Mês: Março 2018 (Page 1 of 2)

Das ondas de indignação nas redes sociais

 

 

Byung Chul-Han, No Enxame:

As ondas de indignação são extremamente eficazes na mobilização e aglutinação da atenção. Mas, devido ao seu carácter fluido e à sua volatilidade, não são adequadas para a configuração do discurso público, do espaço público. São, para esse efeito, demasiado incontroláveis, incalculáveis, instáveis, efémeras e amorfas. Crescem subitamente e desfazem-se com a mesma rapidez. O que as assemelha às smart mobs (“multidões inteligentes”). Carecem da estabilidade, da constância e da continuidade indispensáveis ao discurso público. Não é possível integrá-las num contexto discursivo estável. As ondas de indignação surgem, muitas vezes, perante acontecimentos cuja importância social é bastante reduzida.

A sociedade da indignação é uma sociedade do escândalo. É desprovida de firmeza, de contenção. A rebeldia, a histeria e a obstinação peculiares das ondas de indignação não permitem qualquer comunicação discreta e objectiva, qualquer diálogo, qualquer debate. Ora, a contenção é constitutiva da esfera pública. E a formação do público requer a distância. Além disso, as ondas de indignação só em escassa medida são identificáveis com a comunidade. Por isso, não constroem um nós estável que exprima uma estrutura do cuidado do social no seu conjunto. E, do mesmo modo, a preocupação dos indignados pouco afecta a sociedade no seu conjunto, porque exprime, em grande medida, um cuidado de si. Daí que, de novo, rapidamente se dissipe.

A primeira palavra da Ilíada é menin – ou seja, a cólera. “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida”, lemos no início da primeira narrativa da cultura ocidental. Aqui, a cólera pode cantar-se porque suporta, estrutura, anima e vitaliza. É o meio heróico por excelência da acção. A Ilíada é um canto da cólera. Trata-se de uma ira narrativa, épica, porque produz certas acções. Distingue-se por isso da fúria que surge como efeito das ondas de indignação. A indignação digital não pode cantar-se. Não é capaz nem de acção nem de narração. É, antes, um estado afectivo que não desenvolve qualquer força potente de acção. A distracção generalizada, característica da sociedade actual, não permite a emergência da energia épica da ira. A cólera, na plenitude do seu sentido, é mais do que um estado afectivo. É a capacidade de interromper um estado de coisas existente e de fazer começar um novo estado de coisas. A actual multidão indignada é extremamente fugaz e dispersa. Falta-lhe por completo a massa, a gravidade, necessária à acção. Não engendra qualquer futuro.

 

(também publicado aqui.)

Portugal e os irmãos Kamov

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Portugal tem alguma experiência no jogo-duplo. Durante a Segunda Grande Guerra sabemos que no tabuleiro geopolítico a nação teve de conviver com o regime Nazi sem descurar a sua apetência Aliada. Com alguns fez o negócio do volfrâmio, e com outros acertou rendas para bases militares. Se Portugal fosse a Áustria entenderia perfeitamente a sua neutralidade para com os russos. Não expulsava quem quer que fosse. Mas Portugal não deve grande coisa à Rússia. Em 1955 foi a União Soviética que ofereceu o país à Áustria, desde que este mantivesse a sua neutralidade quando e se as coisas dessem para o torto – chegou esse momento. Basta visitar Viena para apontar o dedo a uma quantidade assinalável de bancos russos, muitos deles “boutique”, feitos à escala de oligarcas. Mas há mais, para aqueles que se deixam encantar por lirismos e distrair por valsas de Mozart – a Áustria não é um estado-membro da NATO ao invês de Portugal que é um dos seus fundadores desde 1949. Por outro lado, não vejo grandes negócios em curso com os russos – esqueçam os Kamov. O problema essencial é outro. Jerónimo de Sousa e Catarina Martins são pacifistas. Não acreditam na exclusão. Mas por outro lado odeiam a NATO. Sim, andam confusos. O ministério dos negócios estrangeiros parece estar agarrado, encostado à parede – assemelha-se a uma menina medrosa. Quando esgotarem os embaixadores para a troca, é bem provável que Portugal fique com uma mão cheia de nada. Na vida, tal como nos negócios estrangeiros, devemos assumir posições, dar a cara e respeitar os princípios orientadores de democracias e alianças. Portugal não faz nem uma coisa nem outra. Terá sido envenenado? Ou será que basta uma repreensão escrita e siga para bingo?

