Que desilusão .
Vamos ter um governo minoritário que emerge de uma derrota eleitoral.
O Presidente preferiu um governo que não da garantias a um governo de gestão.
Só falta ver Marisa ser empossada como Presidente da República e Pedroso como ministro da Juventude.
Não há dúvida a República é um sistema ultrapassado.
A partir de hoje democracia é o que cada um quiser.
É de facto um dos momentos mais tristes da nossa história democrática. Mas é preciso ver mais além do que o curto-prazo. A encruzilhada que Portugal vive é estrutural e pode não a conseguir ultrapassar a bem. É bem possível que as próximas eleições produzam um novo impasse, porque a sociedade portuguesa está profundamente dividida e desta vez não existe a perspectiva de “desenvolvimento” rápido que a adesão à CEE proporcionou a seguir ao fim do Império Português. Não há, nem vai haver dinheiro, e em Portugal, país de parcos recursos para a gente que tem, já se sabe que vale tudo menos tirar olhos…
Francamente, mesmo com maioria absoluta, o que conseguiria fazer o PàF? Não consegue fazer a reforma do Estado sem o PS; não consegue reduzir a despesa estrutural do Estado sem uma revisão constitucional, para o que também precisa do PS; já não pode aumentar mais os impostos. Como é que se consegue tornar o país atractivo para o investimento estrangeiro sem que Portugal seja visto como um país estável e cumpridor dos seus compromissos, que não é? Como é que se consegue diminuir o défice estrutural para os níveis exigidos pelo Tratado Orçamental nestas condições?
O PS é a última oportunidade deste regime, mas parte de dois pressupostos irrealistas: em primeiro lugar, que Bruxelas vai deixar que a redução da dívida seja mais lenta (mesmo que deixasse, o problema de fundo mantinha-se), em segundo lugar, que vai conseguir aumentar o crescimento económico (embora a forma como o faz possa ser a “morte do artista”…). Falhando o PS, o regime bate na trave. A partir daí das duas uma: ou PSD, o PS e o CDS se unem para reformar o regime, mesmo que aguentando vários anos em “austeridade” (há países que conscientemente fazem essa escolha política, como a Itália), ou o regime é irreformável e Portugal tem de sair do euro.
Outras verdades inconvenientes. Para a direita acaba por ser “melhor” ter saído do poder agora, porque o pequeno crescimento que Portugal estava a ter é insustentável. A Europa já está outra vez a crescer menos, logo a via das exportações vai perder “gás”. Para Angola e para o Brasil nem vale a pena olhar. A China é o que se vê. Pela via do mercado interno era preciso que a Europa nos subsidiasse, e os alemães não estão mais para aí virados. Por isso, mesmo que o PàF tivesse maioria absoluta, logo a seguir ia cair-lhe tudo em cima, sem poder mexer uma palha. Assim, é o PS como partido símbolo deste regime que vai ter de arcar com a situação, pensando que vai ter uma retoma para “cavalgar”. Nada mais enganador.
Daqui a uns meses veremos quem é que ganhou e o quê, até pela reacção da UE e dos mercados. É certo que para ambos Portugal claramente não é a Grécia, mas falta saber o que é que isso quer dizer. Ou sabem que Portugal não vai variar muito e então não há grandes reacções, ou então vão-nos deixar cair…
Marisa Matias? Só se for para limpa penas do próximo PR. E o próximo PR será, sem qualquer sombra de dúvida, o “nosso 44”. As pernas da Belém, do Nóvoa, do “nosso novo primeiro” e mesmo do comentador profissional Marcelo, até tremem, só de ouvir falar na hipótese, mais do que provável, do 44 se candidatar. Uns, porque conhecem de que farinha se fazem os portugueses nados e amestrados pelos capitães de abril, os outros, porque temem ser denunciados pelas patifarias em que participaram.
A composição do “governo” é má de mais. Estão ali a pagar-se todos os favores: o Sóares Jr. na “cóltura” pela famí(g)lia Soares, o Azeredo Lopes pela ERC (falta um tacho para a Estrela) na Defesa (os militares devem ter um “respeito” por esta nomeação…), o Caldeira Cabral a mostrar finalmente porque é que andou pelas televisões nestes quatro anos, e a tralha socrática toda. É o PS do costume, o estrebuchar da III República. Que passe depressa…