Mês: Maio 2016 (Page 1 of 2)

Pensar dentro do rectângulo

Portugal-Administrativo_thumb2.jpg

 

De vez em quando vêm à baila jornalística uns não-assuntos que as redes sociais transformaram em causas. Há alguns meses atrás o caso Henrique Raposo vs. «alentejanos» completamente pífio (basta ler o livro atacado) e agora o súbito ataque ao cantor José Cid a propósito de um comentário por ele formulado num programa de televisão há 5 anos.
Não vamos sequer escalpelizar a indignação suspensa durante cinco anos, nem o teor das declarações que ouvidas no contexto são naturalmente infelizes mas de modo algum deselegantes dentro da conversa e no contexto do próprio programa. Não vale a pena, os comentadores encarregam-se disso. Mas o humor em Portugal sempre foi cru, cruel e crucificador, sem que alguém alguma vez se tenha realmente importado com isso.
O humor vulgar, aquele de barbearia, de táxi ou de café é mesquinho, implacável e francamente amoral. Desce aos lugares mais sórdidos da existência humana e quase nunca poupa quem quer que seja, reduzindo grandes e pequenos, honrados e menos honrados a matéria de cloaca.
Durante anos a fio tenho ouvido anedotas sobre alentejanos, impropérios sobre portuenses e lisboetas, observações lúbricas e pouco lisonjeadoras sobre tipos sociais, profissões e ofícios. E se recuarmos na genealogia da graçola xenófoba e chauvinista o país inteiro revolve-se em riso entre si e contra si.
Não é por nada que o Zé Povinho, indivíduo boçal e risonho que encena um gesto de insulto, se tornou o símbolo colectivo de Portugal.
Mas nesta história toda o mais absurdo não é indignarem-se com comentários imbecis – afinal as redes sociais são ao mesmo tempo palco e plateia. O mais absurdo é a forma como ainda se pensa o país segundo a bitola salazarista dos transmontanos, dos beirões, dos alentejanos, etcª.
Aquele mapa colorido das províncias que engalanava muitas salas de escola primária ainda faz as delícias desta gente.
Ao menos no Estado Novo ainda se cuidava de saber onde começavam e acabavam as províncias. Desconfio que hoje muitos transmontanos só o são por contágio. Nunca leram Torga, não sabem elencar os rios da região e estão a marimbar-se para a etnografia e a cultura popular que, aliás, foi sempre pouco gentil para os tipos de homens e mulheres que estavam para lá do Marão…

Publicado em Sem categoria | Tags , , , , ,

Esses porcos alemães

smart_pig.jpg

 

Não sou um especialista. Não sou um fiscalista. Não sou constitucionalista. Não sou político. E não sei se o bater do meu coração é público ou privado. Já não sei nada. Mas arrisco o seguinte: o governo de Portugal está a mexer de um modo irresponsável em conceitos existenciais profundos. Coloca em causa uma tese que ouso avançar: os direitos, liberdades e garantias do próprio Estado estão a ser postos em causa. O governo que cessa os contratos de associação com os colégios privados abre uma enorme caixa de Pandora. A cisão, profundamente ideológica, arrasta para o debate todos os domínios existenciais do exercício de prerrogativas do Estado. O mais perverso desta acção de manipulação é que se trata de uma purga interna. Como se a partir de agora fosse tabu o Estado emprestar a mão a privados. Ao demarcar uma linha tão áspera, o governo em funções, relança rancores ideológicos do antigo regime, reaviva dissabores que obrigam Portugal a regressar a tempos penosos. Divide um país entre bons e maus, oprimidos e exploradores. Na testa dos portugueses passam a estar tatuadas as palavras privado ou público. O governo colide com o conceito que o define, com a sua missão de redistribuição e justiça social. Deveria na minha opinião criar dois regimes contributivos. Um para aqueles que desejem ver os seus impostos servir as causas públicas, e outro para os que defendem que o seu dinheiro deve ser usado exclusivamente em prol de causas privadas. Quando as coisas dão para o torto na função pública o que faz o governo? Recorre à fígura da requisição civil. Ou seja, são os privados que emprestam a mangueira para apagar os fogos. Este país está a tornar-se cada vez mais ridículo. E muito por culpa dos que estão no governo. Um dia precisarei da vossa ajuda. E onde ireis estar? A secretária de Estado da Educação, que alegadamente tem descendência a estudar na Escola Alemã, devia ficar caladinha. São os contribuintes alemães que financiam uma parte da operação desse colégio. Assunto encerrado.

