Eu sei que as cidades não se descaracterizam. Evoluem. Claro que evoluem. A pequena Lisboa do Eça já não é a pequena Lisboa do Eça. E é claro que compreendo o mercado. Que diabo, claro que compreendo, que o dinheiro é escasso. Não há aqui ironia. Eu compreendo tudo. E dá-me jeito. Claro que dá. E é claro que uma multinacional espanhola que vende calças de ganga baratas e produzidas-numa-cave-qualquer-do-Bangladesh-por-crianças-que-podiam-ser-meus-filhos-a-ganhar-meio-cêntimo-por-dia pode perfeitamente estar numa loja do Chiado. Eu gosto de calças de ganga baratas. E claro que eu gosto das coisas modernaças. Trendy, claro. E aceito que os barbeiros tenham deixado de ser senhores e que sejam agora putos hipster cheios de estilo, com penteados retro. Eu aceito tudo. Deixo-me ir, levado pela civilização, pelo progresso, pelo futuro. Eu, um daqueles lugares comuns que acha que todos os momentos da sua vida deviam ter a companhia de uma banda sonora, tenho o problema de ouvir a banda-orquestra do Zach Condon quase todos os dias. Porque sinto naquilo que ouço um punhado de jovens-que-são-na-realidade-velhos-melancólicos a falar para um congénere seu, na contramão do mundo. Porque ouço em Beirut os abandonos e os reencontros, a esperança e a dúvida, o passado e o presente, as lembranças e os desejos. Um avanço e recuo nostálgico, a pressa de viver e a vontade de o fazer devagar. Eu sou esse lugar comum que percebe e aceita o McDonald’s ao lado da Brasileira, num sítio onde já esteve uma barbearia centenária e onde cortei o cabelo meia dúzia de vezes. Sou esse lugar comum que gosta das calças baratas de uma multinacional qualquer, em sítios onde já houve lojas familiares. Sou esse lugar comum que gosta de espaços modernos com gosto, mas que não os trocava por um clássico-ainda-que-todo-badalhoco. Percebo porque me dá jeito, porque é a vida. Mas não me peçam para gostar. Não enquanto os Beirut tocarem no meu antiquado-ainda-que-aos-meus-olhos-moderníssimo leitor de MP3.
Beirut e o McDonald’s do Chiado
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Não confunda lugar comum com falta de gosto. Isso é só em Portugal.
No mundo civilizado – tomem-se Londres ou Paris como ecxemplo – é um lugar comum que lojas como aquela barbearia continuem.