28 de Setembro 1974

Passavam 5 meses do 25 de Abril.

O pais vivia dias de incerteza e o comunismo crescia dia a dia.

Para nós, as crianças da revolução a vida corria alegremente. A escola terminara em Maio fruto do PREC (processo revolucionário em curso) e este seria o maior verão das nossas vidas. Para mim particularmente grande porque Álvaro Cunhal meteu uma cunha ao Mário Soares para colocar a filha no Liceu Camões e azar dos Távoras, foi logo no meu lugar e assim estive de ferias desde Maio até Fevereiro ou Março de 1975, mas isso foi outra história. (Mário Soares revelou este episodio numa entrevista televisiva, há alguns anos, quando ainda estava lúcido)

O verão foi agitado, a minha família saiu para Espanha lá para Agosto, para ver o que se iria passar. A saída foi atribulada , a Policia das fronteiras, já não controlava os postos de fronteira, tinha sido substituída por barbaças enviados pelos partidos revolucionários sob o comado do PC e era em sobressalto que se saia de Portugal .

Em Setembro resolveu o meu pai voltar por Trás-os-montes, para evitar as fronteiras mais agitadas do Alentejo . Dia 12 a minha avó fez 80 anos e a família próxima deslocou-se do Douro e do Porto para Trás-os-Montes e numa pequena Aldeia preparou-se um jantar.

Os homens passavam os serões a ouvir a BBC e a Radio DW em ondas curtas , para terem uma ideia do que se ia passando. Nos os miúdos divertia mo-nos como sempre, entre ir aos figos ou tomar banho no rio. Nessa noite a meio do jantar barulho de vozes no silêncio da noite. Pareciam cânticos. Mulheres e crianças para dentro de casa rapidamente, os candeeiros de petróleo apagados e os cães foram soltos . Armas de caça distribuídas, homens barricados por detrás de mesas . Falso alarme era o Padre Belarmino , tinha organizado uma festa para  homenagear a minha avó. Ligou-se a grafonola e ao som do Gardel dançou-se.

No resto do pais os confrontos e assassinatos eram frequentes dando origem a frase que os franceses espalharam num delírio poético ” A revolução dos Cravos” 

Dia 28 de manhã a Ponte Salazar é cortada pelo controlo revolucionário e todos os carros que pretendem entrar em Lisboa vindos de Sul são revistados por camaradas que prendem qualquer cidadão que se faça acompanhar de uma navalha ou canivete suíço. 

O comunismo é formalmente o nome do regime. Vasco Gonçalves comanda. 

Passamos de um regime autoritário de direita para uma ditadura pró-soviética. 

Foi o principio de um pesadelo que só terminou 14 meses depois no dia 25 de Novembro. 

Estas são as minhas memórias . Tinha 12 anos.

É importante, para que os mais novos, não comam tudo o que lhes tentam impingir. 

3 Comments

  1. Costa

    Lembro-me distintamente de muito do que escreve, ou coisas análogas. Tinha 14 anos. Ouvia-se a BBC. Mas baixinho, porque a porta do patamar não estava longe e não se sabia quem por lá poderia passar. Morando em Lisboa, era com permanente receio que se pensava no pequeno apartamento de duas assoalhadas arrendado em Sesimbra, para gozo de férias e fins-de-semana, e que fazia de meus pais (donde, de mim e meu irmão), no vocabulário de um grupelho local, “banhistas regalistas “.

    Merecedores da ocupação e saque do dito apartamento, evidentemente (insista-se, arrendado). Tivemos sorte, não nos tocou essa experiência. Mas não foram uma ou duas apenas as noites em que se partiu rapidamente para lá, “ocupando” nós, preventivamente, o andar.

    Quanto ao pequeno bote de fibra de vidro, de pouco mais de dois metros, e um motorzito fora de borda de dois cavalos de potência, frequentemente transportado sobre o tejadilho do automóvel, a coisa valeu-nos o acusatório epíteto de proprietários de um iate! Fascistas sem remissão, capitalistas exploradores, pelo menos. A abater, bem possivelmente, tivessem as coisas durado um pouco mais.

    Sim, tudo isso aconteceu. E muito pior. Quem activamente promoveu esse estado de coisas, não só não respondeu perante a Justiça, nem se retractou, como permaneceu e permanece impune. Ainda hoje louva publicamente esses dias inqualificáveis e os seus mentores. Saiu, até, do 25 de Novembro de 1975 com o louvor de indispensável à democracia portuguesa. É subsidiado pelo estado e continua a promover livremente a sua visão distópica, absurda e carregada de ódio da sociedade.

  2. Ali Kath

    sou alentejano do vale do Tejo
    para ir à aldeia levava um revólver 32 (aos 44 anos)
    também fui várias vezes interceptado:
    encontraram o porta chaves do carro com um canivete de abrir livros, um queijo de cabra mal cheiroso pendurado no exterior da porta (pensavam que era bomba)
    roubaram-me, insultaram-me, fuderam-se

  3. Luis Moreira

    Tinha passado a tarde a namorar nas dunas  da Caparica. Quando cheguei à ponte mandaram-me parar, perguntando-me o que ia eu fazer para Lisboa. Disse-lhes que tinha levado a namorada ao Barreiro e que voltava para casa. Preso. Estava a gozar. Quem, eu? O pecado é que eu não estava a defender a revolução. Ao fim de algum tempo mandaram-me embora. Havia mais uns três ou quatro que estavam presos pelo mesmo motivo. Contrarevolucionário! 

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