A gestação demorou, mas o parto aconteceu: nasceu um novo PS. O novo PS não é o PS ambíguo de Soares, não é o PS da terceira via, católica e mole de Guterres. O novo PS herda os tiques ditatoriais do Socratismo, a bebedeira de extrema-esquerda do Ferrismo e do Sampaísmo e acomodou uma nova geração de radicais que juntou o desprezo ou a ignorância pelo passado do PS e a vontade de subir na vida que os inibiu de se filiarem no BE ou no PCP. O novo PS viu, entretanto, em António Costa o material perfeito para o abandono da charneira do regime: um oportunista é, não raras vezes, uma oportunidade para terceiros. Resta saber com que propósito nasceu este novo partido. O cheiro a poder, por si só, não convence. E, ao contrário do que muitos têm afirmado, o PS não se radicalizou porque assinou acordos com o PCP e o BE. Foi antes por se ter radicalizado que resolveu dar o braço a estes partidos (dos quais se tentará ver livre posteriormente, mas adiante). Porquê?

Em primeiro lugar, porque os partidos socialistas ou social-democratas europeus têm vivido, desde o início da crise da zona euro, num dilema existencial. A crise da moeda única e o cumprimento das regras europeias impossibilitou-os de aplicar a sua agenda expansionista. Como ser socialista quando não há dinheiro? Como ser socialista quando nos comprometemos a reduzir défices? A estas perguntas o PS não soube dar resposta. A liderança de António José Seguro tentou, a custo, manter a posição-chave do PS no sistema partidário e, ao mesmo tempo, afirmar a possibilidade das práticas socialistas na governação. Com isso, ganhou por pouco. António Costa radicalizou de imediato – e, com isso, perdeu por muito.

Em segundo lugar, porque uma nova geração chegou ao poder no PS. Lidera, aconselha, marca ritmos e impõe políticas. É a geração dos que julgam fazer tremer as pernas aos alemães. Esta nova geração do PS tem vindo a matar o PS. Detesta o 25 de Novembro tanto ou mais que o PCP, idolatra a Intersindical e destruiu a social democracia, o denominador comum que unia o PS ao PSD e que possibilitou a estabilidade do regime, as revisões constitucionais e a integração europeia. O PS tem hoje a base ideológica do BE, sem ser assumidamente trotskista, e um cinismo ao nível do PCP, sem ter a sua carga histórica e a sua estrutura. Importou o estilo caceteiro e urbano neo-chique do Bloco, e inveja o poder do PCP nos sindicatos e na rua. O PS tirou o socialismo da gaveta, quando Soares, segundo o próprio, o lá enfiou.

Com este novo PS, a bipolarização do regime passa a ser uma inevitabilidade. O regime mudou – ou está a mudar – porque o PS assim o decidiu. Nuns casos, por convicção. Noutros, por ambição. E desta vez o centro ideológico do regime pode ser o PSD. Sá Carneiro deve estar a rir-se imenso. E eu também estaria, se não fosse pragmático e não soubesse que estas mudanças todas nos podem custar muito dinheiro.