(Se é que se pode dizer que é verdade) é verdade que à nossa volta a única verdade absoluta que existe, no período pós-moderno, é que não há verdades absolutas. Os pontos de vista são o critério a ter em conta, ainda que sejam permanentemente moldados em função das percepções e das considerações individuais de cada um. Tudo é interpretação, ponto de vista, opinião. E, como tal, tudo é refutável. A moralidade é variável em função da própria concepção de bem e mal de cada um. Tudo é aceitável – mesmo atentados ou violações de direitos humanos. A sociedade adoptou esta visão como cultura hegemónica e recusa a existência de centros morais. O relativismo moral, enquanto posição social contra-ética, impõe aquilo a que vamos assistindo por toda a parte, das colunas dos jornais à rotina do quotidiano: o julgamento moral é sempre variável consoante as entidades que estejam adstritas a determinado facto; os indivíduos, a sua classe social, a sua cultura e educação são factores de distinção para a apreciação do julgamento moral; o bem e o mal são valores relativos, a avaliar em função da percepção de cada indivíduo. A relevância absoluta do indivíduo sobre tudo, sobre a comunidade, sobre a família, sobre a religião, sobre a pátria, é fundamental. É evidente que o indivíduo faz escolhas e decide sobre factos da sua vida – somos dotados de livre-arbítrio. Mas o que o relativismo moral pós-moderno declara é que essas escolhas são livres até de quaisquer consequências – na medida em que todas são legítimas. Não se ensina a distinção entre o bem e o mal. Não se explica que o indivíduo pode agir desta ou daquela maneira e que cada uma delas terá uma consequência, melhor ou pior, consoante o seu acto e a sua decisão. É por isso que, por exemplo, é hoje aceitável que alguém diga que pode fazer o que bem entende com o próprio corpo, na medida em que este é sua pertença – o que legitima o aborto, a eutanásia, o suicídio, a amputação. Repare-se, noutro exemplo bem diferente, na perspectiva que venceu, a propósito do fim dos exames no fim do 1.º Ciclo, recordando as palavras de Catarina Martins, quando afirmou que preferia ser operada por um cirurgião que, em vez de ter sido avaliado, tivesse sido feliz na escola. É esta premissa que serve o ‘eduquês’ que trata o professor não como professor, educador e transmissor de conhecimento e de ética, mas como um ser passivo a quem compete ser compreensivo e tolerante para com as vontades individuais dos alunos, que têm como competência exercer a sua felicidade na sala de aula. Ou, olhando ainda para outro exemplo, se eu decidir deliberadamente matar alguém, a verdade objectiva diz-me que eu pratiquei um acto cruel e que devo ser castigado por isso. A relatividade explica-me que eu pratiquei um acto livre que pode ser explicado em função das circunstâncias. Posso ter assassinado alguém por ser pobre e esse alguém ser muito rico; posso ter assassinado uma mulher porque acredito numa religião que entende que todas as mulheres devem ser assassinadas. ‘Não matarás’ significa hoje ‘se achares por bem, mata; se achares por mal, deixa-te estar’. Os dez mandamentos tornaram-se em dez sugestões em permanente avaliação individual. As escolhas éticas passam a ser meras escolhas amorais e as palavras utilizadas para as descrever são simples palavras, sem significado e sem substância. A defesa de posições deixa de o ser, para passar a ser um banal arranjo formal de opiniões, interpretações e perspectivas. A fundamentação, a discussão, o debate, passam a ser altamente dispensáveis, na medida em que a decisão final de cada um está tomada e, independentemente de que se trate, é tão legítima como qualquer outra.
Daí que outra das inevitabilidades do relativismo pós-moderno seja o cinismo – na sua dimensão de acto daquele que se divorcia das normas sociais ou de uma moral previamente estabelecida – na medida em que decorre imediatamente da premissa que diz que tudo é interpretação e opinião. Ora, se tudo é interpretação, para quê acreditar em algo que é facilmente destruído por uma interpretação contrária? Para quê acreditar em Deus, se alguém se presta a dizer que nunca O viu e que, nunca o tendo visto, não é legítimo nem possível demonstrar a existência d’Ele? Para quê demonstrar amor à pátria, se alguém depressa nos diz que as fronteiras se alteram muitas vezes ao longo da história, que os povos migram, pelo que o amor a um país é ridículo, na medida em que esse mesmo país pode não existir daqui a anos? Daqui à vertente cómica é um instante. Para a sociedade ocidental pós-moderna, a crença em algo maior que o próprio indivíduo é critério de comicidade. Um católico é um louco. Um evangélico é um idiota. Um patriota é um ultrapassado. Já o facto de se recorrer à expressão shakespeariana “nada em si é bom ou mau, tudo depende daquilo que pensamos” é legítimo – mesmo que a frase tenha saído de Hamlet, em alto estado de insanidade.
Aqui chegados, é fácil compreender que aquele que acredita em algo e que o defende sem complexos é um potencial alvo de chacota pública – quando não de ataques violentos. Ou, como dizia o Papa Bento XVI, quando o relativismo moral se absolutiza em nome da tolerância, os direitos básicos relativizam-se e abre-se a porta a um novo totalitarismo. É por isso que, nesta fase da história, é fundamental acreditar. Em qualquer coisa. E defendê-la com coragem. Sob pena de começarmos a ir à missa clandestinamente. Ou de termos vergonha de assumir em público que rezamos. Ou de arrogarmos algum tipo de patriotismo. De reconhecer que há coisas maiores que nós próprios, que nós não somos o centro de todas as decisões e que existem verdades objectivas. Que existem centros morais. Que o bem e o mal são claros e não conceitos adaptáveis em função da necessidade ou da liberdade do indivíduo. E por aí fora. Ser rebelde é, em 2016, acreditar. Estranhos tempos, estes.
“If relativism signifies contempt for fixed categories and those who claim to be the bearers of objective immortal truth, then there is nothing more relativistic than Fascist attitudes and activity. From the fact that all ideologies are of equal value, we Fascists conclude that we have the right to create our own ideology and to enforce it with all the energy of which we are capable.”
― Benito Mussolini (https://www.goodreads.com/author/show/221166.Benito_Mussolini)