Prevenir pelo exemplo

Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, mais de 26.700 pessoas foram vítimas de violência doméstica em 2015. Nesse contexto, foram assassinadas 29 mulheres. Um estudo da União de Mulheres Alternativa e Resposta concluiu que mais de um quarto dos jovens considera normal a violência psicológica, cerca de um terço dos rapazes julga legítimo pressionar a companheira a ter relações sexuais e um número diminuto mas revelador entende que o recurso à violência física é natural, desde que não deixe marcas.

Estes números não são de hoje, os estudos não são da semana passada, as mulheres não foram assassinadas ontem, nem esta crónica vem sequer no seguimento daquele programa televisivo em que a Deputada Catarina Martins foi filmada a tentar proteger uma fictícia vítima de violência no namoro. Nem mesmo apesar desse programa o tema está na ordem do dia. Mas devia.

Ainda somos o País onde se acha que “ela estava a pedi-las”, que “o coitado estava com os copos” ou que “ele não é violento, tem só um feitio especial e é um bocadinho ciumento”. É muito aquela coisa da “coutada do macho ibérico”, legitimada por um tribunal há uns anos. Ainda temos tendência para desculpar a violência. Para arranjar desculpas “sociológicas” para a bordoada.

Não sei se há – ou se pode sequer haver – algum lado politicamente correcto neste assunto. É verdade que o recurso a expressões como “femicídio” me parece ligeiramente absurdo, sim. Mas não é politicamente correcto dizer que as mulheres são as principais vítimas de violência doméstica. É verdade. A mais pura das verdades. Mais absurdo que utilizar a expressão “femicídio” é vir reivindicar para os homens uma igualdade que, nesta matéria em concreto, não existe. Elas são mais vítimas que nós, ponto final.

Também não sei se vale sequer a pena teorizar sobre as raízes do mal ou tentar associar este tipo de comportamentos a determinado grau de escolaridade, a certo nível de literacia ou a problemas geracionais. Não creio mesmo que valha a pena. Afirmar que a violência doméstica é uma realidade rural é contrariar os dados – o maior número de vítimas é proveniente da Área Metropolitana de Lisboa. Também não é uma realidade directamente relacionada com o alcoolismo ou com parcos rendimentos. Será, talvez, uma realidade histórica, no caso das vítimas mais velhas, de domínio do macho sobre a fêmea equiparada a coisa móvel; será, também talvez, uma realidade de uma nova geração habituada a reivindicar direitos e que não conhece o respeito, a responsabilidade e o cavalheirismo. Não sei. Há quem diga que o cavalheirismo é coisa do passado. Mas os do passado também se prestam à pancada.

Parece-me, enfim, desnecessário (tentar) teorizar sobre as causas do fenómeno. Mais importante será educar os que já vieram ao mundo e aqueles que estão para vir. Ensinar-lhes o valor do respeito pelos mais velhos, da cordialidade e do bom senso. Explicar a quem ainda pode aprender que os homens e as mulheres se respeitam. E ter especial atenção com os rapazes. Os novos pais deviam ensinar, através do exemplo, que a mãe, a avó, as tias, as sobrinhas, se tratam com respeito e amor. Mesmo que elas sejam umas chatas – ou, aqui e ali, umas bestas. É também por aqui que se previne a violência doméstica. Pela estabilidade familiar, pelo amor fraternal entre marido e mulher, pelo exemplo que os filhos vêem em casa. Um filho que aprende em casa, com o pai, como se trata uma mulher, dificilmente será um agressor no futuro. Um filho que vê no pai um exemplo de dedicação e de respeito para com a sua própria mãe, seguirá esse exemplo. É só preciso que os pais tratem as suas mulheres da forma como elas merecem ser tratadas: com a certeza absoluta de que elas são, na maioria dos casos, melhores que nós em tudo, com a excepção que a abertura de frascos constitui.

