Mês: Abril 2015 (Page 1 of 4)
Apareceram logo umas damas ofendidas com esta ideia do Partido Social Democrata (PSD): o Partido Socialista (PS) deve submeter à Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) o seu “programa operativo” no sentido deste ser auditado. Não vejo mal algum. Se o PS quer ser governo, então o seu “esboço de programa de governo” deve ser fiscalizado preventivamente. Portugal não tem grande margem de manobra para se meter em aventuras. Os portugueses não estão em condições de passar cheques em branco. Esses tempos findaram. Em política, mas sobretudo em Democracias, todas as propostas devem ser consideradas. Mesmo que não haja enquadramento jurídico para o efeito, o princípio subjacente é válido. A partir do momento que qualquer força partidária apresenta ao público um documento com essa mesma finalidade de disseminação, então o mesmo pode e deve ser analisado de um modo exaustivo. Aliás, a ser a UTAO a apreciar as equações dos socialistas, e assumindo esse organismo enquanto instituto idóneo e imparcial, reforça-se o argumento que seja o mesmo a efectuá-la. Ou será que a UTAO também está minada, corrompida por forças ocultas? Em alternativa, e à falta de abertura de espírito, no mercado aberto, o PSD sempre pode enviar o paper do PS para uma empresa de consultoria do sector privado – sai caro. Mas o que podemos verdadeiramente lamentar no meio destas considerações, é que representantes da ala jovem e fresca do PS como João Galamba revelem uma mentalidade antiquada, conservadora, porventura oriunda de um outro regime mental, político.
Todos sabem que a Austeridade não é coisa boa. Todos sabem que a mesma assenta na contracção e no apertar do cinto. Esse diagnóstico é fácil de fazer depois da receita ter sido aviada. E é escusado Thomas Piketty vir alimentar falsas esperanças a António Costa, ao proclamá-lo como “reorientador da Europa”. O que o francês diz é muito bonito e faz todo o sentido, mas só funciona em ambientes macro-económicos em que haja controlo sobre políticas monetárias. Imaginem um marceneiro a oferecer a ferramenta-maravilha ao colega canalizador – é mais ou menos isto sem tirar nem pôr. Não serve, a não ser que me escape alguma coisa. Ou seja, que no tal documento da “década para Portugal” venha consagrada a criação de um banco central no Largo do Rato. Uma máquina de impressão de dinheiro cor de rosa para combinar com os sonhos que emanam da mesma casa. Grande economista que me saiu este Piketty. Era suposto a disciplina servir para encontrar meios para gerar dinâmicas de criação de riqueza e emprego. O melhor que conseguem é a brilhante ideia de criar um imposto sobre as grandes heranças. E isso confirma a máxima negada pelos socialistas. Sim, são excelentes a tratar de destruir o dinheiro dos outros. Neste caso nem sequer olham para o futuro. Metem a mão no bolso do passado. Em termos económicos este género de socialismo de ocasião posiciona-se no lado da procura agregada – a procura intensa dos meios financeiros dos outros. Isto era a última coisa que faltava. Aparecer um francês das escolas do iluminismo económico para dar alento a um visionário como António Costa. São muito bons a descrever os males. Quanto a oferecer respostas válidas, isso é outra história. Mário Soares também tinha vários amigos franceses.
Pedro Mexia em entrevista ao ionline:
A palavra “intelectual” foi trivializada, às tantas qualquer pessoa que tenha lido uns livros passa por intelectual. Não me identifico com esse conceito, com a sua história e as posições tomadas por intelectuais no século xx. Porém, apesar disso, deve respeitar-se o termo, incluindo como intelectuais apenas os que reúnem duas condições: por um lado, terem um pensamento, e por outro terem um pensamento próprio. Ora poucas pessoas têm um pensamento e ainda menos o têm próprio. Nunca me ocorreria falar de mim na mesma categoria em que as pessoas falam do Eduardo Lourenço ou do José Gil. Esses são-no, têm uma obra e uma relação com o conceito de intelectual. Eu não. E não o quero ser, não tenho qualquer relação afectiva com a palavra.
João e Maria separaram-se após dez anos de relacionamento, sete dos quais passaram casados. Foi a morte do pai de Maria, acometido de doença incurável, que precipitou o inevitável. Um dia, João chegou a casa e não tinha dinheiro na conta, roupa nas gavetas, nem ideia das facturas que estavam para chegar-lhe à caixa do correio. Também não sabia onde estava o filho de ambos, à data com cinco anos, supostamente recolhido pela mãe, como todos os dias, à porta da escola chegado o crepúsculo. Foi ali que acorreu, e ali que encontrou a criança, a quem explicou de imediato e ao longo dos cinco meses seguintes que tudo iria ficar bem, que nada naquele cataclismo fora previsível, e muito menos culpa dela. O pai e a mãe teriam muita coisa para resolver, que não se ralasse, cada ingrediente da sua vida quotidiana ali estaria sem mácula dia após dia, e filme após filme, tentativa após erro, João lá desenhou uma planilha da coisa.
