O que está (e vai ficar) mal na base da Justiça

O meu vizinho é quezilento. Ex-estivador de Setúbal, na casa dos 62-65 anos, bandeira de Portugal no meio do acesso kitsch à casa, costuma embirrar com tudo menos com o som da sua rebarbadora, das suas marteladas, dos seus convidados, etc..

 

Hoje, acercou-se do muro que separa as nossas propriedades, e por força quis, mediante queixas em tom de estivador de Setúbal, que eu admitisse ter estrumado a minha plantação de favas com um adubo nauseabundo à base de guano, alegada fonte de um cheiro indesejável que lhe irrita as narinas e consome os nervos. 

 

Tendo eu negado cinco vezes, apresentando diversas justificações, a meu ver comprovativas do teor míope com que o bruto vinha acusar-me (desde “não estrumei” até “veja bem o tamanho das favas, o senhor diz que lhe cheira mal há 7 dias e elas têm dois meses”) vai daí, frustrado pela constatação de não atingir a compreensão das palavras vertidas no meu exercício, aturado e calmo, do Português, eleva ele o tom e ameaça dar-me, sic, com um balde nos cornos, passo a citar “porque eu que não lhe arranje problemas”, que “nao sei com quem estou a meter-me”, “nunca mais vou ter descanso enquanto ali viver” e outras coisas que se diz entre os hotentotes do estaleiro. 

 

Acto contínuo, dirijo-me ao novo posto da GNR em Palmela, onde sou recebido com profissionalismo, rigor, educação, e ainda por cima proactividade por todos os guardas desde o que me recebeu até ao último com quem falei. 

 

O problema: uma queixa destas obriga a que me constitua assistente no prazo de 15 dias, ao pagamento de 2UC em custas iniciais (EUR 204) e a uma espera, que de acordo com quem sabe e mo disse com toda a simpatia e comiseração que lhe foi possível reunir, resultaria apenas no arquivamento do processo. 

 

Ou seja: tenho um vizinho velho, que um dia pode vir direito a mim com um balde para me rachar um “oço”, como diria Daniel Oliveira; se eu me defender, o mais certo é com um sopro fendê-lo em dois como se fosse uma pena. E não pude deixar nada registado na GNR, porque para isso teria de pagar 204 euros e ver a queixa, provavelmente, arquivada.

 

Faz mais sentido berrar por merdas destas. 

 

Adenda às 19:39: tenho aqui 204 euros bem contados e amanhã há 50-50 de hipóteses de meter 65 litros de gasóleo, ou a queixa. Vão parar ao mesmo sítio. 

2 Comments

  1. antonio rodrigues

    Mais vale gastar no carro. Sempre se goza um pouco. Deixar dinheiro na GNR para um pseudo-processo é uma perda de tempo, de dinheiro e vai dar no mesmo. Arquivamento, pois não têm tempo para gastar em assuntos fúteis, para eles.  Quanto ao estivador, o melhor é arranjar-lhe uma ganga que seja certa, no Porto de Setúbal, que isso passa-lhe. Pode ser que o Porto de Setúbal comece a trabalhar como o de Leixões e assim acabam-se as greves e as más disposições.

  2. Makiavel

    Excelente. Já me tive a minha dose diária de riso.
    Ponha gasóleo que sempre dar para ir espairecer à praia.

Deixe um comentário

© 2026 Estado Sentido

Theme by Anders NorenUp ↑