada por dois processos paralelos assinalados por Norberto Bobbio, a privatização do público e a publicização do privado, podem ficar descansados todos aqueles que se especializaram na indústria extractiva de recursos financeiros para projectos duvidosos e frequentemente sem quaisquer efeitos para além do very typical encher os bolsos de alguns à custa do bem comum. Das consultoras às associações empresariais especializadas em candidaturas a fundos europeus, dos agricultores à espera de comprar um Land Rover aos empresários que anseiam pelo mais recente Mercedes, BMW ou Porsche – sejam eles pequenos ou grandes empresários dos sectores mais tradicionais ou de uma startup tecnológica qualquer -, dos empresários que sem o Estado dificilmente sobreviveriam aos políticos cujo sonho é passar por uma revolving door para uma sinecura num qualquer conselho de administração, vão todos ficar mesmo bem. O mesmo é dizer que o milésimo plano para desenvolver ou reformar o país não vai afectar a nossa cultura política e empresarial e dificilmente terá impactos assinaláveis no nosso desenvolvimento económico. Não é esta, sequer, uma preocupação do Primeiro-Ministro. Como escreveu Lampedusa, é preciso mudar alguma coisa para que fique tudo como está.

2 Comments

  1. Anónimo

    Pertinente!

  2. Francisco Almeida

    António Costa Silva, um esquerdista – ligações ao MPLA antes e depois da independência – que fez toda a sua carreira profissional no sector dos hidrocarbonetos e que, não desmerecendo, promete requalificar o sistema rodoviário quase ignorando e só dizendo disparates sobre o sistema ferroviário:
    https://eco.sapo.pt/opiniao/um-plano-no-guardanapo/ (https://eco.sapo.pt/opiniao/um-plano-no-guardanapo/)
    Já tínhamos a esquerda caviar e a esquerda corrupta, esta última bem implantada na construção civil e nos sistemas financeiro e das energias eléctricas; faltava-nos a esquerda petrolífera.

Deixe um comentário

© 2026 Estado Sentido

Theme by Anders NorenUp ↑