As esquerdas e a realidade

Há dias foi publicada a notícia de que a Joana Amaral Dias abandonou o projecto Juntos Podemos para criar o seu próprio projecto denominado Agir. Esta tem sido a patética e monty pythiana história da extrema-esquerda portuguesa, que não se cansa de lembrar a necessidade de encontrar uma plataforma de entendimento entre as várias esquerdas mas que nunca a consegue materializar.

 

Se não me falha a memória, pois são tantos os partidos e movimentos, nos últimos dois anos surgiram o Movimento Alternativa Socialista, Partido Livre, Movimento Tempo de Avançar, Manifesto 3D, Associação Fórum Manifesto, Renovação Comunista e, agora, Agir. Ah, mas na extrema esquerda ainda temos o Bloco de Esquerda (que só por ironia se designa de “Bloco”) e o Partido Comunista Português. Tem sido uma novela a história de tentativas de entendimento, as zangas, as divergências irreconciliáveis e as rupturas.

 

Entretanto as notícias que nos chegam da Grécia dão conta da fragilidade interna do Syrisa, com demasiadas vozes dissonantes dentro do partido que não conseguem engolir as “concessões” feitas à Troika, quero dizer, aos parceiros, nem a quebra de promessas eleitorais, para não falar do eventual terceiro resgate.

 

A esquerda e, em particular, a extrema-esquerda, está em crise. Em crise porque as várias esquerdas não se entendem, não fazem cedências, não têm uma cultura de negociação, cada uma delas reclama-se como sendo mais à esquerda, mais purista e detentora de mais boas intenções do que a esquerda imediatamente ao lado. Em crise sobretudo porque não tem soluções realistas para além do “que se lixe a Troika”, para além dos mercados. A saga do Syrisa veio dar um banho de realidade às várias esquerdas. É que, como dizia Woody Allen, “detesto a realidade mas ainda é o melhor sítio para comer um bom bife”. Que o digam os gregos.

1 Comment

  1. Pedro

    Não creio que seja briga por purismo. A esquerda se fragmenta assim por causa da volúpia do poder. Essa gente, afinal, só pensa em poder. É viciada nele, como um drogado viciado em crack. O discruso sedutor de “liberdade”, “igualdade”, “fraternidade”, “podemos”, etc, é só para induzir o povo a ceder-lhes o governo. Uma vez lá, a cachorrada não se dá por satisfeita: crescem o olho sobre o poder dos colegas de partido, começam as conspirações internas, as brigas e, enfim, os cismas. Isso quando o problema não é resolvido à base de chumbo ou de campos de concentração.

    Não é à toa que que quem mais matou comunistas, em todos os tempos, não foram anticomunistas, mas os próprios comunistas.

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