Publicado em Uncategorized

TAP(ioca) a cair de madura

Não perderemos pela demora. Os acontecimentos precipitar-se-ão na Venezuela, queira ou não queira o governo português, seja ele de que tons for. Não se trata já de um se, mas sim de quando. Há uns anos aqui neste blog foram as nossas autoridades avisadas – então sob a égide da coligação Passos Celho/Paulo Portas – e aparentemente nada mudou, naquele previsível exercício do empurrar os problemas com a barriga sempre faminta de negócios mais ou menos claros.

manioccassava.jpg

 

A Venezuela, tal como a África do Sul – o próximo da lista -, tem a particularidade de dentro das suas fronteiras contar com uma colossal comunidade de portugueses e luso-descendentes, praticamente todos eles com as suas geleiras e despensas vazias e ainda por cima, vítimas fáceis de todo o tipo de criminosos de delito comum. Por outro lado, sabe-se que são gente empreendedora e uma boa parte dela assentando arraiais no sector da distribuição alimentar no seu sentido mais lato: produção em unidades fabris, mini e supermercados, padarias, pequena indústria transformadora, fazendas de produtos agrícolas e gado. Enfim, são gente que não vive nem quer viver à espera do Estado para receber qualquer coisa. 

Aqui está uma inevitabilidade que mais dia menos dia forçará a TAP a rever a sua controversa e oportunista política de preços nos voos para Caracas. Não tardará o momento em que a companhia do Estado será obrigada a colaborar numa atabalhoada evacuação que já se antevê relativamente aproximada do desastre de 1974-75-76. Aí  teremos os terminais aeroportuários a abarrotar de refugiados – lá lhes chamarão novos retornados para disfarçar a catástrofe com um epíteto mais tragável – que daquele país apenas trarão a roupa com que desembarcarão numa Lisboa já esquecida de pretéritos, péssimos e vergonhosos exemplos. Lá terá então o nosso governo de recorrer de mãozita estendida ao Soviete Supremo de Bruxelas, recriando-se o IARN e tudo o que significou em termos de iniquidade, corrupção e abuso de confiança. Deve ser exactamente isto o que pretendem. 

Por enquanto as autoridades nacionais ainda estão a tempo de gizar planos de aliciamento dos primeiros interessados com créditos, possibilidade de atribuição de terras de cultivo seja do que for e repovoamento de localidades semi-abandonadas, bastando para isso a formação de uma entidade competente e com plenos poderes para executar esta missão. Eles virão, não duvidemos. Não deverá ser nada difícil  aliciar muita gente que se encontra no mais completo e absurdo desespero. O tempo urge e já não vale a pena fazermos de conta de que tudo correrá pelo melhor. A situação não evoluirá satisfatoriamente, tenhamos então a certeza disso. Se o governo bolivariano – aliás um bom amigo dos sucessivos governos portugueses – é ostensivamente incapaz, a oposição está ao mesmíssimo nível da sua congénere brasileira, pois além de inepta, é escandalosamente corrupta e mafiosa.

Sim, isso mesmo, a oposição é mafiosa.