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As Rosas do Fernando

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Já havia tido a ocasião de testemunhar a ortodoxia preconceituosa e irascível de Fernando Rosas há um bom par de anos na apresentação de uma obra escrita a quatro mãos, por si e pelo Prof. Mendo Castro Henriques (sim, despromovi o Rosas – não é professor, é sargento-môr) – “1910 a duas vozes” – na Livraria Buchholz em 2010 (estou ali de blazer claro, e já careca…). Sem o mínimo de fair-play intelectual e sem denotar vestígios de democraticidade e tolerância, Fernando Rosas arrasou a historiografia monárquica apresentada por Mendo Castro Henriques, insultando o co-autor do livro e humilhando o público vindo em paz. Penso que as palavras exactas foram: “recuso debater o que quer que seja para além da República”. Portanto, o que agora sucede no que toca à homossexualidade de Adolfo Mesquita Nunes e as palavras proferidas, assenta que nem luvas ao carácter de alguém que não se inibe na demonstração do seu nível ético. Resta saber se a Comissão para a Igualdade de Género actuará juridicamente à luz de afirmações atentatórias à liberdade de orientação sexual, aliás consagrada na Constituição da República Portuguesa. Mas nem precisamos de ir por aí. Trata-se de algo diverso. Rosas já não tem força na verga intelectual para se digladiar com o avantajado Adolfo Mesquita Nunes. O Fernando Rosas tem-nos pendurados. E não falo de suspensórios.

Sócrates e os estudantes de Berquelei

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José Sócrates regressa a Coimbra por obra e graça de uma geração de estudantes eticamente falida. Não existe outro modo de descrever aqueles que avalizam a presença de um arguido que tanto dano causou a Portugal. Intelectualmente, o ex-primeiro ministro nada tem a oferecer. Subiu àquele posto de comando nacional pelas portas e travessas ardilosas da pequena política do maior partido de Portugal. Não existe tese que o valha. Não existe Paris que o sirva. Não existe tortura que possa servir de alibi. Os estudantes, organizadores do certame, espelham bem a ausência de valores e princípios. Resta saber se trouxeram a trouxa imoral de casa ou são já um produto da academia. Confundem liberdade de expressão, com promiscuidade e pressão. Se os académicos de Coimbra são a amostra de Portugal do presente e do futuro, estamos completamente arrumados.

 

(nesta imagem, estes encapotados estendem a carpete a outro sagrado político de nome Lula)

António Costa empossou os Media

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António Costa empossou os Media. Os meios de comunicação social são agora membros oficiais do governo. E falharam – não preveniram a prevenção – nem avisaram que os incêndios estavam ao virar da esquina. Sérgio Figueiredo da TVI aproveitou a deixa para escrever mais umas frases do guião da ficção nacional. Aquela estação, segundo o próprio, não se retrata nas palavras do primeiro-ministro. A TVI fez todas as campanhas de redenção que pôde – como se não pertencesse à grande casa ibérica socialista dos media. Mas já que estamos numa de verdade e consequência, e depois de avistar o Mário Nogueira, o Arménio Carlos e a coqueluxo Ana Avoila, diria que estamos em franca época de greves. Ou seja, não há nada a reportar, muito menos a prevenir. A função pública está na rua em protesto porque está intensamente satisfeita com as promessas governativas do seu governo de Esquerda. Da minha parte, e no que toca a bloguismos e silogismos, avisarei a tempo e horas a população das trapalhices e falcatruas do governo. Essas são fáceis de estimar. Se eu fosse medium ou vidente, propunha uma greve dos Media, para ver como o governo deixaria de funcionar.

