Mês: Janeiro 2017 (Page 1 of 3)

Trump, Conway…not my way

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Donald Trump nunca poderia ser um político português. Não seria agraciado nem tolerado. O conceito de estado de graça que assiste aos recém-chegados ao poder foi pura e simplesmente obliterado. A inversão é plena – entrou logo ao ataque. E começa pelos Estados Unidos da América. Assistimos, quer sejamos norte-americanos ou não, à concretização das piores das nossas expectativas. A censura oficial já é um facto consumado, instalado. Mas nada disto é novo. É pela máquina de propaganda e desinformação que começam. A perseguição vivida em regimes nacional-socialitas parece ser o template em que se baseiam. A senhora Kellyanne Conway representa o pior da América profunda. Mas não está só. Contaram-me há dias que os mais reaccionários dos EUA são os jovens que polvilham os campus das universidades, e não os desempregados. E isto é particularmente preocupante porque é esta falange que irá emprestar a sua energia e os seus “conceitos” ao futuro do país. Quero acreditar, porque é o que nos resta, que seremos testemunhas de uma revolução civil americana. A única virtude que consigo extrair do ambiente instalado, num país com profundas fracturas, é a emergência de diversas frentes de indignados. Existe uma tradição de protesto nos EUA. Pensem nas manifestações contra a guerra do Vietname, contra a segregação racial, contra a globalização e os efeitos nefastos da mesma sobre o ambiente. E existem mártires. Lembrem-se de Kennedy. Pensem em Martin Luther King. O que Trump vai provocar é a reacção desmedida que transcende os orgãos de soberania que pouco valem na sua cabeça e que ele julga que domina totalmente. O despedimento da Procuradora-Geral não vai chegar para demover aqueles que entendem o processo americano, a mescla e a promessa firmada no rompimento em relação aos senhorios coloniais e a esperança que resulta do mesmo. Tenho fé, que por linhas tortas, mas lamentavelmente violentas, a América dos nossos sonhos bons possa vingar o seu nome – a parte boa do seu nome. Por causa de Trump sou mais americano do que nunca, mas não pelas razões que ele invoca. Vim de longe. Ainda não cheguei.

