Animais somos nós

Segundo a empresa alemã GFK, num estudo publicado no passado mês de Outubro, existem em Portugal cerca de 6,7 milhões de animais de estimação. Para cuidar desta população, têm aumentado brutalmente as despesas com veterinários, alimentação e higiene animal. Significa isto que, nas nossas casas, há mais animais de estimação que crianças. Joaquim Moura da Silva, empresário do sector da importação e venda de animais, resumia, já em Janeiro de 2014, esta tendência: “as pessoas idosas estão mais isoladas e o cachorro e o gato são o substituto do filho e do neto”. Mesmo no super populoso Brasil, segundo dados de Junho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, as famílias já estão a cuidar de 52 milhões de animais contra 45 milhões de crianças. Ainda que no caso do Brasil a tendência não seja, para já, alarmante, o mesmo não se pode dizer do caso português e dos restantes países europeus e da América do Norte.

A vozearia modernaça ouve estes dados e lança foguetes. Somos tão dóceis, tão afáveis, gostamos tanto do cachorro e do gatinho e da latinha de Whiskas. Filhos? Para quê? Os filhos, ora essa, são restrições ao desenvolvimento da carreira e fenómenos potenciadores do crescimento do ventre. O culto moderno da beleza, do corpo escultural, não se alimenta de filhos. Compremos antes um gato.

E os velhos? Os velhos, como se sabe, têm vários problemas. Já não dizem coisa com coisa, babam-se e cheiram a xixi. Os que ainda mantêm a razão, os que não se babam e não cheiram a urina, não deixam de ser velhos. E os velhos não são bonitos, não são apresentáveis. Não se mostra um móvel de sala cheio de rendilhados às visitas, mostra-se uma estante do Ikea. Os filhos têm cada vez menos paciência para os pais e para os avós. Os velhos que arranjem um gatinho, um cachorro e que durmam com eles, mergulhados numa caminha feita urinol.

Nós não queremos saber. Somos jovens, modernos, arejados, vivaços, temos o mundo à nossa espera, fazemos coisas divertidíssimas. Um filho só vem atrapalhar os projectos e os sonhos – quando não nos atrapalha até a preguiça. Troque-se, então, o filho por um cão. Ou por um gato, melhor ainda, que defeca no caixotinho e nem chateia. E os velhos que procurem afectos no Farrusco, que nós temos mais que fazer. Coisas giríssimas que fazer, aliás.

Temos mais animais de estimação que filhos e há quem fique contente com isto. Como se os animais nos pagassem a Segurança Social. E, mais importante, como se os animais fossem capazes de substituir filhos, pais ou avós. Como se um canil fosse capaz de substituir uma família. Como se a vida de um cão valesse mais que a vida de uma pessoa.

Não me interpretem mal: eu adoro animais, conheço pessoas que não podem ter filhos e também não morro de amores pelo cheiro a xixi. Até percebo que alguém não queira ter filhos. Percebo e aceito todas as opções. Não aceito é que isto seja um sinal de alegria. Percebo e aceito todas as opções. Mas que isto não bate nada certo, não.

6 Comments

  1. Nuno Castelo-Branco

    Cheiro a xixi? Dependerá sempre das vezes que  o dono se resolva ao colossal frete de limpar o caixote. Tenho duas gatas e que eu dê conta, a minha casa não cheira a xixi. 

    * E pelos padrões europeus, já sou velho. 

  2. isa

    No mundo de hoje, numa civilização ocidental em pleno colapso, onde a taxa de natalidade irá aumentar, definitivamente, com a ajuda dos migrantes, culturas onde a preguiça de fazer filhos não se manifesta, aliás, basta ver as estatísticas ou seja, factos, para quem as quiser ver (ou onde a lei, nos países ocidentais, permite fazer esse estudo das estatísticas), ver com os olhos da racionalidade e não, com o coração ou, qualquer, outra coisa parecida. 
    Estamos, apenas, a assistir ao resultado, dos egoísmos individualistas, ao culto do eu e à, simples fuga, ao trabalho que dá criar um filho, portanto, ninguém entendeu que, dois filhos manteria a população ao mesmo nível, um reduziria a metade e, nenhum, haverá espaço para outra cultura vir preencher o espaço vazio, ora se, sem apoios, facilmente chegam à meia dúzia, o ocidente será o paraíso, com subsídios de desemprego e abonos de família, com uma religião que proíbe qualquer outro tipo de divertimento… suponho que aproveitarão, bem, toda a vida fértil das mulheres, enquanto aos outros, restam os animais de estimação e,  quem sabe, se não será, não só pela companhia mas, também, uma segurança para um futuro cada vez mais incerto… gato como coelho à caçadora, cão como cabritinho assado e uns passarinhos fritos… à moda antiga, como no tempo que ainda eram vendidos nas tascas e nas cervejarias…

    Quanto ao título, tem toda a razão, assim como os animais que não programam o futuro, apenas vivem o hoje e a satisfação imediata… mais animais do que isto seria impossível e, pior… animais “cegos” que caminham, alegremente, para a extinção das suas próprias culturas e vão ter de se adaptar a outras maiorias, com outras regras, leis e religiões…

    Tanta liberdade de poder escolher tanta coisa, para depois, acabarmos sem nenhuma. Uma notícia de hoje, nem sequer é notícia “Merkel´s Biggest Challenge Is Syrians Unwilling to Integrate” (Bloomberg), essa falta de vontade de integração dos refugiados, há anos que tem criado “ilhas terrestres”, onde os naturais têm dificuldade em entrar e, onde a polícia, tenta nem passar, portanto, bastaria a experiência para saber que seria um problema e, um aumento do número das No Go Zones que já estão espalhadas em vários países europeus, claro que, pela natalidade e este afluxo de proporções bíblicas, um dia, serão os antigos europeus a precisar de menos espaço, coisas que pertencerão ao futuro e pouco importarão a Merkel que nem sequer tem filhos.

