Mês: Agosto 2015 (Page 1 of 3)

Momento Rangel de Centeno

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Mário Centeno também quis ter o seu momento Rangel. O putativo mestre das finanças do Partido Socialista congratula os portugueses pelos indicadores respeitantes ao desemprego – foram os trabalhadores e os empresários que melhoraram os indicadores, e não o governo. Podemos deduzir, por esta lógica da batata, que qualquer governo é dispensável, incluindo um eventual executivo de matriz socialista. Não fica bem a um pseudo-político não dar o braço a torcer. Vá lá, pelo menos o principezinho não afirmou que os números do Instituto Nacional de Estatística só foram possíveis porque a coligação PSD-CDS está no poder. E sabemos porque não o diz. Aquele instituto está carregado de camaradas socialistas, matemáticos caídos em desuso na disciplina de economia, ou que findaram as sabáticas no Instituto Superior de Economia e Gestão. Ah, já agora, passei por essa escola, mas apenas fiz uma cadeira antes de mudar de curso: estatística. O professor era simpático, mas fumava em cadeia. Na sala de aula.

Sobre a Alemanha

Os alemães que acolhem de bom grado milhares de refugiados que atravessam o Mediterrâneo são os mesmos que punem com medidas de austeridade, de há anos a esta parte, os povos de países que fazem parte da União Europeia, fomentando Merkel e Schäuble a desconfiança generalizada em relação ao futuro do projecto europeu. Desculpem-me a intromissão, podem continuar a elogiar os alemães.

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A alegria da pobreza está nesta grande riqueza

O bacalhau não se quer outra coisa que não em posta. No limite, desfiado. E esmiuçado. Esmiuçar o bacalhau, tarefa minuciosa, tem sido feito aqui, ali e acolá, mas nunca sem grandes resultados. O mesmo acontecerá aqui: não haverá quaisquer resultados a apresentar após o bacalhau esmiuçado. Mas é importante esmiuçar o bacalhau. Com todos.
O bacalhau foi, durante décadas, alimentação paupérrima, das classe mais baixas de um país pobre – que é como quem diz que foi alimentação de um país inteiro. O bacalhau, ao contrário do resto do pescado fresco, aguentava a salgadeira, percorria quilómetros sem necessidades especiais. Hoje, o bacalhau é caro e todo menino bem é educado a comer a sua posta com cuidados, talheres de peixe e guardanapo ao colo. Aconteceu o mesmo, na justa medida das óbvias diferenças, com o pão escuro, por exemplo. Ou, no litoral, com a sardinha – peixe miúdo às carradas e carregado de sal, para alimentar uma multidão esfaimada. Olhem o que fizeram com o pão de centeio. Com as panelas de ferro, hoje vendidas nos antiquários por um balúrdio, antiga propriedade de famílias de pobres. E a açorda. Pão duro molhado, água, sal e coentros. Manjar de quem se lavava, para além das mãos e do pescoço, uma vez por ano – ou menos. Hoje, fantástico repasto, com gambas, com tamboril, com o diabo a quatro. E as tabernas. Casas de fadistas, em Lisboa, prostitutas, chulos, gente vadia; lugares imundos para homens do campo, no resto do país, onde se bebia vinho da pipa até ao vómito. Hoje, a taberna é um nome chiquíssimo que se dá a um restaurante caro onde se come comida de pobre (peixinhos da horta e por aí fora) a preços não raras vezes absurdos. E aqueles “chouriços” de pano que se encostavam às portas, para evitar que a bicharada e a sujidade entrassem em casa? São hoje “sardinhas”, também de pano, meramente decorativas, vendidas pelo país inteiro a turistas e a locais. E o fado, que durante anos foi a cantiga do fascista, depois uma piroseira portuguesinha, coisa de meter nojo, e que está agora recuperado, em variações mais ou menos pop, por uma rapaziada fidalgota e que o país adora?
Há uma geração que está a recuperar o culto da portugalidade, dos corações de Viana, dos pastéis de bacalhau (ainda que com queijo da Serra), da sardinha assada no pão. É a geração do José Avillez e da Joana Vasconcelos, da Carminho e da Catarina Portas. No máximo, é a minha geração que o está a fazer também. Mesmo que não saiba disso. O Portugal pobre e rural do Estado Novo está aí – e em força – a dar cartas, com ares cosmopolitas, de gente urbana, formada e viajada, nas baixas das cidades, nos locais turísticos, a dar estalos a ingleses, dinamarqueses e suecos, graças a uma ou mais gerações de gente descomplexada e sem preconceitos – e, até, sem política e sem ideologia.
Mas, apesar disso, esse Portugal do Estado Novo, não recauchutado para vender aos turistas, ainda existe. No interior, sim, mas no litoral também. Vive nos subúrbios, no grande centro, nos comboios regionais e nos táxis. Os avós, analfabetos, ainda existem. Os pais, analfabrutos, ainda existem e ainda trabalham, espalhados por todos os ramos de actividade. Só os filhos, hoje carregados de licenciaturas, mestrados e actividades extra-curriculares, recuperam a portugalidade de um povo pobre com gosto e modernidade. Mas o país continua a sofrer a ruralidade de há cinquenta anos. É ver como nos portamos na estrada, é sentir o cheiro dos transportes públicos em hora de ponta.
Não interessa nada. Não há aqui um resultado. Conforme prometi, cumpro. Não esmiuçámos, ainda, o bacalhau. Estamos só a limá-lo. Acho encantador que recuperemos tudo isto. Só me custará se um dia perceber que nos estamos a enganar, com paragonas de novo-rico, a esquecermo-nos do passado e a ignorarmos os analfabetos rurais que, com a graça de Deus (como diriam os próprios), ainda temos em casa. Recuperar esse passado só valerá a pena se não o pintarmos de ouro. Se o fizermos, significará apenas que não aprendemos nada e que nos tornámos apenas nuns cínicos oportunistas. Porque não há alegria nenhuma na pobreza. Mas também a não há na ignorância.

