Excertos da coluna de opinião de Mário Soares, o Vetusto, hoje no DN.
A Grécia é sem dúvida o Estado ao qual os europeus mais devem antes de Roma.
Os Europeus devem imenso aos trilobites, celacantos, pitecantropos e a toda uma miríade de pioneiros desbravadores do negrume geológico. Dado que 99% destas espécies já pereceram, sem dúvida sob o jugo neoliberal, obriguemos o BCE a imprimir euros para pagar vidas dignas aos pitecantropos que ainda temos.
Mas foi muito maltratada pela Alemanha da senhora Merkel, quando se atreveu a mandar na União Europeia e em primeiro lugar na Irlanda, por pouco tempo, diga-se, e finalmente na Grécia, em Portugal, em Espanha e noutros Estados do Sul.
A senhora Merkel, ao ser eleita, tornou-se dona da Alemanha? Faz-se luz sobre a amizade fraterna entre MS e Salgado, outro dono, porém não eleito. Ainda assim impõe-se perguntar se MS, com o seu dinheiro, procede de forma inversa – deixando que sejam aqueles e aquelas a quem paga a ditarem os termos pelos quais reger os serviços prestados.
Impôs a todos a chamada austeridade, que os foi destruindo pouco a pouco. Austeridade que mata, como disse o Papa Francisco com a sua sagacidade.
Aqui é a parte para alunos do 1º ciclo, ou seja, 75% do eleitorado socialista.
No domingo passado tive a grande alegria de assistir à vitória de Alexis Tsipras, de quem sou amigo e que tanto admiro. Realmente, tratou-se de uma vitória impressionante, que não só muda a Grécia como vai ter um grande impacto em toda a União Europeia.
Miterrand está morto. Viva Miterrand. Proponho desde já ao Dr. Soares que reabilite para a vida pública outro grande e admirável impactador, Otelo, lançando-o como candidato presidencial nas próximas eleições. O calibre, passe o trocadilho, é o mesmo e já tem ampla experiência no terreno que Tsipras agora pisa.
É óbvio que a vitória de Tsipras provocou reações em toda a União Europeia, por um lado de entusiasmo e para a direita uma obrigação de refletir de modo a mudar as políticas que tem vindo a seguir e, obviamente, a austeridade, que tantos malefícios tem provocado.
O que a Velha Glória do Exílio quer com isto dizer é que dois males não fazem um bem. Primeiro estoira-se o nosso dinheiro, depois o dos outros, mas isso por incrível que pareça não resulta em crescimento, e sim em austeridade. A matemática é uma ciência impessoal e cruel.
A União Europeia está a mudar, como se tem visto, por exemplo, com a posição de Mario Draghi, ilustre economista e presidente do Banco Central Europeu. E o êxito extraordinário que Alexis Tsipras conseguiu no domingo passado vai ajudar imenso. Tenhamos, pois, como sempre disse, esperança, porque melhores dias virão. Inevitavelmente.
(ouve-se ao fundo um amanhã a cantar o fado)
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