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Condenados à esperança

Em Salvador, na Bahía, um taxista perguntava-me coisas sobre Portugal, o “País original”. Tinha visto um documentário na televisão brasileira sobre a “terra dos portuga” e apanhou-me ali a jeito, mesmo ao lado dele, de calção, alpercatas e t-shirt, para tirar umas coisas a limpo. Queria saber, porque não tinha percebido, qual era o nosso motor económico. Queria mesmo. Engasguei-me. Tentei mudar o rumo da conversa e fazer com que o ponto da vergonha fosse o Brasil corrupto e não o Portugal para o qual me falta sempre um adjectivo. O baiano não se deixou intimidar. Queixou-se do PT, das trapalhadas de Lula e Dilma, da desilusão que Aécio tinha sido para ele, que o apoiou, do golpe, da corrupção por todo o lado. Assumiu a sua vergonha e voltou à carga. Em que se sustenta afinal a economia portuguesa? Enchi-me de coragem e disse-lhe que o turismo estava em expansão. Que as exportações não sei quê. Que os têxteis isto, o horto-frutícola aquilo, mas que ainda é deficitário. Que a cortiça e o vinho e tal, tudo a andar. Depois apercebi-me do ridículo que estava a ser e fui directo. Sabe o que é Portugal, senhor? É igual ao Brasil, mas mais pequeno e com menos crime. Rimos. “Eles falam que somos irmãos, mas o portuga é que é o pai, viu? O filho não podia dar certo.” Depois perguntou-me se somos mesmo dez milhões. Disse-lhe que sim, mais coisa menos coisa. E o baiano riu alto. Tinha visto na televisão que somos sempre dez milhões e gritou-me, às gargalhadas, se nós não temos filhos. Engasguei-me outra vez. E balbuciei-lhe qualquer coisa como “nós tínhamos mais filhos antes, já fomos menos de dez milhões”. E o baiano retorquiu: todo o europeu fala que ter filho sai caro, mas todos na Europa tinham mais filhos quando eram mais pobres.” Saímos do Pelourinho. Na via rápida apanhamos fila. O taxista, ainda convencido da superioridade civilizacional portuguesa, afirmou, cheio de certezas, que nós não tínhamos trânsito. E eu respondi-lhe como quem anuncia o trânsito na rádio: trânsito demorado no Eixo Norte-Sul, no IC19, na A5, no túnel do Marquês, na saída para as Amoreiras, na curva do Palácio, no IC20, na A2, na Ponte Vasco da Gama, no Nó de Francos, na Ponte da Arrábida, na A4, na Via de Cintura Interna. O taxista ria-se. E, para desanuviar, lembrou-se de um bolinho que tinha visto no tal documentário. Uma coisa assim redondinha, meio amarela, meio queimada. Um pastel de nata. É isso, pastel de nata. Ninguém diria que aquilo é um pastel. Tem nata? Tem nata. Dizem que é uma especialidade. É, é. Há quem coma com canela, mas eu prefiro sem nada. E a massa é folhada, tem que estar bem crocante. Estaladiça, sabe? E o recheio não pode estar demasiado duro, não pode ser muito cozido, tem de escorrer para os dedos. Isso parece delicioso. O baiano estava louco. Mas nós temos mais. Pastéis de Tentúgal, pudim de Abade de Priscos, travesseiros de Sintra, queijadas, tigeladas, jesuítas, setubalenses. E bolos? E pratos? Portugal é rei na cozinha, baiano do Diabo, queres que te cite só os melhores pratos tradicionais? Não sei se tenho tempo para isso. E o taxista, rindo, quis explicar definitivamente por que razão os portugueses vivem melhor que os brasileiros: quando há trânsito, os portugueses não se zangam porque chegam a casa, comem um desses docinhos redondinhos, meio amarelos, e tudo passa. E nessa altura eu senti que o Brasil é o país irmão que nós merecemos. Vem tudo, como sempre, numa frase curtinha do Millôr Fernandes: o Brasil está condenado à esperança. Portugal também.

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Sobre as ideias libertárias a respeito da livre discussão e do uso da força

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Russell Kirk, “Libertarians: the Chirping Sectaries“:

The ruinous failing of the ideologues who call themselves libertarians is their fanatic attachment to a simple solitary principle – that is, to the notion of personal freedom as the whole end of the civil social order, and indeed of human existence.

The libertarians are oldfangled folk, in the sense that they live by certain abstractions of the nineteenth century. They carry to absurdity the doctrines of John Stuart Mill (before Mill’s wife converted him to socialism, that is).

 

(…)

 

In every principle premise of his argument, Stephen declared, Mill suffered from an inadequate understanding of human nature and history. All the great movements of humankind, Stephen said, have been achieved by force, not by free discussion; and if we leave force out of our calculations, very soon we will be subject to the intolerant wills of men who know no scruples about employing force against us. (So, one may remark, the twentieth century libertarians would have us stand defenseless before the Soviet Russians.) It is consummate folly to tolerate every variety of opinion, on every topic, out of devotion to an abstract “liberty”; for opinion soon finds its expression in action, and the fanatics whom we tolerated will not tolerate us when they have power.

 

The fierce current of events, in our century, has supplied the proof for Stephen’s case. Was the world improved by free discussion of the Nazis’ thesis that Jews ought to be treated as less than human? Just this subject was presented to the population of one of the most advanced and most thoroughly schooled nations of the modern world; and then the crew of adventurers who had contrived to win the argument proceeded to act after the fashion with which we now are dreadfully familiar. We have come to understand, to our cost, what Burke meant by a “licentious toleration.” An incessant zeal for repression is not the answer to the complex difficulties of liberty and order, either.

 

What Stephen was saying, however, and what we recognize now, is that liberty cannot be maintained or extended by an abstract appeal to free discussion, sweet reasonableness, and solitary simple principle.

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Jornal do Incrível

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1.