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A caixa de esmolas de Santo António do PS

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Onde é que António Costa julga que está? Nos States? Na terra do Uncle Sam sempre se praticou socialismo civil – uma modalidade que este senhor desconhece. O contributo de cidadãos mais ou menos anónimos, mais ou menos abastados, para a edificação de projectos, o desenvolvimento de centros de arte, a instalação de equipamentos públicos em jardins localizados nas comunidades locais. Nestes casos a ideologia e os partidos não fazem parte das considerações – são as causas públicas que ganham.

O que o candidato a CEO de Portugal quer, não é para si nem para Portugal – é para o Partido Socialista. O quadro de honra dos melhores dadores serve exactamente para quê? Para pagar os favores? Minhas senhoras e meus senhores, assistimos à falência ética em todo o seu esplendor. Uma coisa é dar, outra coisa é receber para mais tarde premiar quem deu. E tudo isto feito às claras, com toda a naturalidade. A grande contradição genética deste empreendimento de financiamento é afastar a possibilidade de não militantes poderem, de um modo utópico e surreal, convenhamos, ajudar a causa facciosa daquela força política. Eu proponho um caminho alternativo: merchandising. O Partido Socialista deveria abrir lojas, numa lógica de franchising ou não. Iria mais longe. Começava por transformar a Fundação Mário Soares em flagship store. E o que venderiam nesse centro comercial? Um pouco de tudo. Porta-chaves em forma de punho, DVDs com a história dos compadres de Portugal, refeições bio com pétalas rosa comestíveis ou cupões-oferta para brindar aqueles que nos fizeram favores e que tantas vezes esquecemos no corre-corre da vida das grandes cidades. Ao que chegamos. Ao que chegamos. Eles nem por isso.