Maria queixava-se muito. Quando a mãe morria de cancro numa ala do IPO, Maria ia para a praia com as amigas porque se queixava de não poder suportar os caminhos do sofrimento. Quando não trabalhava, queixava-se de não ter trabalho; e quando o tinha, de algum alvo a abater que surgisse pela frente tornando a função um purgatório bradável na gama completa da histrionia maníaco-depressiva. À falta de um boneco profissional que se prestasse a encarnar Belzebu, João assumia as expensas, nos espaços que lhe sobravam entre os três empregos que mantinha para honrar as despesas decorrentes dos compromissos de ambos e das sucessivas “baixas médicas” que Maria invocava.
João não se queixava de nada, só queria ser deixado em paz: pelo Estado, pelos pais de cuja casa praticamente tivera que fugir mal atingida a emancipação legal e a velocidade de cruzeiro com que irrompera pelo mundo do “desenrasca-te”, algures em torno do seu décimo-quinto ano.
Era apenas natural que João e Maria, sete anos mais velha, amadurecessem em sentidos diametralmente opostos. João lia ensaios, Maria telenovelas; João preferia jantares em casa entre amigos, Maria “viver o mundo” a dançar, comer, beber, rir, e ignorar a semana seguinte. João contava tostões, Maria gastava por conta do trimestre seguinte.
Divorciaram-se de jure passados seis meses, altura em que Maria voltou a assomar à parte do mundo onde João e o filho de ambos se moviam. João fora aconselhado pelo causídico que o representava a requerer para si a custódia do menor, mas intransigente perante a gravidade da causa, decidiu que o mais justo, removendo-se a si mesmo da equação, seria confiar na providência natural e deixar que ambos os progenitores assumissem o dever parental em igual medida; e assim aconteceu.
Vinte dias após a confirmação documental do acto, João fechara os olhos e lançara proa à reconstrução da sua vida: procurou incessantemente uma nova companheira, entregou-se ao trabalho (onde foi promovido de forma recorrente), fez amigos, viajou, cuidou da sua imagem. Nesse mesmo interim, as dívidas de Maria acumulavam-se até que surgiu com um novo namorado, em simbiose com o qual decidiu que o acordo, semanas antes assinado com João, não servia os interesses do menor.
A saga durou um ano até que Maria, mediante confissão escrita e na sequência de inúmeras e brutais discussões com o errante que escolhera para seu parceiro de cama e mesa, rogou a João que travasse o novo processo antes que, temia, tramitasse em julgado aquilo que João sempre deveria ter pugnado por que tramitasse. João acedeu.
Desde essa parte até ao final do quinto ano contado a partir do fim da quezília, João manteve-se fiel aos seus princípios de invidualidade e libertarianismo: fazendo pela sua vida, prestou-se sempre a que os verbos ouvir, escutar, responder, acompanhar, mostrar, partilhar, incutir, soltar, e explicar fossem o cabaz de bitolas pelo qual gerir a sua relação com o seu filho, que crescia ávido de tempo e, para angústia e desespero de João, dividido entre dois mundos simetricamente imiscíveis.
Maria passou dez anos sem cuidar de si vivendo em função da criança, levando a uma inversão de papéis entre ambos – Mãe e filho – cujas consequências até hoje atormentam João, que se viu acuado e reduzido a um papel levado por falas escritas em cima do joelho, redefinidas à medida do menor dano possível. As dívidas de Maria engrossavam Olimpicamente, pois no seu imaginário competia no plano material com João, a quem a fortuna e o mérito haviam sorrido, mas que continuava a contar tostões.
Hoje, volvidos treze anos, Maria tem um companheiro, que conheceu quando finalmente optou por cuidar de si. João vai vivendo da melhor forma que pode, qual malabarista a quem duendes travessos oleiam sempre a palma das mãos entre movimentos; passou por emprego, desemprego, empresariado, falencia, deserto e oceano, esperança e viuvez; tem uma namorada com quem o amor flui e é belo, vive do que juntou e do seu trabalho, pratica o voluntariado e a benemeritude, faz por conviver com o seu passado de falhas e de disfuncionalidade, cultiva a sua horta e lê os seus livros, como há quase quarenta anos – João aprendeu a ler sozinho aos quatro anos e está quase a fazer 44, um número hoje cabalístico pela mercê do recluso Pinto de Sousa, maior avatar da portugalidade e que tudo tem a ver com a historieta aqui contada, pois encarna a animalidade que subjaz às Marias do nosso tempo.