Era previsível, sendo o Estado português uma entidade lenta, pesadona, desleixada e de uma larvar inépcia. Deixaram e ainda deixam passar a oportunidade aqui avisada há anos e os portugueses que são vítima de perseguições, roubos, agressões e assassinatos na Venezuela, escolhem Espanha para reconstruir as suas vidas. Não chegam a Madrid com intuitos de auferir fundos, subsídios ou esmolas, mas vêm com vontade de inovar e criar novos postos de trabalho que sobretudo beneficiarão os locais. São aos milhares e chegam de forma discreta, ordeira e com passagens pagas pelo próprio bolso. 

O que falhou então, para que os consulados portugueses naquele país sul-americano continuem tal como dantes, como se nada tivesse acontecido? O que falhou para que a oportuna TAP subitamente tivesse elevado os preços Caracas-Lisboa a alturas estratosféricas? Será inconsciência, incompetência, passa-culpas, desinteresse ou haverá algo mais para além disto? As más-línguas até poderão inventar um dia destes que se trata de temor de alteração do mapa eleitoral. Vendo bem os factos como se apresentam e atendendo ao que até estes dias se tem confirmado, até será uma hipótese a considerar, pois quem de lá vem, à Europa chega devidamente vacinado.

2.
Qual é o primeiro dever de qualquer dirigente? Defender os seus concidadãos, o seu país.
Admiram-se? Se sim, porquê? Não viram os videos – este que aqui fica foi criteriosamente escolhido pela moderação – no youtube, não viram durante meses a fio os telejornais relatando atrocidades que subitamente sumiram devido à censura? Acreditam verdadeiramente que tudo aquilo não passa de obra de uns tantos marginais e que “de nenhum modo corresponde à vontade da maioria”? Maioria silenciosa? Sim, alguém consegue ouvi-los? 
A moratória americana quanto a uns, significa a abertura a outros que até agora tinham a vida dificultada ao máximo pela anterior administração. Mais do que qualquer outro grupo, precisam de urgente protecção. O recentemente empossado disse-o sem rebuços, como é do seu timbre. Todos entenderam. Desagrada-lhes? Possivelmente. Têm uma solução ocidental e muito em voga nas terras do Tio Sam: mudem de religião, desentrapem-se física e mentalmente e aprendam o que significa a resignação cristã.

3.
Mais de cem milhões de assassinados, escravizados, espancados, roubados e violentados depois, eis que em Portugal iniciam a celebração daquilo que para eles foi, é e para sempre será um farol de libertação. 

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Síndrome de Padeiro

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Antes que me acusem de sofrer da síndrome de padeiro, fica o aviso. Sou um sociólogo empírico, artesanal. Faço colagens, mas delicio-me com o corte e a costura. Adoro bricolage e fascina-me o betão. Cá vai. O ovo ou a galinha? Qual deles? Vem isto a propósito do efeito de contágio (ou não) das obras de Medina na cabeça dos cidadãos da capital europeia das autárquicas. O enunciado é relativamente simples: será que a malha civilizadora do passeio largo, da via minguada e das ciclo-rotas irá alterar o quadro comportamental do utente? Prevejo, e já assisti a muita inauguração construtora em Portugal, que teremos a insistência crónica do estacionamento sobre a calçada farta ou a ciclovia, a extensão da prática de arremesso de dejecto canino e o graffitar de assinaturas de artista delinquente sobre a pedra que tanto bate que até se apura. E há mais. A obrite aguda, embora vá embelezar a urbe alfacinha, representa, no seu âmago, uma patologia política de difícil cura. A obsessão pelo hardware. Quanto ao software do formato mental dos urbano-residentes a história será outra. A alteração da mentalidade que conduz à estima cívica e ao sentido colectivo parece ficar para depois do aumento do PMN – o passeio mínimo nacional. O problema é que a correlação entre a obra e o comportamento cívico não foi pensada em sede alguma. O que domina e extravasa é outro vector. A alma-matéria parece ser o modo de pagar promessas e comprar eleitores. Em plena época de dúvidas existenciais e rumores de populismo, convém acalmar os ânimos daqueles que usam as ferramentas mais básicas. O apelo da intelectualidade primária, ou da filosofia de lancil, parece ser a nota dominante. Quero ver quem tira o peão do caminho do triciclo, ou enxota a marca global que irá decorar aquela praça neo-típica. Quem levantará os autos? Não há dúvida que fica tudo mais bonito e que valeu a pena o pó e o trânsito, mas o resto será mais do mesmo. Quero ver quem entrega o pão como deve ser.

