É com um apetite gargantuano que começo a escrever este post, e mal sei por onde pegar.

 

1. Paris

Trouxera-o na mente desde que uma quadrilha de muçulmanos, cismados pela fidelização canina (ou porcina) à letra da Escritura atávica pela qual se regem, chacinaram algumas pessoas normais.

 

Digo pessoas normais, e digo muçulmanos, e digo fiéis, em vez de dizer “ocidentais”, “radicais” e “extremistas”, porque da mesma forma que nem todas as pessoas são iguais – nascem diferentes, subjaz-lhes um ambiente diferente enquanto amadurecem, fazem escolhas diferentes, sofrem consequências diferentes, morrem de maneira diferente – também as religiões, gravitando ou não em torno de Escrituras, são diferentes.

Do Islão, um culto obscurantista assente em prédicas obesas de anacronismo como um autêntico filme de época, emergem assassinos que mil templos budistas teriam, convenhamos, tanta probabilidade de produzir ao ritmo actual como os proverbiais macacos de escrever a obra completa de William Shakespeare. Pretender igualizá-lo ao Cristianismo ou ao Judaísmo, na forma como hoje é praticado e que em pouco difere da doutrina aplicada no ano 711, é mais do que ignorância crassa – é negligência grosseira ou má-fé, passe o trocadilho.

 

Dito isto, é evidente que eu não sou Charlie, tal como os media à parte de Charlie não foram e nunca serão Charlie. Acaso fossem tal coisa, em vez de emularem Michelle Obama, António Pires de Lima, e outros praticantes de life-coaching em slides portáteis e hashtags, teriam publicado, a uma só mão, a mais desprezível e boçal caricatura anti-Corânica que lhes viesse à mente. Assim, mantiveram-se aderentes à única forma de acção e reacção que são capazes de praticar: o situacionismo relativamente cobarde, relativamente histriónico, relativamente moderado, relativamente bem pago.

 

Porque não queremos ser iguais a eles. Por existir um “eles”, diferente de nós. Porque a nossa forma de vida é superior, e a deles ameaça qualquer outra que lhe seja superior. Devemos, portanto, comportar-nos como aquando de uma infecção viral ou bacteriana, e acometidos de sintomatologia que inspire cuidados, extirpar a maleita, inocular o corpo, e não tratar os micróbios (como agora é moda, entre os decadentes do nosso hemisfério) com o relativismo de quem amaldiçoa touradas mas pratica abortos, negligencia crianças mas cria dez cães, ou fuma industrialmente mas censura a lâmpada deixada acesa no corredor. 

 

É dar-lhes um bilhete expresso para as 72 virgens, só de ida.

 

 

2. Das Finanças

Por estes dias li em mural amigo que Paulo Núncio indicia comportamentos próprios de um cripto-fascista. Eu concordo. Não basta o esbulho a quem produz, nem o êxodo de quem poderia vir a produzir, a introdução, aplicação, fiscalização e remodelação de incontáveis normas e decretos com as correspondentes prebendas para quem delas beneficia, e o inchar da canga sobre quem com elas sofre. Não basta a exploração sub-Saariana da iliteracia e mentecapcidade do eleitorado, alimentado a migalhas pintadas de ouro-Audi à conta de quem produziu. Nada basta para saciar a sanha do senhor Secretário e do seu séquito de algozes – que só poderá acentuar-se quando pontífice e acólitos forem outros, mandatados pelo Rajá do Roxy.

 

Talvez em breve tenhamos um vislumbre de esperança, quando a reboque da Grécia, de Espanha e do fantasma de Mário Soares voltarmos a ter, no horizonte imediato, aquilo que é essencial e relegarmos, ainda que à força e com dores de parturiente, o acessório para de onde nunca devia ter saído.

 

Nesse dia, porém, terei ainda mais pena de Portugal: tudo o que podia ter sido feito, o país que nos ficou – como tanto amamos dizer – mesmo quase, quase, tão perto que era só mais um bocadinho, se ao menos isto, se ao menos aquilo, ainda será pobre. De espírito, de cultura, de tradição, de força, de verticalidade, de exemplos, de fé.