O filho, esse alberga até hoje uma raiva ao Pai, de quem se considera um igual, por este nunca ter vivido em função anulada (valerá a pena demonstrar-lhe que a abnegação conta mais? deixo aos semióticos) da sua prole, mas cooptado por não morrer mirrado e sozinho, recostado num sofá balbuciando inanidades pós-mariscada. Até à vera hora em que estas linhas vêem o dia, um jovem vive torturado e na senda da ilusão porque na dicotomia que a sociedade moderna promove, nenhum instrumento lhe foi dado que permita entender (ah, mas curricula pejados de futilidades e das maiores devassas ao saber e à língua, isso sim, já temos desde Guterres) a clivagem entre os dois pólos da sua bússola:
– que João tem procurado sempre erguer do nada aquilo que deveria ter estado, e permanecido, na concepção da sua descendência: uma casa, um lar, uma família funcional, em que cada um puxa por si e ao fazê-lo dá alento a um resultado maior do que aquilo que o precedera; e que com isto oferta ao seu filho a liberdade de ser quem quiser, até mesmo alguém que odeie os princípios do pai.
– que Maria corporiza, mais do que um escoadouro para as psicopatologias próprias da mulher hodierna, o estado de falência mental a que todo o país chegou.
E vós, senhores Deputados, comei e bebei, e entregai comércio aos Vossos afilhados, e permiti por Vossa Graça que passem mais quarenta anos sem que nada mude, nada se ganhe.
A transformação virá de baixo.
England prevails, great leader.
Para os lentos de compreensão, isto é um post sobre a eficácia da censura.
No início era o PREC, incutindo a golpes de marxismo primário nas alminhas rural-migratórias o espectro do mesmo lápis azul que Saramago brandiu.
A seguir veio Guterres, que transformou o ensino num freak show de imbecis encartados, discentes e depois docentes.
Entre bandeiras içadas de pernas para o ar, finalmente, outros labregos possessos da mesma sanha controleira aproveitaram a óbvia preferência da populaça pelo circo mediático em detrimento da profundidade informativa, pelo esbracejar inane em lugar da reflexão aturada. Estava desenhada a geratriz do mais perfeito anestésico em toda a Europa do Sul.
Luís Delgado, que nem chegou a aquecer a cadeira, é um menino ao pé deste senhor, perdão, deste Mestre.

Falo em nome próprio. Escrevo os meus textos. Assumo as minhas posições. O acordo assinado entre o governo e o Partido Socialista no sentido de exercer o controlo prévio dos meios de comunicação, na campanha eleitoral que se avizinha, diz respeito a todos nós. Colide com a liberdade de expressão de um modo descarado. Posso dizer, sem rodeios, que já sinto a censura há algum tempo. Não sei quem controla os blogs Sapo. Não conheço os administradores da PT, mas alegadamente houve uma decisão nascida no seio de uma estrutura partidária no sentido de mitigar os efeitos dos posts publicados. Basta ler os meus textos para perceber que pelo menos 75% dos mesmos servem para deteriorar os argumentos dos socialistas. Mas não são os únicos visados. Também aponto as baterias ao governo quando bem entendo. Nesse sentido, não nutro nem preferências ideológicas nem partidárias. Sou a favor da cidadania, da democracia e da liberdade de expressão. Em 2014 tive no portal Sapo 96 posts em destaque (primeira página, se quiserem), ou seja; registei uma taxa de visibilidade assinalável. E de repente a natureza dos destaques do portal Sapo deixou de ter acutilância política. E o Estado Sentido foi varrido dessa montra. Uma ordem deve ter sido dada, mais ou menos nestes moldes: “tirem-me estes senhores do ar”. Neste momento o portal elege conteúdos de pendor light, cor de rosa e diet, e não passa despercebido. Mas como não devo favores a quem quer que seja, respiro profundamente os ares de independência, durmo tranquilamente. Nunca deixarei de dizer ou escrever o que penso. Uma nota final. As vozes críticas, mesmo as que não votam neste país, podem revelar a sua paixão por Portugal e o destino nacional. Eu inscrevo-me nessa categoria. Batalho por Portugal, muitas vezes com mais intensidade do que cidadãos de pleno direito. Quanto aos inimigos, prefiro levar-lhes a guerra à porta. Aqui, por exemplo.




