Há dias, parei em Tomar, cidade adoptiva do ramo matrilinear da minha família, para visitar a campa onde jazem meus avós e seu filho, meu tio, a nós subtraído pela mão indemne de um Estado que já nesse tempo de Otelos Alegres pouco ou nada honrava quem por ele se batera. 

 

Quis o destino que nessa mesma noite, cansado da estrada e desejoso da paz caseira, me tivesse sentado a ver o episódio final de Sons of Anarchy, série que muito me cativou pelos temas, personagens e referências secantes em diâmetro completo à esfera da minha própria vida. 

 

Ali, a figura protagonista, Jackson Teller, vai à tumba dos seus antes de cavalgar o asfalto rumo à derradeira prestação de contas com a machina mundi. A sequência foi filmada aqui:

 

 

Note-se como há espaço para a comunhão possível com a Natureza, culpada de termos nascido, vivido e morrido. Semelhante coisa vira eu, numa das passagens sempre fugazes demais por Tokyo, a exemplo no cemitério de Aoyama (imagem sacada da Google):

 

 

Compare-se agora com a distribuição que o Estado português, espelho máximo do cidadão, concede ao utente sepulto – e na imagem posterior à próxima, ao utente insepulto que já está húmus sem sabê-lo:

 

 

Isto parece-vos a mesma coisa? A mim nem por isso. É de um povo, ou como os novos gurus dizem, de uma tribo sem amor próprio deixar-se enterrar, visitar e recordar nestes preparos. Mas dizia eu que nem é preciso esperar para morrer:

 

É com esta proximidade, o nacional-porreirismo de quem estaciona em segunda fila sentindo-se por defeito amnistiado uma vez que permite ao seu vizinho, caso este queira, estacionar em segunda fila já que o vizinho de ambos também o fez mas não sem ter-lhes dado, e à comunidade, a compensação justa ao facultar o contacto de um primo germano com alavancagem pessoal e institucional na companhia das águas, que o português se permite não ter para onde verter uma lágrima sem dar contas a dez patrícios forçosamente irmanados com ele; e é assim que morre, e inumado vai, na mesma resignação selvagem à diluição mais torpe do ego, da privacidade e da diferença.

 

Como haveria uma gente assim de singrar sem timoneiros, luminárias, pastores e xamãs? Quanto pesa uma granada? E que impacto focal teve a morte de cem pessoas, levadas ao sepulcro na carrinha do peixeiro, coisa também normal uma vez que falamos de índios a quem foi inculcada a passividade a golpes de cravo, na sibilina popularidade dos labregos que estão?

 

Não sabemos. Para sabermos, teríamos que poder ir a um cemitério e religar o presente à memória dos nossos velhos, coisa que pela portugalidade ancorada na proximidade – forçada, a bem comum, pelo pendor constitucional para uma sociedade socialista – a todos os que dela se nutrem, é impossível até ao dia em que haja mais lápides do que os remadores da galé consigam suportar. 

 

Depois saberemos.