1. O resultado das eleições do passado domingo foi claro. Que se queira pintar o quadro de outra forma para vender mais jornais ou para subir as audiências, é uma coisa; que se entenda o contrário do óbvio por convicção, é ignorância ou má fé.

2. A Coligação Portugal à Frente teve mais votos que o segundo partido mais votado (o PS).

3. O PSD tem um grupo parlamentar superior ao do PS.

4. Uma esmagadora maioria rejeitou os programas que assentavam na reestruturação da dívida, na saída da moeda única e outras alarvidades.

5. António Costa tinha sido eleito Secretário-Geral do PS com um propósito simples: alcançar a maioria absoluta no Parlamento. Depois de afastar um líder que tinha ganho duas eleições, achou que esses resultados eram “poucochinhos” e alcançou uma derrota “muitochinha”. Não assumiu, apesar da evidência dos resultados, qualquer responsabilidade.

6. António Costa afirmou, na noite da derrota, o seguinte: “Ninguém conte connosco para sermos só uma maioria do contra, sem condições de formar um governo credível e alternativo ao da direita”. Deixou, pois, a porta aberta a entendimentos com a esquerda à sua esquerda. Desconfio da honestidade deste gesto.

7. Em termos estritamente teóricos, PS, BE e CDU conseguem formar maioria absoluta no Parlamento. Em termos práticos, essa maioria é inalcançável por vários motivos – alguns dos quais foram já aqui explicados pelo Carlos Guimarães Pinto.

8. O PCP e o BE não querem formar Governo com o PS. E António Costa não quer formar Governo com o PCP e o BE – a menos que esteja louco e queira fazer implodir o seu próprio partido, o que não será de excluir.

9. Aquilo a que estamos a assistir – e que tem assustado alguns sectores da direita – é um jogo do gato e do rato. O PS assusta a Coligação com um Governo maioritário à esquerda para ganhar trunfos para uma futura negociação. E o PCP e o BE, não tendo qualquer intenção de formar Governo com o PS, vão ganhando tempo para virem a responsabilizar o PS pelo fracasso de um Governo maioritário à esquerda.

10. O BE quer “syrizar”, o PCP quer manter a sua esfera de poder e o PS quer manter intocável o seu lugar de “partido de charneira do sistema”, como dizia ontem Augusto Santos Silva na TSF.

11. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas deram já sinais claros de que estão disponíveis para chegar a um entendimento com o PS (como, de resto, uma boa parte dos socialistas deseja). O papão da “direita” é, pois, quem se manifesta sem reservas a favor de entendimentos alargados que favoreçam a estabilidade do país.

12. O cenário político parece-me claro: o PS acabará por negociar com a Coligação.

13. E o resultado partidário também: o PS não voltará a ser o mesmo e o regime democrático agradece.

14. Posto isto, podemos parar com o joguinho de poker e o bluff. É que há um país para governar.

 

“E os Portugueses? Fartos dos malabarismos que os partidos do poder fizeram para a ele se manterem agarrados, fartos da demagogia e do sectarismo, correspondem a esta crise política com uma atitude de profunda indiferença, que é altamente preocupante em democracia. (…) Face a esta crise nacional, face a um país angustiado, desagregado e à deriva, em que se fracionaram os sentidos de solidariedade e de interesse nacional para serem substituídos por uma política do salve-se quem puder, o Povo Português esperava que este debate lhe trouxesse finalmente uma esperança nova de ver os partidos discutirem aqui os verdadeiros problemas nacionais, de ver os partidos reconsiderarem aqui as suas posições, reconhecerem os seus erros, disporem-se a encetar vida nova.” Francisco Sá Carneiro, na Assembleia da República, em 1978.