O candidato que não quer ser eleito

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Raramente tal se viu na política mas a verdade é só uma: Marinho e Pinto, eurodeputado, não quer ser eleito para a Assembleia da República. E não deixa de dar mostras disso mesmo ao assegurar que a sua eleição é muito difícil e que, se não for eleito, ficará no Parlamento Europeu. Nada que, na verdade, não se soubesse já. Marinho escolheu cirurgicamente Coimbra para reduzir ao mínimo tal hipótese de sucesso. O mesmo Pinto, que desde que tomou posse, e pese embora vocifere contra os altos ganhos da sua euro – ocupação, “a mete toda ao bolso” já que, afirma, tem contas para pagar e a educação da sua filha sai cara.

Assim sendo, façamos-lhe a vontade: nem um voto em Coimbra no Partido de Marinho. Dr. Marinho, não queremos que lhe falte nada por Bruxelas!

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Portugal não tem culpa desta crise

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Lamentavelmente, Portugal e tantas outras nações, encontram-se no momento errado da história do mundo. Há quem lhe chame sina, há quem lhe chame fado. Mas em todo o caso, não se trata de um assunto jocoso. Se quisermos dar-lhe um nome, esse terá de ser parente de tragédia. E não me refiro à Grécia. Inauguramos hoje, um pouco por todo o mundo, uma nova crise financeira com contornos mais graves do que a de 2008. Não se trata agora de uma crise subprime, mas provavelmente de uma crise resultante dos efeitos da terapêutica que foi prescrita ao longo dos últimos anos para a curar. O crash bolsista da China, e que rapidamente incendiou o resto das praças financeiras do mundo, relaciona-se com um conceito financeiro que comporta na sua essência grandes perigos. O quantitative easing, iniciado nos EUA e depois aplicado a outras divisas e regiões económicas, serviu para promover a ideia de ficção económica. A noção de que os banqueiros centrais poderiam substituir a verdadeira dinâmica das economias. Ora baixaram juros a níveis nunca antes visto, ora compraram títulos de tesouro para garantir o funcionamento de governos e Estados, ora aprovaram, sozinhos ou em conjunto, pacotes de salvamento de países. Por outras palavras, foram só facilidades financeiras inventadas com um estalar de dedos. As dificuldades, essas, poderiam ser resolvidas mais tarde – pensavam eles. Pois bem, esse “mais tarde” é agora, mas infelizmente não vem só. No seio da União Europeia, se não bastava a crise Grega, podemos agora juntar a desaceleração da economia chinesa, a ascensão imperial da Rússia, o acordo com o Irão, a clivagem entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, a crise de migrantes e refugiados que galga as margens que separam a Europa desenvolvida da África e do Médio-Oriente, a ameaça crescente do Estado Islâmico, entre outros factores imponderáveis resultantes da combinação nefasta destes elementos. O perfect storm, a que muitos se referem, não trará bons ventos a Portugal. Veremos de que modo cínico e oportunista os detractores de Portugal se irão servir desta ementa de consequências nefastas para vaticinar de um modo pós-orácular – como se já soubessem, como se pudessem prever. Numa frase: this does not look good and Portugal´s not to blame.

Da ditadura fiscal vigente

André Azevedo Alves, Os abusos do fisco não acontecem por acaso:

O problema em Portugal assume contornos particularmente gravosos e ofensivos dos mais básicos direitos dos cidadãos porque, como oportunamente salientou Nuno Garoupa na mesma discussão, o aperto da malha fiscal não foi acompanhado de quaisquer melhorias estruturais nos mecanismos de recurso e verificação disponíveis para salvaguardar os contribuintes relativamente a erros do fisco. A reforma dos tribunais administrativos e fiscais é uma das muitas que continua por fazer e assiste-se a uma impunidade generalizada relativamente aos erros e abusos praticados pela máquina fiscal do Estado. À excepção de uma pequena minoria com recursos e poder suficientes para defenderem adequadamente os seus interesses, a generalidade dos contribuintes encontra-se assim indefesa perante a ditadura fiscal.

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