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Os Bannon da Geringonça

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A vitória de Trump subiu à cabeça da Geringonça. Inspirados pelo evangelho de Bannon, o PS, o PCP e  o BE querem matar a comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos. O adágio “quem não deve não tem” não serve esta causa, ou talvez sim. Viva a transparência, Viva a Democracia, Vivam os cidadãos de Portugal!

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PEC-MAN

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Temos de reconhecer que António Costa é um sobrevivente. O chumbo da redução da Taxa Social Única (TSU) não o demoveu dos seus intentos de aligeirar os encargos dos patrões. O Pagamento Especial por Conta (PEC) foi o modo semântico de alcançar os mesmos objectivos que, verdade seja dita, são do tipo neo-liberal. Embora a escala seja outra, os socialistas portugueses estão alinhados com a doutrina Trump que postula a diminuição da carga contributiva das empresas. Andamos todos muito baralhados. O power to the people do discurso de inauguração do presidente dos EUA, se escutado de olhos vendados, lembrar-nos-ia as promessas ideológicas de outros campos, outros regimes. Estas trocas e baldrocas, de dinheiros que parecem créditos, mas que afinal são débitos, têm pernas curtas. Em 2018, logo verão o IRC obeso, farto. Ou seja, a dieta do presente implica gordura e peso no futuro, ou o inverso, dependendo do ângulo de visão. Um outro modo de atordoar um balancete pela negativa, mas garantindo o beneplácito do papalvo, é propor a extensão do número oficial de dias de férias de 22 para 25, por hipótese. Isto significa que mesmo que não haja aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) até parece que houve, porque o rendimento anual decorrente do trabalho passa a ser dividido por menos dias de labor. Isto é particularmente engenhoso, mas não deixa de ser cínico, perverso. A matemática política tem destas coisas. Permite fingir que a alpista é maior do que o bico do papagaio. Não devemos estranhar – as duas medidas são gémeas do mesmo engodo. Nascem no mesmo dia como se nada fosse. E nada será.

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Trump, Pilger and Meet the Press

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As CNN e New York Times deste mundo já não ocupam o palco central das conferências de imprensa organizadas pela presidência Trump. Os últimos da fila com a senha na mão passaram a liderar o processo jornalístico. A Fox News e  o The New York Post são agora as estrelas da companhia. Os lugares cativos de certos opinion makers estão a ser redistribuídos. Hoje o Expresso e o Diário de Notícias, amanhã as Linhas da Beira ou as Notícias da Terra. Temos assitido ao pasmo e ao queixo caído de muito jornalista internacional, ou desta aldeia, que ainda não perceberam a revolução sistémica em curso. O excêntrico Donald, há poucas semanas não fazia parte do clube, mas agora ele é o country club – tem os tacos na mão. Os comentadores, aqui e acolá, ainda acreditam no regresso à convenção, à normalidade. Mas estão enganados. As regras do jogo são outras. No entanto, e em abono do karma jornalístico, foram décadas de preferências e versões coloridas que nos conduziram a este estado de arte, a esta vendetta. Foram muito poucos aqueles que ousaram partir a loiça. Retenho alguns na memória e poucos no presente. Penso no jornalista e investigador John Pilger, e na reedição da sua obra  – The New Rulers of the World -, que pensava eu, por ter Chomsky na badana, ser um hino às virtudes de um campo ideológico em detrimento de outro, mas estava enganado. O homem distribui chapada a torto e a direito, à esquerda, em cima e em baixo. São relatores deste calibre os únicos com argumentos para confrontar Trump, ou seja quem for, em nome do processo democrático. Em vez disso, vemos microfones vendidos a simular entrevistas a presidentes da república, colunistas ao melhor preço de mercado, e a verdade dos factos a escoar por um cano de minudências e chatices. Ainda não entenderam que a tendência da política é hardcore, XXX? Enquanto os jornalistas andam aos papéis para ver se saem bem na fotografia e eternizam os favores, os danos são prolongados. E muito por sua culpa. Trump está a fazer tremer mais do que mera gelatina de cobertura mediática. O epicentro pode ter sido lá, do outro lado do Atlântico, mas aqui, seja qual for a jornada parlamentar, cheira mal e há tempo demais. As conivências políticas e os encostos de ombro de determinados jornalistas são flagrantes – as primeiras páginas parecem ser agora as derradeiras. Vai rolar muita tinta e algo mais.

