A alegria da pobreza está nesta grande riqueza

O bacalhau não se quer outra coisa que não em posta. No limite, desfiado. E esmiuçado. Esmiuçar o bacalhau, tarefa minuciosa, tem sido feito aqui, ali e acolá, mas nunca sem grandes resultados. O mesmo acontecerá aqui: não haverá quaisquer resultados a apresentar após o bacalhau esmiuçado. Mas é importante esmiuçar o bacalhau. Com todos.
O bacalhau foi, durante décadas, alimentação paupérrima, das classe mais baixas de um país pobre – que é como quem diz que foi alimentação de um país inteiro. O bacalhau, ao contrário do resto do pescado fresco, aguentava a salgadeira, percorria quilómetros sem necessidades especiais. Hoje, o bacalhau é caro e todo menino bem é educado a comer a sua posta com cuidados, talheres de peixe e guardanapo ao colo. Aconteceu o mesmo, na justa medida das óbvias diferenças, com o pão escuro, por exemplo. Ou, no litoral, com a sardinha – peixe miúdo às carradas e carregado de sal, para alimentar uma multidão esfaimada. Olhem o que fizeram com o pão de centeio. Com as panelas de ferro, hoje vendidas nos antiquários por um balúrdio, antiga propriedade de famílias de pobres. E a açorda. Pão duro molhado, água, sal e coentros. Manjar de quem se lavava, para além das mãos e do pescoço, uma vez por ano – ou menos. Hoje, fantástico repasto, com gambas, com tamboril, com o diabo a quatro. E as tabernas. Casas de fadistas, em Lisboa, prostitutas, chulos, gente vadia; lugares imundos para homens do campo, no resto do país, onde se bebia vinho da pipa até ao vómito. Hoje, a taberna é um nome chiquíssimo que se dá a um restaurante caro onde se come comida de pobre (peixinhos da horta e por aí fora) a preços não raras vezes absurdos. E aqueles “chouriços” de pano que se encostavam às portas, para evitar que a bicharada e a sujidade entrassem em casa? São hoje “sardinhas”, também de pano, meramente decorativas, vendidas pelo país inteiro a turistas e a locais. E o fado, que durante anos foi a cantiga do fascista, depois uma piroseira portuguesinha, coisa de meter nojo, e que está agora recuperado, em variações mais ou menos pop, por uma rapaziada fidalgota e que o país adora?
Há uma geração que está a recuperar o culto da portugalidade, dos corações de Viana, dos pastéis de bacalhau (ainda que com queijo da Serra), da sardinha assada no pão. É a geração do José Avillez e da Joana Vasconcelos, da Carminho e da Catarina Portas. No máximo, é a minha geração que o está a fazer também. Mesmo que não saiba disso. O Portugal pobre e rural do Estado Novo está aí – e em força – a dar cartas, com ares cosmopolitas, de gente urbana, formada e viajada, nas baixas das cidades, nos locais turísticos, a dar estalos a ingleses, dinamarqueses e suecos, graças a uma ou mais gerações de gente descomplexada e sem preconceitos – e, até, sem política e sem ideologia.
Mas, apesar disso, esse Portugal do Estado Novo, não recauchutado para vender aos turistas, ainda existe. No interior, sim, mas no litoral também. Vive nos subúrbios, no grande centro, nos comboios regionais e nos táxis. Os avós, analfabetos, ainda existem. Os pais, analfabrutos, ainda existem e ainda trabalham, espalhados por todos os ramos de actividade. Só os filhos, hoje carregados de licenciaturas, mestrados e actividades extra-curriculares, recuperam a portugalidade de um povo pobre com gosto e modernidade. Mas o país continua a sofrer a ruralidade de há cinquenta anos. É ver como nos portamos na estrada, é sentir o cheiro dos transportes públicos em hora de ponta.
Não interessa nada. Não há aqui um resultado. Conforme prometi, cumpro. Não esmiuçámos, ainda, o bacalhau. Estamos só a limá-lo. Acho encantador que recuperemos tudo isto. Só me custará se um dia perceber que nos estamos a enganar, com paragonas de novo-rico, a esquecermo-nos do passado e a ignorarmos os analfabetos rurais que, com a graça de Deus (como diriam os próprios), ainda temos em casa. Recuperar esse passado só valerá a pena se não o pintarmos de ouro. Se o fizermos, significará apenas que não aprendemos nada e que nos tornámos apenas nuns cínicos oportunistas. Porque não há alegria nenhuma na pobreza. Mas também a não há na ignorância.

1 Comment

  1. Jose Domingos

    De facto, continuamos um país de pindéricos, armados ao fino.
    Não evoluímos nada, noutros tempos, os do volfrâmio, colocava-se canetas de ouro, supostamente, no bolso pequeno do casaco, agora andamos de audi, mercedes e afins. O rural está lá.

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