Sabendo-se de antemão o calibre de todas as castas que há décadas se têm sucedido no controlo do poder a partir do Palácio de Miraflores e as inevitáveis ingerências externas por parte dos EUA, Rússia, Cuba e outros actores internacionais interessados  na região, Portugal  deverá defender os interesses dos seus que por sinal, significam uma fantástica oportunidade para as várias maleitas que este país tem sofrido desde há algum tempo: quebra da natalidade, urgente redinamização do sector imobiliário semi-abandonado ou nas mãos de uma banca totalmente falida, estiolar do empreendedorismo, abandono do interior e uma miríade de outras situações que os telejornais quotidianamente apontam. Isto seria possível num quadro diferente, em que a agilizaçãod e procedimentos burocráticos fosse uma realidade que o regime, no seu todo preso aos interesses instalados, não quer nem pode executar.

Não procurem mais noutras latitudes, não vale a pena mantermo-nos na já longa e fastidiosa fase wishful thinking como agora alguns gostam de dizer. Há que proceder a uma criteriosa evacuação faseada de todos os interessados, preferencialmente de uma forma discreta e ordenada. 

Os portugueses e luso-descendentes da Venezuela decerto estarão interessados em instalar-se num país muito seguro, com condições infinitamente superiores – a todos os níveis – às daquele em que miraculosamente têm sobrevivido. Mais ainda, Portugal deles precisa urgentemente, como dos luso sul-africanos tem, percamos as ilusões, imperiosa necessidade num futuro bastante próximo. Para cúmulo da felicidade comem o que nós comemos, entendem perfeitamente o que dizemos, não se lhes passa pela cabeça mais tarde ou mais cedo exigirem a construção de outro tipo de templos e muito menos ainda condescendem com um género de santas ideias que consideramos ultrapassadas há pelo menos meio milénio. Estes governos que se têm revezado no exercício do poder em S. Bento não podem deixar às gerações que aí vêm, mais uma canga que se soma ao défice, às PPP, à dívida pública e ao controlo de Bruxelas. Evitem pelo menos todas as hipóteses que remotamente possam no futuro trazer violência, prepotência e abusos de toda a ordem  às ruas das cidades portuguesas. Para bom entendedor, isto basta.

Tudo o mais não passa de ignóbil hipocrisia que pagaremos todos da pior forma. Basta olharmos para além, para o resto da Europa. 

Publicado em Sem categoria | Tags , ,

Abraça-me Chiado!

   Inaugurou ontem a exposição de fotografia de Isabel Santiago Henriques. A não perder.

A caravana passa.jpg

 

Abraça-me Chiado!

Poderemos afirmar, sem grandes reservas, que o Chiado é um dos filhos primogénitos da cidade de Lisboa. A capital, embora repartida por bairros distintos, nutre um carinho especial pela atmosfera pessoana deste enclave traquina. É aqui que o lado jocoso cruza a ambição lírica. É aqui que um certo abandono demonstra a fugacidade da vida. E porventura será neste domínio que deambulam os melhores enquadramentos cénicos, as melhores propostas de enredo natural. E Isabel Santiago Henriques pressente esse código, e assume a missão de voyeur, discreta mas incisiva, e célere na captação do que foi ou do que poderia ter sido. Ao longo deste diaporama de histórias inacabadas, somos alimentados com indícios suficientes para imaginar o resto, aquilo que extravasa a fotografia e invade outras artes de representação, pose e desilusão. As imagens coladas numa dispersão intencional não devem ser lidas como uma proposta linear, encadeada pela razão que procura uma coerência amestrada. Santiago Henriques opera na clandestinidade da imagem estática, sem martirizar por completo o conceito de beleza que domina o espírito contemporâneo. Vivemos uma época de feixes rápidos, alternâncias de vidas, suplentes dispostos a trocar a camisola pela identidade alheia. Aqui, neste ensaio, registamos a contradição dessa limpeza estética. Os actores que se apresentam tecem movimentos e esboçam emoções avulso. A sua captura, e a sua elevação à pequena eternidade da impressão fotográfica, confirmam a escala humana de Santiago Henriques. Não houve ampliações desmedidas nem altercações de estilos. Os quadros que se apresentam são idóneos. Respeitam-se nesse quotidiano que se nos passa à frente todos os dias, e à noitinha quando elas também acontecem em sonhos ou devaneios de loucura, elucubração. Como o motociclista amadurecido distraído pela derme da pequena que esbarra nesse táxi malparado que não vimos também. Como o trio de haterónimos que desconhece as dores de articulações de Pessoa. Como o gingão que trabalha a altas horas da noite para apaziguar o bronze. Tudo isto e muito menos – a panóplia de frames descartados pela selecção, a sucessão de imagens que se alternam. Abraça-me Chiado é envolvente, promissora – a dama que insinua e diz que chega sempre a horas.

