
José Sócrates é o lider supremo da igreja universal dos factos irrefutáveis. No seu vídeo promocional, com direito a desconto para os primeiros subscritores, só falta aparecer em rodapé o número de telefone para que os espectadores possam reclamar a sua torradeira. Este vendedor de banha da cobra é uma lástima. Nunca o contrataria para trabalhar numa empresa minha. Não esboça um sorriso e a sua linguagem corporal revela grande angústia existencial. Não percebemos muito bem o que anda a vender. Refere factos, mas não menciona os termos da garantia em caso de avaria da sua máquina da verdade. O livro, deitado na estante, The Lesser Evil de Michael Ignatieff, é uma jogada esperta, mas não me engana. Não existe nada de menoridade no desenhador de Castelo-Branco. Não sei quem foi o produtor do filme nem o realizador, ou se foi o Galamba a avisar que o cerco está a apertar. Gravata assim sem blazer já não se usa. É muito Gordon Gekko e pouco Brioni. Amanhã o grupo ético e mediático de Sócrates inaugurará uma conta no Instagrão e outra no Snapchatos. E há mais. Aquela prateleira lá ao fundo parece estar a ceder. A pressão é muita e qualquer dia estala o verniz e a madeira. Eu tratava do assunto em vez de fazer figura de urso à frente de miúdos e graúdos.
Um problema incontornável que o livro de Ignatieff provavelmente – pois não o li – apresentará, será uma certa tendência para tecer paralelismos com outras organizações terroristas, fazendo-nos crer que tanto a Al Qaeda como o Estado Islâmico são tão perigosos como o IRA, a ETA, as Brigadas Vermelhas, o Baader-Meinhof e sei lá eu quem mais. Não são. Encontram-se num patamar a que não estamos habituados, querendo pura e simplesmente não só liquidar a nossa civilização com tudo aquilo que representa, como proceder a limpezas étnicas extensivas à medida de continentes inteiros. Não valerá apenas os iluminados tentarem convencer-nos do contrário, não pode existir a menor dúvida, tanto a Al Qaeda e o E.I. declaram-no sem peias. Ninguém no seu perfeito juízo me venha agora apresentar o terrorismo anti-czarista ou aqueles acima apontados como produtos semelhantes. Este que enfrentamos é pior, muitíssimo pior, pois opta por acções por atacado, não respeita fronteiras, dissolve Estados e nem sequer possui uma base moral, por mais ínfima que seja. O pior de tudo? Arruinou o pouco que restava da respeitabilidade do islão, agora uma mera bandeira política aberta a todo o tipo de extremismos, por mais odiosos que sejam. De repente quisemos “saber mais acerca da coisa” e isso ser-lhes-á extraordinariamente prejudicial a médio prazo. A ajuda nefasto advém precisamente das novas tecnologias da informação, hoje abertas a quem as procure. Nunca o livrinho evrde foi tão escrutinado como agora e com ele, os textos anexos.
Não, radicalmente não, obrigado.