 

Só os senhores Secretários e respectiva pirâmide hierárquica, acima e abaixo, serão então, como hoje, um pouco menos pobres. De euros ou de outra coisa qualquer. Que lhes faça bom proveito. 

 

3. De anjos

Os atentos e esmerados leitores já devem ter reparado que este post não está lá muito coeso. É um facto, já vi melhores dias, e a minha escrita também. Compadeçam-se ou não, é neste registo que vão ter de levar comigo até que me saiam a bílis, o suor e a electricidade estática do corpo, até nada restar senão a vontade de enfiar-me no duche e beber um copo de vinho tinto, não necessariamente por esta ordem. 

 

Enquanto um taxista era esfaqueado por “jovens”, nome que agora os media dão a sevandijas sem pai nem mãe que os eduquem à falta de subornos subsídios de inserção social, enquanto os taradinhos do alheamento urbano-ecológico estendiam as garras ao sexo – último baluarte da sanidade – e mais um contribuinte morria nas urgências, este vosso humilde escriba foi bater com os cotos no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, unidade de saúde da sua área de residência com suposta competência para acudir à aflição que o tolheu, inesperadamente, a meio do acto – esfaqueante, ecológico e mortal – de podar uns galhos nas traseiras do seu terreno. 

 

E assim, à revelia das décadas de hiponcondria; do espectro de urgências passadas; do olho esquerdo que lacrimejava, chicoteado no rosto, como se fosse um qualquer blogger saudita com pretensões a cidadão do mundo, por um ramo vingador de cedro ou azinheira, escolham a que vos parecer mais de Esquerda e tereis provavelmente razão – e da distância que me separava do hospital, lá peguei no carro, e assim fui, pelo meu pé, com um livro debaixo do braço, orando a todos os santinhos para que me deixasse ler hoje uns quantos capítulos, mas não toda a história, e que não me calhasse na rifa nenhum curandeiro.

 

Entrei. Como sempre, entre os utentes em espera, a média das idades andaria pelos sessenta e tal anos. Dirigi-me à recepção, e paguei a taxa moderadora de dezoito euros. É caro, pensei eu e ainda penso, para um serviço errático que depende de tantas variáveis, e de onde se pode sair tão facilmente curado, como em condição agravada. Era esta , estatisticamente, a minha experiência no SNS, e foi ao longo desta expectativa que me encomendei ao Criador já com o recibo (sem número de contribuinte) na mão. 

 

Esperei dois minutos para ser visto na triagem. Por contraste, há quatro anos e com uma otite média, esperara seis horas. A enfermeira examinou-me, ouviu-me e colocou-me uma pulseira cor de laranja em redor do antebraço esquerdo, pois embora não me tivesse apercebido, sangrava do olho esquerdo, cujo segregar de lágrimas e demais salinidades me ensopava já o colarinho da camisa. 

 

Imediatamente, no sentido mais literal do termo, levantou-se e deixou-me entregue a um auxiliar que nos bastidores daquele Hades, calmo e composto mas com a destreza de um bonecreiro húngaro, geria e despachava quantas solicitações lhe eram dirigidas por médicos, enfermeiros, doentes, e gente perdida.

 

Tentei ficar boquiaberto, mas não tive tempo: gesticulou para que o seguisse, e subimos umas escadas. Volvidos seis ou sete minutos de ter inserido o código no multibanco para pagar a minha admissão, estava no serviço de Oftalmologia. É verdade que aqui reincidi na sorte, pois nem todos os dias o hospital dispõe desta especialidade. O auxiliar desejou-me boa sorte e como um Génio persa, esfumou-se escada abaixo. 

 

Depois fui chamado, visto, diagnosticado (tinha uma farpazinha de madeira com cerca de 1/20 de milímetro alojada na córnea, e não pensem que é pequena que farão figura de urso se tal disserem entre gente qualificada) tratado, revisto e medicado. Em apenas mais cinco minutos. 

 

Quando ouço que o SNS funciona mal e que é insustentável, acredito. É verdade: funciona mal numa maioria inaceitável de casos, e é insustentável com os meios e condições que lhe estão alocados. Hoje, porém, não foi o caso.