 

Bio

 

Isabel Santiago Henriques nasceu em Aveiro em 1960. Cresceu rodeada de máquinas fotográficas e de filmar do seu pai, envolta por dezenas de álbuns e bobines de filmes que a mãe meticulosamente organizava, um hobby que mais tarde viria a levar a sério. Estudou no Liceu de Aveiro, mais tarde numa Escola privada e na Universidade de Lausanne. Trabalhou nas empresas comerciais fundadas pelo seu pai durante mais de 20 anos. Em 2010, já a residir em Lisboa, inscreveu-se num curso de fotografia e fotojornalismo dirigido por Luiz Carvalho que levou a cabo entusiasticamente durante 3 anos. Nunca mais largou a fotografia, e ficou a trabalhar com Luiz Carvalho como assistente de realização no programa Fotografia Total da TVI24 ao longo de 4 anos. Assume Luiz de Carvalho como o seu Mestre, a inspiração, a fonte inesgotável de conhecimento e aprendizagem – e um grande amigo. Isabel Santiago Henriques vai mais longe: devo-lhe tudo o que sei sobre fotografia. Apaixonada por política, fotografa os mais diversos eventos do CDS. Tem 3 filhos, o Diogo o André e o Tiago.

 

„A fotografia que mais me absorve é a street photography”

CONVITE_ISH_2016.jpg

 

 

Da democracia

eca de queirós.jpg

 Eça de Queirós, O Conde d’Abranhos:

“(…) os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!
Tomemos um exemplo: o eleitor que não quer votar com o Governo. Ei-lo, aí, junto da urna da oposição, com o seu voto hostil na mão, inchado do seu direito. Se, para o obrigar a votar com o Governo o empurrarem às coronhadas e às cacetadas, o homem volta-se, puxa de uma pistola – e aí temos a guerra civil. Para que esta brutalidade obsoleta? Não o espanquem, mas, pelo contrário, acompanhem-no ao café ou à taberna, conforme estejamos no campo ou na cidade, paguem-lhe bebidas generosamente, perguntem-lhe pelos pequerruchos, metam-lhe uma placa de cinco tostões na mão e levem-no pelo braço, de cigarro na boca, trauteando o Hino, até junto da urna do Governo, vaso do Poder, taça da Felicidade! Tal é a tradição humana, doce, civilizada, hábil, que faz com que se possa tiranizar um País, com o aplauso do cidadão e em nome da Liberdade.”

Publicado em Sem categoria | Tags , ,

A migração ideológica da Europa

europe11.jpg

 