Make me normal again

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Não é preciso ser cidadão norte-americano para sentir os efeitos de uma presidência nos EUA. Mas é preciso ser cidadão norte-americano (como eu) para sentir os EUA. Por mais que opinem e produzam statements a propósito da eleição de Donald Trump, há vários estereótipos que devem ser rejeitados. A ideia de que eventuais desvios aos princípios que se encontram na fundação da federação americana, e que consubstanciam o genuíno espírito da nação, serão tolerados, sem agravo ou consequência, por largos espectros da população, pela inteligência académica ou pelas grandes corporações de Wall Street. Estamos apreensivos em relação à inauguração de uma nova modalidade, porque nada disto é inédito, mas também não é exclusivo. Se realizarem a sobreposição de slides, verão, sem grandes equívocos, que Theresa May não é uma versão de Donald Trump. May, declama a sua pauta, uma palavra similar embora com variantes de discurso. Em todo o caso, trata-se de um slogan nacionalista e patriota, carregado de sentimento anti-imigração – Make Britain great again. O que está em causa essencialmente é um quadro mental de previsibilidade a que estávamos habituados. Fomos doutrinados durante tantos mandatos políticos que existe uma convenção estável, imutável. Fomos treinados a viver na sombra das consternações que seriam tratadas pelos lideres e representantes partidários. Recebemos em troca amostras de grandes promessas que se esfumaram em metas por alcançar. Aqui e agora, here and now, registamos o inverso. O juramento totalitário à partida, à cabeça. Um conjunto de absolutismos de tudo ou nada, sim ou não, you´re in or get the hell out. Há muito que vinha observando a patologia civil dos EUA – a ideia de autosuficiência intelectual. A ideia de que os outros são dispensáveis. O isolacionismo, implícito na narrativa, é apenas uma extensão natural da genética política, económica e social, construída no país que é a maior amálgama de nações extraviadas do mundo. Agora imaginem o sentimento de indefinição que se atravessa no meu ser. Para todos os efeitos, bons e maus, eu sou um cidadão dos EUA.

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Davos, Costa e a doce Lagarde

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O que temos. Temos um primeiro-ministro que acredita nas doces palavras de Christiane Lagarde. Aconchegado em Davos, António Costa parece estar a fazer um roadshow das virtudes económicas de Portugal. Fala do tom de voz alterado e simpático da senhora do FMI que agora só diz maravilhas de Portugal. Faz fé na boa-vontade e no lirismo da directora-geral do FMI, como se isso fosse garantia do que quer que seja. Deveria, em vez disso, apanhar Mario Draghi e agradecer a continuação da operação de compra do BCE, no mercado de títulos do tesouro. Gostava de ver o caderno de encargos do governo da república portuguesa no que toca a atrair investimento estrangeiro. Qual a estratégia a médio/longo prazo? Que plano existe para transformar a economia de um país fortemente dependente do sector dos Serviços e do Turismo em algo mais substantivo. Se alguém tivesse que fazer um desenho de Portugal e da sua economia teria certamente algumas dificuldades. Não se percebe  qual o peso da economia marginal? Não se sabem ao certo as virtudes financeiras do Processo Marquês e como isso contribuiu para o desenvolvimento do país. São pastas com alguma importância que não foram levadas na bagagem para a estância dos bilionários neo-liberais-bilderbergianos de um sistema capitalista roto e perto de uma ruptura dramática. Em todo o caso – nothing really matters. A mudança, desejada ou não, chega amanhã para plantar tumulto no pobre espírito de pequenos ou grandes ladrões. Isto vai abanar. Há muito que estava para abanar. E Costa reza como se fosse um aprendiz de mezinhas. Sonha com o deficit abaixo dos 2,4% como se fosse um sinal de transcendência, de verdade.

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