    Hoje, quando ainda há, quem conteste a obrigatoriedade ou não, do ensino religioso nas escolas públicas e, termos a oportunidade de poder escolher, deve faltar pouco, talvez uma meia dúzia de anos, para uma outra maioria, poder vir a decidir a obrigação de frequentar… as aulas de leitura do Corão… uma, daquelas pequenas coisas que ninguém se lembra mas, muito, próprias dos animais que não pensam no médio, nem no longo prazo. Claro que, não posso deixar de mencionar, esta nova histeria de, imediatamente, chamar nomes a quem queira racionalizar os problemas, com uma certa antecedência e, quando ouço, repetidamente, por causa dos ataques terroristas,  os políticos falarem da defesa da nossa Liberdade e dos Nossos Valores, é prova mais que provada que, de animais, já estamos a entrar no grupo das bestas… os destinados… ao transporte de cargas.

    • Anónimo

      E as pessoas que não gostam de crianças, deviam ter filhos porque sim? Ou por acaso somos todos obrigados a gostar de miudagem? 

      • isa

        Todas as espécies, deste Planeta, conseguem ver, mais além, do que a sua simples existência individual, por isso levarem tão a sério a sua reprodução…  mas, tem razão numa coisa, pena que, quem o pariu, não tivesse a mesma opinião que a sua, seria menos um que, simplesmente, só veio a este mundo para ocupar espaço e consumir recursos.

        Como espécie, a humana, começaria, a nem fazer sentido se, não fossem, outras culturas, estarem preocupadas com a sua própria continuação porque, os que apregoam ter valores ocidentais XPTO, fica provado que, afinal, chegaram ao ponto, dos seus valores, apenas se resumirem à “farra” do hoje e, só é pena que todos, acabemos por pagar a fatura. Como pode alguém, querer preservar os seus valores culturais ou até a preservar a Natureza ou fazer algo de bom pelo Futuro deste Planeta, com uma mentalidade egoísta, mesquinha que chama às futuras gerações de miudagem. Se isto de viver, já se resume, apenas, ao que se gosta ou não se gosta, devemos estar, mesmo, a chegar ao ponto de ser, apenas, mais uma civilização em vias de extinção. Assim, estará, mais de acordo, com a sua vontade e, realmente, com esse tipo de mentalidade, ainda se admiram de existir terroristas… outros que só fazem, apenas, o que gostam…

        Realmente, nem sei para que me dou ao trabalho de lhe responder… mas, estou cansada e farta, de fundamentalistas ignorantes porque, no lado oposto da balança, vai havendo pessoas que, apesar de não poderem ter filhos biológicos acabam por amar, cuidar e criar crianças sem pais, muitos deles que, com mentalidades iguais à sua, durante a “farra”, se “descuidaram” e, também, não deviam gostar de miudagem… mas, felizmente, ainda há pessoas especiais que vão para além, da sua satisfação e gratificação pessoal, pensando mais no que dão, em vez daquilo que recebem…

        Enquanto uns, só veem migrantes a entrar,  há outros que, apenas, estão a assistir, à repetição, do que aconteceu, centenas de vezes, ao longo da História, culturas que absorvem outras, pelo simples facto, de terem entrado em decadência… um fim certo, quando se instala o declínio económico e, principalmente, uma perda de identidade cultural e moral… estamos no caminho, para sermos absorvidos por outra cultura e, parte da culpa, também se deve aos políticos que, ensinaram bem, como se põe os interesses pessoais acima do interesse coletivo, onde a incompetência e a irresponsabilidade são premiadas, onde tudo é feito e dado, a favor do presente, em detrimento do futuro. 
        Um exemplo, dessas políticas, será obrigar o coletivo a pagar com os seus impostos, exatamente, na mesma proporção, a quem tenha um filho ou faça um aborto e, nem sequer estou contra o aborto se, for devidamente justificado, como em casos de violação,  graves deficiências do feto ou até por imaturidade da mãe, mas isto de desresponsabilizar adultos, premiando até, com dias pagos como se de um parto se tratasse, estão, apenas, a incentivar a irresponsabilidade, especialmente, numa época sem desculpas por não haver falta de contracetivos, portanto, isto de tratar adultos como crianças ou adolescentes que investimento será, esse, para o futuro desse coletivo? Infantilizar adultos?  
        Sinais que se vão acumulando e precedem, apenas, o fim de uma civilização para dar lugar a outra…  que até pode ser menos em muitas coisas mas, certamente que ainda não abandonou o, simples e natural, instinto de sobrevivência. 

  3. Ali Kath

    gosto muito de cachorros … quentes

  4. gato

    Quando a fome apertar irei ver os bichos a servir de refeição. Os orientais dizem que são gostosos. Vejam as receitas.

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