Trainspotting

Por vezes, sigo cronistas de jornais falidos, cuja subsistência – mergitur nec fluctuat – se deve apenas e tão só ao poderio de arremesso propagandista, ora silenciador do pensamento livre, que grupúsculos provincianos acometidos de uma fome insaciável pelo ouro alheio lhes permitem e mandam flectir, não vá desvelar-se o rendilhado da ilusão tão bem urdida ao longo das últimas quatro décadas. 

 

Leonídio Paulo Ferreira e Ferreira Fernandes são dois desses cronistas. Este, vendido ao socratismo pela proverbial taça de lentilhas, e aquele, profissional excelso que nunca escreve um passo em falso; a exemplo, esta crónica recente, deixando abertas tríplices (ou mais) interpretações para os seus parágrafozinhos pedagogicamente enunciados, por forma a jamais colocar-se na posição de acuado pelos factos – salvo quando aí mesmo se coloca, por fervor ou pelo tardio da hora, situação na qual remete então o ónus da crítica para o Centurião das Calendas. 

 

Veja-se então a que amorfa (não sendo aleivosa, porque um jornalista relata, não sugere, nem opina e muito menos aponta caminhos) cefalorreia me reporto:

 

A natureza da ameaça remete para outra tese de Fernando Reinares, pensada para Espanha mas aplicável a Portugal, e que tem que ver com a participação em ações militares no mundo islâmico. Afirmou o perito, num dos frequentes artigos no El País, que tem sido dado por certo que foi o protagonismo do primeiro-ministro José Maria Aznar na cimeira das Lajes (que decidiu em 2003 a guerra no Iraque) a pôr a Espanha na mira dos jihadistas, mas que na realidade desde o envio de tropas para o Afeganistão já Bin Laden elegera o país para retaliar.

 

Tradução: se deixarmos os fundamentalistas islâmicos em paz, eles quedar-se-ão sossegados dentro das fronteiras que actualmente delimitam, politicamente, os Estados onde vigora a sua teocrática e demencial lei. Mas se no mesmo artigo LPF diz que o islão, expansionista e “glorioso” por inerência e herança, não terá repouso enquanto não reclamar o Al-Andalus… bom, dissonância cognitiva típica da esquerda caviar para quem os ricos são sempre os outros e, por conseguinte, os maus são sempre os bons. Adiante.

 

Ora hoje, depois dos atentados de Paris, em que o Estado Islâmico assume estar a vingar-se dos bombardeamentos franceses na Síria, é evidente que a maior vulnerabilidade ao terrorismo decorre da atitude bélica em relação ao jihadismo.

 

Confere, portanto. Eles só nos matam porque nós os matamos, como na lenga-lenga do ovo e da galinha, que apetece invocar direita às trombas dos maluquinhos que por aí se reproduzem e para quem uma dádiva de mil chibatadas na dorsal ainda saberia a pouco, por causa do Trisavô Serafim, esclavagista nos idos de 1712, a quem hoje 86.550 esclavo-descendentes só não exigem retribuição perpétua porque o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem está nas mãos de especuladores. Segue daqui que no caso de cessarmos os bombardeamentos, repressão e quiçá a mais elementar auto-defesa, seríamos deixados em paz. Como em Israel. Leonídio sai muito de casa mas é sempre de avião. Adiante. 

 

É, portanto, Portugal um possível alvo do jihadismo? Sim, mas mais por pertencer a essas União Europeia e NATO que se opõem ao Estado Islâmico do que por ter um longínquo passado árabe.

 

E cá está a armadilha. O cronista não sugere que saiamos da NATO; tão pouco oferece que submetamos a geografia a caprichos progressistas e mudemos Portugal para outro continente. E se em dias pares a pertença à UE é de louvar porquanto garante a inserção, no 1º mundo, dos desgraçadinhos que de outra forma jamais sairiam das faldas piscatórias onde cresceram, já em dias ímpares fica o leitor, ora besta massificada e sociocéfala, na dúvida sobre o que faria LPF se posto aos comandos da nau.

 

Criticar torna-se assim, por qualquer face do prisma, um acto de má-fé. Mas ficar em silêncio é abominável, porque legitima todas as possíveis implicações desta peça ideológica, cada uma delas pior do que a outra. 

 

 

2 Comments

  1. Anónimo

    Há tanta parasitagem a dizer que “não há alternativa”, como se todas as canalhices que fossem constitucionais tivessem de ser permitidas sem que nos questionássemos acerca dos seus efeitos, e sem qualquer oposição da sociedade civil que não vai comer à mesa do orçamento.
    Cavaco Silva é um Presidente só… a defender os interesses de Portugal. Que VERGONHA!
    Que Deus lhe dê forças e clarividência para continuar a aguentar neste pântano que é a política portuguesa. E que continue a defender Portugal contra a vontade dos merdia e dos politiqueiros, porque NÃO está só!

  2. João Pedro

    Li o artigo e não vi, explicita ou implicitamente, qualquer defesa da ideia de se parar com a guerra ao terrorismo. Vejo apenas enumeração dos pretextos usados pelos jiadistas, que são reais e que não devem ser camuflados.

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