A avaliar pelos comentários que recebi, parece-me que ontem não fui claro. Como não gosto de ter essa sensação, aqui fica uma tentativa de esclarecimento.
1. Eu percebi que a Ana Garcia Martins se limitou a constatar um facto: as mulheres (e os homens, já agora) têm total liberdade de querer ou não querer ter filhos. Não neguei essa evidência. Pelo contrário, até a reforcei. Mas também me parece que é preciso ir além do óbvio. A questão não é se as pessoas podem ou não querer ter filhos. Claro que podem. O debate deve ser sobre os motivos que levam a que uma grande fatia da nova geração opte por não ter filhos. E sobre esse assunto ninguém parece ter respostas, preferindo discutir a questão da liberdade de querer ter filhos ou não.
2. Se quiserem substituir a palavra “egoísmo” por “egocentrismo” têm-me do vosso lado. Não se trata de ser egoísta em relação a filhos que ainda não nasceram. Trata-se de colocar o ego, o “eu”, acima de todos os outros interesses. Incluindo os de terceiros.
3. Também me parece evidente que alguém que afirma orgulhosamente que “detesta crianças” sofre de algum problema, nem que seja de formação. São livres de odiar crianças? São. Mas isso afecta valores de comunidade em que acredito e também sou livre de achar que isso é uma barbaridade.
4. Porém, é um facto que há pessoas que não gostam de crianças – e que, por isso mesmo, mais vale que não as tenham. Claro. Mas, mais uma vez, a minha pergunta é esta: porquê? Por que motivo há hoje, numa geração que por acaso é a minha, uma aversão mais aguda em relação ao sacrifício que significa na vida de uma pessoa o facto de ter um filho?
5. Por que motivo há hoje uma tendência significativa de pessoas que não sentem o “apelo da maternidade ou da paternidade”? Mais uma vez: são livres de não o sentirem. Mas continuamos sem discutir as razões dessa escolha.
6. Também não acho que uma mulher ou um homem sejam heróis porque resolveram ser mães ou pais. Ser pai ou mãe não é um acto de heroísmo. É um decisão. Como é uma decisão não o ser. Ponto final.
7. Quando falei em “sociedade organizada” fi-lo de forma abstracta. Parece-me claro que só viu na expressão, no contexto da frase, uma alusão ao Salazarismo que vê o Salazar em todo o lado.
8. Quando disse que o meu pai sustentava, com 40 contos de rendimento, uma mulher, um filho e uma renda de casa que lhe roubava metade desse rendimento, não estava a defender nenhum modelo de sociedade em que o homem trabalha e a mulher é uma escrava do lar. A minha mãe arranjou trabalho pouco tempo depois. Novamente: alguém devia parar de ver o Salazar em todas as esquinas.
9. Claro que para não ter filhos, como para muitas outras coisas, todos os motivos são válidos. Não querer ter estrias na barriga, por exemplo, é um motivo válido como outro qualquer. Mas repito-me: por que motivo há hoje uma tendência significativa de pessoas que prefere uma barriga lisa ao sacrifício que é ter um filho e educá-lo?
10. Para que fique claro: eu não disse que a Ana Garcia Martins, o ser humano, era imbecil. Nem sequer disse que a Pipoca Mais Doce, a personagem, era imbecil. Disse, e mantenho, que a Pipoca Mais Doce é um ícone de um determinado tipo de mulher moderna e cosmopolita. E esta, sim, acho que é um bocadinho imbecil. Ou imbecilizada.
11. Se fosse preciso passarmos pelas experiências para falarmos sobre os temas, era bom que toda a gente passasse um ano a viver na rua antes de falar de pobreza, por exemplo. Não me excluí da geração que critico, mesmo que casar e ter filhos esteja nos meus planos para este ano.
12. Claro que ter filhos é uma despesa. Mas não é a despesa que muitos pais fazem crer. É tudo uma questão de opções. Umas são mais caras, outras mais baratas. E com todas se perde e se ganha.
13. Vou repetir-me pela enésima vez: eu não nego a liberdade de ter ou não ter filhos. Mas continuo a não perceber por que motivo hoje se considera que as pessoas não estão preparadas para os ter, que razão leva uma grande parte de pessoas a odiar crianças, etc.
14. Esta liberdade é individual. Claro. Mas não é um assunto que diga respeito apenas a cada um de nós. É um assunto colectivo. Da comunidade em que nos inserimos. E a renovação das gerações, a natalidade, é um problema sério com que nos confrontamos. Por isso, sim, eu tenho alguma coisa a ver com essas decisões individuais. Não as quero condicionar. Mas quero perceber o que as leva a optar por uma coisa (não ter filhos) em vez da outra (tê-los). E até agora ninguém (com a excepção, talvez do Bruno Vieira Amaral e da Susana Almeida, que abordaram alguns pontos interessantes sobre isto) me soube ajudar.
Se tivesse casado agora não ia ter filhos por causa da caca das cadeiras nos automóveis.
O que, na essência, distingue uma sociedade desenvolvida de uma sociedade atrasada é a capacidade organizativa.
Onde está o Salazarismo?