A geração mais bem preparada de sempre

Há umas semanas, num restaurante de Lisboa, tive o prazer de ter uma família numa mesa ao lado que não me tem saído da memória. Um casal, um filho e a sogra. A criança, de 5 ou 6 anos, passou o jantar colado a um iPad, a jogar uma porcaria qualquer. Não pousou por uma vez o aparelho, nem enquanto comia. Os pais e a avó não lhe dirigiram a palavra uma única vez. Reinou a harmonia familiar. Não é um caso isolado. Cenários deste género fazem parte do nosso quotidiano. E crianças como aquela são hoje a nossa realidade. Um iPad nas mãos e não me aborreças.

Este é um facto. Há uma geração de pais que está a criar monstrinhos alienados. É a geração que é incapaz de lidar com o sacrifício, com o sentido de dever, com a responsabilidade familiar, porque é fruto de uma época de paz e de prosperidade, porque é fruto da lógica de filho único e de infantocentrismo, porque foi moldada para o sucesso profissional e não para o compromisso familiar. Os novos pais não toleram crianças. Muito menos toleram crianças que se mexam. Ora, novidade das novidades, as crianças mexem-se. E falam. Muito. E gritam. E choram. E fazem birras. É assim desde que existe humanidade. O problema é que antes destes novos tempos, sempre que uma criança ultrapassava os limites da boa educação, do respeito e do sossego de terceiros, levava uma palmada. Bastava um olhar. Hoje damos-lhes iPads.

Quando uma criança deve ouvir um “não”, hoje recebe um “sim” e qualquer coisa que a entretenha. Porque tudo é mais importante que educá-la para que possamos ter um ser humano decente em casa. Não há regras, porque as regras dão trabalho a implementar. Exigem paciência e nós não temos paciência. Podemos ter paciência para tudo. Para jantar fora, para trabalhar até à meia-noite, para ir de férias com os amigos, para jantaradas e noites durante a semana, para desportos radicais, para ir a todos os sítios fashion, gourmet e fancy da cidade, para estar no Facebook, no Twitter, no Instagram, no Whatsapp. Mas não temos paciência para chegar a casa e perder uma hora do nosso tempo a brincar com uma criança. Não temos paciência para ouvir os miúdos porque os miúdos, claro está, só dizem asneiras, não são racionais e não medem as palavras. E esperamos que eles cresçam sozinhos. Ou com uma caixa de jogos didáticos, para “aprenderem enquanto brincam”, ou com filmes que os fazem “assimilar conceitos”. Não os levamos para a rua porque a rua é um perigo. Há um mar de pedófilos nos parques. E os parques têm folhas e pólen. E o pólen faz mal às alergias e ao sistema respiratório. Não lhes dizemos “não”. As crianças devem exercer a sua autonomia, a sua liberdade, como se um selvagem alguma vez fosse bom. Também não lhes podemos bater. As crianças têm direito à privação da palmada, porque nós vivemos num mundo pacífico, onde as pessoas se amam e se respeitam e a palmada incentiva o ódio e a invasão de países árabes, como se sabe.

Nós, a geração “mais bem preparada de sempre”, temos a maior taxa de alfabetização de sempre. Nunca o mundo teve tantos diplomados como agora. Somos esplêndidos. Ensinaram-nos desde pequeninos que somos esplêndidos. Disseram-nos que tínhamos direito a ter tudo e queremos ter tudo. E disseram-nos que os sacrifícios não eram necessários. Estava ali tudo. E quando faltasse alguma coisa, ainda lá estavam os pais, para libertar algum dinheirito, para comprar um carro novo, para mobilar a casa, para uma beijoca, para mais um computador portátil. E agora temos filhos. Filhos, imagine-se! Uma geração de filhos que está a chegar, que ainda está nas barrigas ou que entrou agora para a escola. Uma geração de filhos que se enfrasca em anti-depressivos e em tecnologia para explicar à geração dos próprios pais esta coisa tão simples: a “geração mais bem preparada de sempre” é a geração mais incapaz de constituir família e de educar uma criança dos últimos séculos. E está a criar uma nova geração de pequenos e selvagens tiranos.

5 Comments

  1. ainda

    Os pais vão-se lixar com F quando precisarem de jogar com a sua vida. O filhote vai fazer-lhes um manguito.

    Toda a razão: a palmada ou a estalada foram substituídas pelo I…qq coisa

    Quando a criança — o “jovem” de 29 anos — ficar sem sustento por morte ou invalidez de quem o sustentava, o que é que vai fazer? Merda!

    Numa época que se autoproclama racional, nunca se alienou tanto o que está no coração, no amor, preferindo-se a irracionalidade.

    A geração mais bem preparada é a que vai correr qualquer caca de corrida, vestida a preceito como os palhaços da minha infância. E as autoridades (sem autoridade) fecham o trânsito no dia, sem aviso; os palhaços, de reflector verde ou amarelo, nem sabem como um cidadão se safa…

  2. João Lopes Aleixo

    Pois é, educar dá trabalho e a maior parte dos pais não se quer dar ao trabalho. É mais fácil dar um iPad do que estar a ter o trabalho de repreender e educar, dá menos trabalho. 
    Por outro lado imperam filosofias bacocas relativas à educação da criança, como a autonomia da criança, de que bater traumatiza, entre outras pérolas. Nunca vi tanta criança a precisar de ir ao psicólogo, a serem classificadas como hiperactivas… E tanta criança triste. 
    Estão a criar crianças mimadas, fúteis, com os valores todos subvertidos, egocêntricos, inaptos para viver em sociedade, incapazes de respeitar os outros, …
    Sinceramente, por vezes apetece espancar determinados pais pela sua inépcia, pelo mal que estão a fazer aos seus filhos e à sociedade. 
    Eu, embora pertença “a geração mais bem preparada de sempre” fujo à norma actual na educação dos meus filhos. Por isso sou olhado de lado, considerado um troglodita, old school, a par de outros adjectivos igualmente abonatórios. Estou certo que o futuro provará que tenho razão… Até agora não me posso queixar. 

  3. nh

    Escreve-se didácticos e não “didáticos”. Ou é um lapso ou, se é “acordês” acrescente aos problemas desta geração – e aos seus –  o permitir que qualquer um dê ordens contra a Lei – por um “acordo” que não é, nem está em vigor  – nem é necessário. Uma geração que engole que o acordismo é por causa da “evolução” da língua e lê em inglês – que se mantém igualinho ao que há 200 ou 300 anos, sem se perguntar a razão pela qual o inglês parece não “evoluir” e o brasil, com a sua ortografia  ter 75% de analfabetos (38% deles, funcionais, nas universidades).

  4. Carlos Sousa

    Por acaso discordo da ideia que se pretende passar. Acho que esta geração é muito mais dedicada aos filhos do que foi a dos meus pais e as antecedentes. Hoje vejo muitos pais da minha geração (30/40 anos) a fazer coisas com os filhos, que nenhum pais fazia há 40 ou 50 anos atrás. Não sei se tem conhecimento, mas antes era habitual as crianças nem sequer se sentarem á mesa com os pais até certa idade. De qualquer modo é uma injusta generalização, visto que há muitas realidades. 

  5. João Vieira

    Nunca li um texto que exemplificasse o quão retrogrado é o nosso país como este.
    Estes velhos não conseguem aceitar que o mundo está a evoluir e quando vêem estes aparelhos, parece que entram em parafuso.

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