Desejava deixar a poeira assentar, mas os eventos que assolam a Europa ultrapassam a falsa expectativa de um status quo. Encontramo-nos na torrente de transformação, na tempestade que se multiplica por maiores ou menores remoinhos, a Leste e a Oeste. Em política não existem coincidências. Existe um alinhamento que extravasa análises retrospectivas, depois do sucedido. Por exemplo; a efectivação da decisão tomada pelas autoridades gregas para remover migrantes do campo de refugiados Idomeni, acontece apenas após o desfecho das eleições presidenciais na Áustria. E porquê? Porque se Hofer tivesse ganho as eleições, os gregos certamente que não avançariam com a remoção autoritária dos refugiados. Seriam imediatamente equiparados a  outros quadrantes ideológicos (distantes mas próximos) – à extrema-direita. Ou seja, deste modo a acção dos gregos passa despercebida. Não causa grande alarido ideológico. Afinal trata-se da Esquerda que não se deixa contaminar por desfalecimentos éticos, pelo uso da força – a troco de dinheiro fresco? Este encadeamento de ideias não é de todo rebuscado. É assim que funciona a política que não distingue as dimensões domésticas e internacionais, a oportunidade do calendário apertado. É isso que se está a passar na Europa – um mecanismo de trocas convenientes no contexto de uma União Europeia cada vez mais falha no que diz respeito aos seus princípios constitutivos. Os nacionalismos assumem-se porque já não se consegue realizar a destrinça dos desafios. Enquanto que em Portugal a ideologia divide privados de públicos, estivadores de patrões, em França, a ferida aberta causa mossa directa no motor económico. A greve das refinarias já se espalhou à quase totalidade do país. O que pretendem? Inflacionar repentinamente o preço do crude nos mercados internacionais? Gostava de saber qual o impacto (positivo) que estes acontecimentos terão nas operações da gigante petrolífera francesa Total, e aqui, na vacaria instalada no burgo por Costa e Centeno que delira com a recuperação plena e faustosa. Francamente. As verrugas já estão plantadas no panorama. Agora é só ligar os pontos. Negros.

O mar morto do terrorismo

dnews-files-2016-05-egypt-air-670-jpg.jpg

 

O desastre do avião da Egyptair, a confirmar-se como sendo um ataque terrorista, inscreve-se num quadro operacional e estratégico preciso. Se o inimigo pretende infligir o maior desgaste possível ao adversário, fá-lo-á de modo a dificultar a localização dos destroços e eventual recolha de corpos. O mar serve esse conceito de projecção de poder negativo. Na sua imensidão líquida registamos dimensões de natureza geomarítima e outras envolvendo diversos conflitos jurisdicionais. Os passageiros, de nacionalidade diversa, obrigam os respectivos Estados a colaborar na acção logística de busca, salvamento ou recolha de corpos. Este efeito aglutinador propõe a emergência de comunidades de interesses positivos. Serve para aliar governos de países em torno de uma mesma causa anti-terrorista. Ou seja, no longo prazo, erode os fundamentos da dispersão de actores, desejada pelo Estado Islâmico. Não será descabido reflectir sobre a intencionalidade da “escolha da zona de impacto”. Estarão as células organizadas em torno de uma lógica de activação de engenhos de acordo com um mapa de desgaste? Os ataques do 11 de Setembro serviram para inaugurar novas abordagens e modelos a este respeito. A equação de origem, destino e posição relativa, deve ser relevada. O facto do voo da Egyptair ter origem em Paris tem uma importância acrescida. Planta na base um efeito psicológico acentuado, como se o Mediterrâneo fosse uma extensão da centralidade europeia, uma filial de Bataclan. São considerações que envolvem uma certo grau de elasticidade conceptual que devem ser tidas em conta. O terrorismo cavalga essa dinâmica pendular. Lockerbie, ataque continental e aparatoso, por ter sido testemunhado, inscreve-se num modelo distinto. No mar Mediterrâneo não houve observadores que pudessem confirmar o desenrolar conducente ao impacto. Confirmamos deste modo que a ausência de espectadores não constitui um detractor das intenções terroristas. Para já, e na ausência de elementos que confirmem que se trata de um ataque terrorista, devemos colocar em cima da mesa todos os vectores de análise de um fenómeno geopolítico residente. Por outras palavras, a determinação do ritmo de eventos terroristas permitirá um certo grau de calendarização. Vivemos, lamentavelmente, sob os auspícios da expectativa negativa. E isso é desejado pelo adversário.

