O BAILE

A entrevista de ontem Judite de Sousa a João Araújo foi bastante esclarecedora sem no entanto termos visto esclarecidas quaisquer dúvidas relevantes por parte do advogado de José Sócrates. Ficámos sem saber 1) os fundamentos que justificam por parte do advogado a ilegalidade da prisão de José Sócrates, 2) os seus argumentos para que o ex-primeiro-ministro aguarde o seu julgamento em liberdade ou 3) a fragilidade das provas, nomeadamente as que justificam o crime de corrupção e, já agora, 4) como pôde José Sócrates viver da forma que vivia tendo os seus rendimentos tão limitados. Em contrapartida ficámos a saber que José Sócrates está bastante bronzeado, que tem praticado jogging diariamente e que está com o seu astral em cima, aliás, como sempre, para aguentar outro processo que os seus inimigos despoletaram apenas por razões políticas.

 

Resumindo, João Araújo não tentou esclarecer os portugueses das dúvidas que ensombram a honorabilidade e reputação do ex-primeiro-ministro de Portugal, mas sim sublimar aos apoiantes ferrenhos de José Sócrates a “narrativa” que dá conta que o animal feroz continua imbatível e com o mesmo espírito de gladiador. Fê-lo com ironia, fugindo às perguntas importantes, escondendo-se atrás da sua impossibilidade de falar sobre o processo, mostrando uma pretensa ignorância sobre as notícias dos jornais ou colocando em causa a veracidade de factos que são públicos sobre a vida do seu cliente – por exemplo, uma vida recheada de luxos caros. E assim foi respondendo, ou não respondendo, João Araújo, às perguntas colocadas. Os apoiantes de José Sócrates correram para as caixas de comentários na net: João Araújo “deu baile” a Judite de Sousa. O mesmo tipo de “baile” que José Sócrates gostava de dar nos debates na Assembleia da Republica, nos quais se escapulia à resposta das questões colocadas, concluí.

 

O problema presente de José Sócrates é bem mais grave do que a gestão da sua popularidade, é um caso de justiça. A gestão da sua comunicação será mais eficaz na medida em que esclarecer com sobriedade as dúvidas que legitimamente se colocam na mente dos portugueses quanto à figura que ocupou durante vários anos um dos mais altos cargos da nação. Não parece ser esta a opinião do seu advogado. Resta saber quais os verdadeiros trunfos jurídicos da defesa frente a um colectivo de juízes com poder de decisão sobre o futuro do ex-pm e, já agora, se este colectivo alinha em dançar ao som do baile que a defesa parece querer dar também à justiça portuguesa.

2 Comments

  1. Vicente Nunes

    O mínimo que se pode dizer – e se calhar o máximo – sobre esta entrevista do advogado do conhecido ex-governante e aventureiro político é que está em perfeito raport com o indivíduo que é seu constituinte. Poucas vezes terá havido no imaginário societário luso contemporâneo (da polítiquice ) uma tal coincidência de, arriscaria dizer, almas. Ou tendências espirituais. Merecem, os dois, parabéns. Mas,  creio, para mal do ex-primeiro ministro – que como já não tem a férula do mando já não pode como dantes obrigar os portugueses a aceitar os seus ditames ou concepções de vítima, de menino de oiro e de autocrata provinciano. O tempo em que todos tínhamos de passar por primários, por sua vontade e desejo, já lá vai. E que jamais volte! 

  2. ze luis

    Ou seja, nem a entrevista, que sabia ir passar mas não vi, foi interessante, como o pormenor da minissaia da Judite, que vi no início do seu telejornal, não despertou minimamente a audiência. Estou esclarecido.

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