PUEC – O Processo Uberizicionário em Curso

Eu, apesar de ter uma simpatia estética pelo taxista, não tenho nada contra a Über. Acho lindamente que haja concorrência, que cada um utilize o que quiser e tal, sim senhor. Mas, como já se disse por aí, esta questão não tem nada que ver com ambientadores para carros, motoristas lavados ou carros limpos. Os taxistas, graças à suprema incapacidade do líder da ANTRAL e à boçalidade daqueles que falaram pela classe, não souberam conquistar a simpatia da opinião pública (ou da opinião publicada de Lisboa, incluindo redes sociais). Porque se agarraram à questão corporativa, porque deram a entender que não querem concorrência alguma. Porque um deles resolveu citar Getúlio Vargas e falar de meninas violadas. E, com isto, ajudaram a alimentar a fama de grunho no taxismo e a criar a ideia falsa de que todos os motoristas da Über saíram directos de um episódio da Família Bellamy. Nem oito, nem oitenta e oito.

Enquanto a comunicação social se agarrava ao grotesco Jorge Máximo para que todos se indignassem (ah, a indignação, sempre ela) com os não menos indignados taxistas, um dos profissionais da bandeirada disse à SIC uma coisa tão acertada que nem ele deve ter tido noção da luz na escuridão que significou. “Vocês, jornalistas, deviam estar a nosso favor, que qualquer dia são vocês”. Qualquer coisa como isto. E tem razão.

Este fenómeno da “uberização” está a chegar-nos sob o manto do moderno, do trendy, dentro daquela lógica geracional que diz que podemos todos trabalhar com um tablet numa praia no Hawai e ser para lá de felizes, nós e as nossas parceiras sexuais, o nosso gato e o nosso perfil no Instagram. Exactamente a mesma lógica que está por trás do “não sei o que são turistas a mais”, quando as cidades pelo mundo fora começam a perder identidade e a tornar-se museus de pedra para fotografar e postar, com cada vez menos pessoas da terra e mais instagrammers vindos de todo o lado do mundo que se estão bem a borrifar para a cultura de povos inteiros.

A “uberização” é uma coisa gira porque, dizem, é um fenómeno de “partilha”. Claro. Esta nova economia fancy não quer saber de lucros, quer partilhar – mesmo que uns legitimamente enriqueçam e os outros acabem a contar trocos. Rui Bento, o director da Über em Portugal, diz que representa apenas uma aplicação que quer ligar pessoas – as que se querem deslocar e as que as querem transportar. Eu gostava de acreditar neste lálálá mas não consigo. E esta coisa da economia do futuro, sem patrões e sem trabalhadores, só feita de “parcerias” parece-me um belo lálálá. A menos que alguém acredite, por exemplo, que o Continente e o Pingo Doce foram criados para “ligar” produtores e consumidores, os que querem comer e os que lhes querem dar de comer, esta economia “da partilha” é cantiga do bandido. É capitalismo, sim. Não estão a inventar nada. Estão só a dar-lhe um novo rosto. É gente que cria modelos de negócio e que ganha dinheiro com isso. E que cria “parcerias” com pessoas que precisam de ganhar dinheiro para viver. Sem regras, sem lei. Gente mal paga, que terá de trabalhar cada vez mais horas e a quem venderão a ilusão do “empreendedorismo”. A “uberização” não tem nada de errado. Traz concorrência, mais oferta, mais soluções para satisfazer o consumidor. Mas pode não trazer grandes notícias à maioria de nós.

Mas, como em todas as questões, já não há meio termo. Ou estás com os táxis ou estás com a Über. Ou queres correr com os portugueses de Lisboa e encher isto de turistas ou queres encher Lisboa de fadistas e peixeiros e correr com todos os turistas. Ou queres um mercado completamente estatizado ou queres a selva. Eu peço desculpa, mas este maniqueísmo incomoda-me. Eu acredito no mercado livre, mas não gosto de viver na selva. E parece que não há quem represente este sentimento que, julgo eu, é comum a grande parte dos portugueses. Se à esquerda só há quem veja no Estado a solução para tudo, à direita parece que cada vez se gosta mais do salve-se quem puder. A verdade é que descobrir bom senso é hoje mais difícil que encontrar um taxista lavadinho.

1 Comment

  1. JPT

    Kudos!

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