Saloiaria

Viver já não é aquilo que deve ser. Não é um prazer ou uma tristeza. Não é um conjunto de experiências quotidianas, de alegrias e de privações, de sabores e de emoções. Não. Viver agora é seguir o lifestyle. Sair do trabalho e, em vez de mudar de roupa, trocar o outfit de casual friday por um workout e correr para os braços do personal trainer que nos espera no health club. Transpirar muito numa aula de crossfit, de TRX ou num bootcamp – aquelas coisas que antigamente os rapazes faziam enquanto cumpriam serviço militar – por umas dezenas de euros mensais. Para relaxar, o melhor é deixar de comer iogurtes e passar a comer froyos. Poupamo-nos ao slunch, que já foi um lanche ajantarado, para termos mais fome no dia a seguir à hora do brunch, que já foi um pequeno-almoço reforçado. Os outfits, esses, vão mudando à medida das exigências do dress code. É aí que percebemos que o black tie, o vintage cool, o garden chic, o hippe chic e o casual chic – que não é o mesmo que o outfit de casual friday – nos deixam dúvidas. O melhor é optar por um mix. Fazer uma daquelas coisas que toda a gente sempre fez (misturar peças mais caras com outras mais baratas) e explicar ao mundo que se fez um chiquíssimo high-low. Depois o melhor é não ir a terraços, mas a um terrace ou a um rooftop e aproveitar aquela sunset party ou aquela gin sunset party num ambiente chill out, para não maçar. Enquanto não se janta, vai-se a um winebar ter um chat com outros winelovers. Depois há que experimentar uma hamburgueria, uma pregaria, uma bifanaria ou uma outra qualquer porcaria. Se não houver healthfood, bom, bom, é ir ter uma experiência de livecooking ou de foodporn. E passar o fim-de-semana num charm hotel. Ou pagar duzentos euros por noite para ter a fantástica experiência – antigamente exclusiva de sem-abrigos e agora mais democratizada e cara – que é dormir ao relento. Com tudo isto, gastar um salário. Comprar experiências, para viver o que não se vive genuinamente. E usar a rede social mais próxima para fazer dela uma revista cor-de-rosa democratizada. Onde todas as vidas sorriem. Onde todos são felizes. E modernos. E fashion. E trendy. Não, meus caros, nós não somos mais cosmopolitas do que os nossos pais que vieram para Lisboa directamente do sopé da serra. Podemos ter viajado mais, podemos ter estudado mais, podemos saber mais coisas que eles. Mas não estamos a inventar nada. Estamos só a dar um ar novo a um mar de coisas que existem há décadas. E isto não é nada fantástico. Não é amazing, nem top. É, no máximo, um novo-riquismo desavergonhado, passe o pleonasmo. Uma saloiice que já não usa lenço na cabeça mas que é, ainda assim, uma saloiice.

Publicado em Uncategorized

Vergastar o ensino privado

cane_1356044c.jpg

 

Se eu fosse o primeiro-ministro acabava de uma vez por todas com as escolas privadas. Os colégios são sorvedores do Estado. Gastam milhões de euros dos contribuintes. Servem as elites e promovem a ideia de uma sociedade intensamente estratificada, dividida entre pobres e ricos. As escolas privadas nada acrescentam ao parque escolar e nem sequer servem para comparar o desempenho dos estudantes em relação à oferta do Estado. Nas escolas privadas os papás e as mamãs compram o sucesso dos seus filhos que são maioritariamente burros. A escola pública não faz distinções. Nivela o corpo discente de acordo com o mesmo quadro de oportunidades. Valoriza o mérito, a iniciativa e o empreendedorismo dos alunos. Os professores do ensino público são os únicos com algo válido a transmitir aos alunos. E adoram ser professores. O ministério da educação é a melhor entidade para gerar uma comunidade de intelectuais, de inventores e indivíduos capazes de pensar fora da caixa. A direcção central dos serviços de educação representa a mais pura expressão de democracia. Está na vanguarda da transformação do nosso mundo. Quem precisa de uma rede de escolas privadas? Francamente. A quarta classe deveria chegar para encher a cabeça dos eleitores. O governo tem razão. Não vale a pena esbanjar dinheiro em vão.

« Older posts

© 2026 Estado Sentido

Theme by Anders Noren — Up ↑