Alguns sectores liberais foram rápidos a criticar a existência de infernos fiscais para justificar a honestidade de quem recorre a offshores para não pagar impostos. Mas não, a história dos papéis do Panamá não é a simples demonstração de que se cobram demasiados impostos em determinados países. Claro que há gente que legitimamente leva o seu dinheiro para paraísos fiscais porque, de facto, nos seus países se cobram impostos absurdamente elevados. É óbvio que a competitividade fiscal se conquista e que o capital só permanece se a percentagem dos rendimentos cobrada pelo Estado for razoável – isto é, baixa. É nessa medida que só há paraísos fiscais por comparação. A Holanda ou a Suiça, por exemplo, são paraísos fiscais em comparação com Portugal. Não precisamos de ir para ilhas de areia branca e mar transparente para descobrir paraísos fiscais. Onde há impostos baixos há mais liberdade, há mais respeito pela propriedade privada, há mais investimento, há maior capacidade de gerar riqueza, há mais igualdade de oportunidades, há mais elevador social. Isto não é condenável. Querer não perder rendimento é racional e legítimo. Mas esse é só o lado claro do “Panama Papers”. Existem lados negros que não podem ser ignorados. E se não percebemos que esses lados negros existem, então é sinal de que o capitalismo é um sistema moralmente falido. E que quem ganhará com isso serão precisamente os seus adversários. É por isso que é urgente recentrar o capitalismo, recuperar padrões morais dentro de um quadro de economia de mercado.

Em primeiro lugar, a opacidade e o obscurantismo dos offshores não se justificam com a existência de infernos fiscais. Os impostos elevados e injustos não se resolvem com sociedades veículo, com directores fiduciários, com esquemas pouco claros e transparentes elaborados na penumbra e nas zonas cinzentas do Direito.

Em segundo lugar, aquilo que se vai percebendo é que esta zona de ninguém jurídica serve, em grande medida, para processos de lavagem de dinheiro, de branqueamento de capitais, de saneamento de casos de corrupção, de fraude, de tráfico de estupefacientes e de armas. Há de tudo. Desde o sentimento egoísta mais positivo, que é o de não perder rendimentos, à simples lavagem de rendimentos obtidos de forma ilícita, há de tudo. Mas a argumentação que purifica o offshore não é compatível com a sobrevivência de um capitalismo transparente, legítimo e que ainda é a única forma de assegurar condições de bem-estar social a uma grande maioria da população mundial.

Em terceiro lugar, existe também nesta história um problema de disparidade de rendimentos. A argumentação que purifica o offshore é a mesma que desculpa a desigualdade absurda de salários. Alguns sectores têm santificado os salários milionários de presidentes de grandes empresas com o fundamento mais simples de que essas empresas são privadas, que a responsabilidade dos seus CEO é muito grande, que a margem de lucros potencia e dá cobertura moral ao facto de o CEO auferir anualmente milhões de euros enquanto os seus trabalhadores ganham pouco mais que o salário mínimo. Este argumento roça a racionalidade. Mas aprofunda o sentimento de injustiça, fomenta a luta de classes, gera ódios sociais. A sensação, na maioria das populações do mundo capitalista, é a de que não existe de facto igualdade de direitos. E esta desigualdade é sentida também quanto ao mundo dos offshores. O trabalhador do salário mínimo não sente, legitimamente, qualquer igualdade de direitos, quando o dono da sua empresa ganha milhões de vezes mais o seu salário e que coloca esse rendimento fora da alçada do Estado e da máquina fiscal a que o trabalhador não consegue escapar. Também é por aqui que o capitalismo morre. Porque as pessoas podem começar a preferir o Estado à liberdade. Sobretudo quando a liberdade é exercida desta forma.

Se o socialismo julga que os homens são iguais nas suas necessidades e que, por isso mesmo, tudo lhes deve ser concedido na exacta medida das suas necessidades (o que, na verdade e segundo os casos conhecidos, acaba sempre em cenários de miséria generalizada), o liberalismo puro julga-os iguais em direitos. É disto que se trata, no fundo. E é verdade que os homens devem ser iguais em direitos e em oportunidades de forma a que tenham todos os mesmos meios de ascender social e materialmente. Mas esta igualdade e esta ascensão precisam de um centro moral. Se as escolhas devem ser feitas pelos indivíduos e não pelo Estado, na medida em que são os indivíduos que determinam mais acertadamente o que é melhor para as suas próprias vidas, não se descure que essas escolhas devem ser pautadas por padrões morais. O homem já egoísta por natureza. É esse egoísmo que nos permite alcançar uma série de resultados positivos na nossa vida. Mas querer transformar esse egoísmo natural no padrão (a)moral que prevalece é que me parece profundamente errado. O capitalismo salva-se por aí. Não é pela anarquia, pelo salve-se quem puder. É pela moralização do dinheiro. Pela transparência. E, acima de tudo, por uma direita política que defenda as liberdades, o capitalismo e o mercado, mas que também se bata pela moral, pela transparência e que defenda uma coisa tão simples: só porque se pode fazer, não quer dizer que seja legítimo.