 

Comigo, o SNS funcionou bem, por esta sucessão de factores: dirigi-me no meu carro ao longo de 12 km vendo so de um olho e sangrando de outro (95% das pessoas que acorrem aos hospitais públicos ou não tem carro, ou não consegue conduzir, ou não mora “apenas” a 12 km, ou não teria a ousadia de ir por seu próprio pé); ali chegado soube explicar o que me afligia – mais de metade das pessoas, se não mesmo três quartos, em pleno século XXI ainda padece de dificuldades cognitivas e de expressão, de uma certa iliteracia funcional,  que em situações de risco complica o trabalho dos profissionais de saúde e aumenta o risco do doente; paguei (18 euros é 3% de um salário médio, ou mínimo que é o mesmo, na região de Setúbal onde o desemprego é aquilo que se sabe) e muita gente não poderia ter pago; a enfermeira que me viu foi lúcida; o auxiliar de serviço, destro e diligente; a médica, rigorosa e expedita.

 

Sob o efeito desta experiência que ainda estou a viver, diria certamente, caso tivesse com eles interagido, que os oito bombeiros, três polícias, vinte auxiliares de limpeza, e dois seguranças que lá estavam – todos eles merecerão o meu apreço, o nosso apreço. Não é por causa deles que o SNS funciona mal na maioria das vezes em que mal funciona; não são eles que o tornam insustentável.

 

Quem devemos, então culpar por esta situação, pelos que morrem à espera, e tal,e tal?

 

A artrose da D. Bernarda que passados dois dias já lhe dói tanto mas tanto outra vez que tem mesmo de ir ao hospital.

 

Os sabujos sem eira nem beira que se estragam reiteradamente de corpo e alma, injectando-se com drogas, enfardando bolos e álcool, entupindo-se a si e ao sistema.

 

A miríade de papás e mamãs que venderam aos filhos a ideia peregrina que ser economista, advogado, gestor de esquemas, realizador de curtas, cantor, futebolista, etc. é que é bom e que o trabalho abnegado e a adesão a ideais elevados são coisas anacrónicas, para parvos.

 

O senhor Secretário de Estado, qualquer senhor Secretário de Estado, e quaisquer seus superiores, subalternos, e seguidores de qualquer Governo, de qualquer Partido, em qualquer legislatura desde 1974, por cuja acção deliberada ou negligência tudo quanto havia de bom no País foi vendido – pescas, agricultura, indústria, a própria têmpera das pessoas – e o pecúlio obtido através dessas transacções, disperso com tal avidez e de forma tão lesta e continuada até hoje por entre bolsos amigos, que é de todo miraculoso o tipo de vida que se leva em Portugal.

 

É um mistério que ao fim de tanto estupro institucional se desconheça aqui o terrorismo, que não ecludam fanáticos “radicalizados”, ou que exista o SNS com um índice de falhas inferior a 100%, é – de todo – inexplicável que ainda existam pessoas que se levantam dia após dia, consumindo a gasolina e a electricidade mais caras da querida, socialista e burocrática Europa, sofrendo um dos rácios impostos/serviço mais demenciais, senão mesmo o mais brutalmente demencial do Velho Continente, e mesmo assim a essas pessoas não ocorra queimar a bandeira, vandalizar uma repartição, acoitarem-se por detrás da cultura de mediocridade e de assistencialismo que o próprio Estado vai  predicando sempre que compra a paz social, podre, com automóveis de luxo e rendimentos garantidos à custa do dinheiro de quem trabalha. 

 

A todos quantos sofrem calados com sede de justiça, àqueles para quem o futuro se mede em horas, aos detentores da verdadeira mão invisível, e com toda a admiração e respeito aos profissionais do Hospital de São Bernardo, em Setúbal, que estiveram de serviço no turno da tarde de hoje, os meus humildes, sinceros e eternos agradecimentos, pela placidez demonstrada enquanto o nosso país vai sendo sugado até ao tutano. Mais pudesse eu dizer em vosso louvor.