Do pato-bravismo

O novo-rico é o primeiro rico da família e, ao contrário dos velhos-ricos, sabe bem que foi ele o primeiro não-pobre da sua casa. Aprecia que o tratem por doutor ou por engenheiro, mesmo quando não é doutor nem engenheiro. O novo-rico gosta de carros, relógios e sapatos, geralmente mais feios que bonitos e, quando não gosta, é pelo menos apreciador de mandar toda a gente à merda porque o dinheiro permite mandar à merda como nenhuma outra coisa no mundo. Acham os novos-ricos, como os pequenos-novos-ricos (um género de novo-rico que, já não sendo pobre, não deixa de viver uns degraus acima dos velhos-pobres lá de casa), que na vida tudo se compra e que o que conta é ser mais rico para comprar mais coisas. Portugal investiu muito no novo-riquismo, mesmo contra algumas vontades mais adeptas da velha-pobreza. A direita dos patos bravos viu no novo-riquismo o sucesso do País. A esquerda operária não os suporta, apesar de desejar todos os dias vir a pertencer ao clube dos novos-ricos – sendo que, à esquerda, mesmo um novo-rico nunca é um novo-rico, é sempre um intelectual com massa que pede redistribuição só com o dinheiro dos outros patos-bravos. A direita queque nunca suportou os novos-ricos, dos pequenos e médios intelectuais, da ostentação do material, da pouca cultura e da falta de mundo, preferindo os velhos-pobres de que se recorda mais ou menos pela hora das refeições. A esquerda queque detesta, como a sua irmã queque da direita, o novo-riquismo, que lhe rouba protagonismo, mas abomina também o pequeno-novo-riquismo, os tais homens que, não tendo alcançado o nível financeiro de um pato-bravo, sempre conseguiram comprar, com empréstimo a quarenta anos, um T3 nos subúrbios. Na verdade, nunca ninguém quis saber da classe média, na sua generalidade pequena-nova-rica. Uns optaram por olhar para cima e acolher os patos-bravos. Outros olharam mais para cima, e ligeiramente para o lado, recusando a bandalheira que é o novo-riquismo. Outros olharam para baixo e viram na ascensão novo-riquista uma parolada, glorificando quem nada tinha e rezando para que continuasse a nada ter. Este tomatal de novos-ricos durou mais ou menos vinte anos e acabou quando acabou o dinheiro, para agora voltar com ares mais cosmopolitas e mais gourmet. Ao longo destes anos todos, parece-me facilmente constatável que nunca ninguém quis saber da classe média para nada. Ela, a classe média, se se estabilizou, se ganhou mundo e cultura, se estudou e comprou casa, foi porque se esforçou e porque não se deslumbrou, foi porque teve a coragem de ir mais longe e o medo conservador de não ir tão longe assim. A classe média fez por si porque os novos-ricos fizeram mais ainda por eles próprios. Mérito têm todos, pois sim. Mas era fácil de perceber que um País não constrói alicerces nas areias movediças do pato-bravismo. Perceber a crise é também perceber isto.

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Quantidade sobre a qualidade

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Rutger Bregman, Utopia para Realistas:

O optimismo e o pessimismo tornaram-se sinónimos de confiança do consumidor, ou de falta dela. As ideias radicais de um mundo diferente tornaram-se quase literalmente impensáveis. As expectativas do que nós, como sociedade, podemos alcançar sofreram uma erosão drástica, deixando-nos com a verdade nua e crua: sem utopia, só resta a tecnocracia. A política diluiu-se na gestão de problemas. Os eleitores oscilam para um lado e para o outro não porque os partidos sejam muito diferentes entre si, mas porque mal se conseguem distinguir; o que separa hoje a esquerda da direita é um ou dois pontos percentuais no imposto sobre o rendimento.

Vemo-lo no jornalismo, que retrata a política como um jogo em que se apostam não ideais mas carreiras. Vemo-lo na academia, onde andam todos demasiado ocupados a escrever para ler, demasiado ocupados a publicar em vez de debater. De facto, a universidade do século XXI, assim como os hospitais, as escolas e as estações televisivas, assemelha-se antes de mais a uma fábrica. O que conta é cumprir objectivos. Seja o crescimento da economia, as audiências, as publicações: lenta mas inexoravelmente, a quantidade está a substituir a qualidade.

 

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Do wishful thinking de Assunção Cristas

Fernando Esteves, “O dia em que Assunção Cristas cometeu suicídio”: 

Vamos a números? O melhor resultado da história do CDS ocorreu nas eleições de 1976, em que teve 16%, correspondentes a 876 mil votos. Em 2011, depois de muitos anos a arrastar-se nas catacumbas das cabines de voto, o partido obteve, sob a liderança de Paulo Portas, outro óptimo resultado: 11,7%, correspondentes a 654 mil votos. Agora o PSD que Assunção quer liquidar: Em 2011, quando Portas obteve um excelente resultado, Passos Coelho obteve 38,6%, correspondentes a 2,1 milhões de votos. Bem mais do que o dobro. E em 2005, quando Santana Lopes concorreu contra José Sócrates e foi vergastado por uma copiosa derrota (uma das piores de sempre), conseguiu 1,6 milhões de votos. Ou seja: o melhor resultado do CDS, que foi conseguido em circunstâncias políticas irrepetíveis, é cerca de metade de um dos piores do PSD.

Ao confundir os seus sonhos com a realidade, a líder do CDS acrescentou à venda que aparentemente já tinha nos olhos (e que ficou bem visível, passe a expressão, na entrevista que concedeu ao Expresso deste fim-de-semana) uma corda em redor do pescoço, porque tornou o CDS – e a sua liderança – refém de um resultado que obviamente não alcançará. É certo que num partido em que a maioria dos militantes está sobretudo confortável a olhar para trás não deixa de ser interessante observar uma líder a tentar fazer o exercício inverso, mas aqui chegados talvez não fosse má ideia que alguém informasse Assunção Cristas de que, nas circunstâncias actuais, olhar para além daquilo que os seus olhos conseguem alcançar não é apenas um erro – é um acto politicamente suicida, manifestamente capaz de lhe arruinar uma carreira que até nem lhe estava a correr mal.

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