Durante cerca de sete anos tive um amigo, advindo à minha esfera por laços neo-familiares, com quem partilhava, sobretudo, os meus raros momentos de circunspecção e o apreço pelos maltes de Islay. Almoçando amiúde à mesa onde se ria de tudo e de todos, era por natureza inevitável e lidada com bonomia a deriva para o debate político, se bem que tão ígneo quanto fugaz, e isto tudo em pleno consulado Socrático.

 

À primeira salva de aviso, usualmente espoletada pela menção em surdina de trivialidades mediatizadas in illo tempore – a legalização do assassinato in utero, o controle dos media, a matilhização da sociedade portuguesa da qual, ainda hoje, ninguém me convence que irá terminar de forma diferente daquela que sobreveio à ex-Jugoslávia – assumíamos, como cavalheiros que somos, a postura adequada a quem sabe vir dali mais uma discussão amena, mas acesa, e tão iterativamente regrada quão certa era a demanda pelos cálices que ao trinar do ponteiro-mor (normalmente a minha cunhada) seriam trazidos para que neles fossem vertidas libações de apaziguar.

 

Dizia o meu amigo à data que não via mal algum naquilo que se escrevia no Câmara Corporativa, esse hostel de viés meláceo e insidioso pago, sabe-se agora, pelo dinheiro que não chega para aumentar as pensões mínimas. Ao que eu retorquia, mas olha que ali deve haver fundos públicos. E dizia ele que isso, a ser verdade, até seria justificável uma vez que ao perpetuar no poder “governos equilibrados”, e obviamente cito, era uma forma de investimento nas políticas de auxílio aos mais necessitados.

 

Referia-se, aqui, o meu amigo às diversas castas onde se ancora este recife asquerosamente paralisado no tempo e que tornou impossível, aos seus, crescer e a velhos como eu muito difícil respirar: a pensionistas cujos alquebrantar de costelas e carreira contributiva desde os 11 ou 12 anos de idade lhes valeram pensões de cinquenta ou sessenta contos, contentáveis pela distribuição de missangas resquiciais – da merda que Sócrates, Barroso, Guterres, Cavaco e os governos todos desde a adesão à UE defecavam após devida assimilação; a funcionários públicos conduzidos pelo sonho inefável de pilotarem uma secretária, tementes ao Deus Estado, não fosse algum azar propeli-los a todos para o tempo dos trisavós em que se andava descalço e o patrão bebia o vinho, ora luxo sobretaxado.

 

Qual é o mal?, perguntava cândido. O mal é que esse dinheiro, nas mãos de quem o ganha, não seria gasto em propaganda de agitação ideológica. Não é da cúria, é nosso. E Trás-os-Montes parecia sempre chamar-me a que lá fosse edificar um reduto, quando a coisa adentrava a segunda iteração.

 

Depois argumentaria, o meu educado e circunspecto amigo, que mentira alguma ou incorrecção factual – sempre por omissão – apanagiariam o timbre das postas lá vertidas, que até seriam consentâneas com, e novamente cito pois somente assim me apanhareis a escrever tais autismos, aquilo que os jornais e a rádio noticiavam. E aqui dá-se um cisma, há uma cisão na fé de ambos até ali fundeada em princípios de não aleivosia; é que ao menos para mim, as distinções entre nesciência, ignorância, má-fé e desespero manipulativo foram sempre bem claras, à luz da única estrutura que pode ser vista até de satélite, a par da Muralha da China, e que é o grande deserto de sal português onde nada viceja, tudo que brote é de imediato calcado, e onde até a chuva pensa duas vezes antes de cair – uma cloaca impossível de desinfestar, honra à Câncio um coio de malucos. 

 

Entretanto toda a gente sabe que as migalhas pagas ao jovem Galamba, a quem gostaria de ver passar o Natal em Calais, nada representam, são despiciendas face àquilo que sugam Manuel Alegre, Mário Nogueira, Mário Soares, Jorge Sampaio, Vítor Constâncio, Durão Barroso, Cavaco Silva, a bolinha Guterres, e a miríade de miríades que cascata piramidalmente por suas sinecuras a baixo. Basta ver, quotidianamente, os concursos públicos cujas alocações de dinheiro porvindo a ciclovias, museoetnoplasticotretas, e levantamento de ruas à força de labregos temporários conduzem, a aritmética o dita, a leilões do IGCP que condenam já netos, trinetos, e pentanetos – os quais, felizmente, serão à data em que a factura vencer cidadãos britânicos, australianos, canadianos ou marcianos inimputáveis e incobráveis.

Quem cá ficar e estiver mal preparado, do deambulador forumalmadense até às hordas de mortos-vivos que encalham no estupor da noite lisboeta, nem uma fronteira para a Colômbia terá onde ir buscar pão. O futuro aqui é de arame farpado, guaritas fiscais e vigilância local, leia-se vizinho contra vizinho. 

 

De resto só duas coisas: uma, porque estará Pedro Dias, um tipo aparentemente libertário cujo único fito vislumbrável de vida é ser deixado em paz, enleado numa história que tresanda aos mesmos eflúvios nauseabundos onde flutuam mortes hospitalares, bombeiros sem meias, escolas fechadas, e sicários a soldo de uma seita sinistra entranhada na falsa revolução dos pobres de espírito? E duas, porque insistem os autóctones no miserável bucolismo de tomar, por comparação, a Finlândia quando o sol brilha e a Somália quando lhes vão ao cu por via da Autoridade Tributária?

 

Daqui a nada vou reencontrar uma amiga de longa data, tenho de ir barbear-me. Faço votos de que a chuva se intensifique, o vento sopre, a neve caia, a economia faleça a par de António Costa e de todo o séquito histriónico que lhe afaga as banhas. 

 

O plano do PS, desde que Sócrates vendeu o encéfalo ao Diabo, foi sempre encontrar um bode expiatório que permitisse a Portugal sair do Euro, nacionalizar terra, economia e povo, e mais tarde, paulatinamente, vir com os proveitos da jogada comprar, literalmente, aquilo que como é dos cânones jamais poderá ficar sempre nas mãos do Estado. É uma grande jogada de forex e tem tudo para resultar. Eu sei, porque se pudesse, tê-la-ia feito eu mesmo.