Jorge Costa sobre a demografia, ou como morremos todos e ainda não demos por isso.

Quando deu a Carlyle para chamar à economia «ciência deprimente», (dismal science), ele não tinha visto nada. Sucede que a economia é uma rave de teens drunfados ao lado da demografia, a que, por entre razões profissionais e alguma queda inexplicável para o mórbido, me tive de dedicar um coche nos últimos dias. Poderia aqui partilhar convosco um sem número de coisas de cortar os pulsos, que descobri nesta minha incursão pela bleak science (um eufemismo, tratando-se da demografia). Por exemplo, o extraordinário gráfico em que se vê a taxa de fertilidade da mulher indígena a cair de 2,99 em 1971 para os 1,21 actuais (filhos por mulher), depois de em 1982 – já lá vão mais de três décadas – ter mergulhado abaixo dos célebres 2,1 filhos por mulher, fazendo com que a população não se reponha de geração para geração (encolhe; leva tempo, mas o tempo chega; e chegou). Mas não. Preferi este, em que se vê já o resultado do tal mergulho. E vê-se o quê, ao certo, neste gráfico? Com atenção, vê-se a população em idade de trabalhar a cair (sem que tenha havido guerra, peste negra ou qualquer outra catástrofe do género, o que é inédito). Foi, finalmente, em 2009. É a curva ao alto. A população total começou a cair um ano depois, em 2010 (não se vê, mas eu digo). Cá em baixo, vemos duas curvas cruzarem-se à entrada dos anos 2000: pela primeira vez em 800 e tal anos este país passou, desde então, a ter mais velhos (curva a verde) do que novos (azul). A razão entre uns e outros é aquela sucessão de colunas sinistras (mede o chamado índice de envelhecimento, que é essa razão, pela escala da direita): em 1971, como se vê à esquerda no gráfico, havia 33 (trinta e três) idosos por 100 jovens. Hoje (quatro décadas depois) há 133 (cento e trinta e três) idosos por 100 jovens. Mais cem. Dir-se-á: mas é hiper-fixe! Os velhos duram mais, a medicina é uma maravilha, etc., é por isso que estas coisas estão a acontecer. Em parte. Só em parte. A queda dos jovens, por falta de nascimentos (curva azul), é a outra parte. Não sei como será a velhice dos que hoje estão a nascer. Mas também não me apetece sequer tentar imaginar. Talvez pudéssemos fazer alguma coisa por eles, por exemplo, evitando em cima de tudo o mais carregar para cima deles com as nossas dívidas colossais. Temos tentado. Mas tudo leva a crer que o Tribunal Constitucional não acha pertinente (com o estímulo do PS, que nos faliu, e só não voltará a falir-nos, se não deixarmos). Enfim, ou mudamos as coisas, ou um dia teremos, ai isso é que teremos, o mais feio dos conflitos sociais que é possível imaginar: jovens desesperados contra velhos indefesos. Não basta dizer que não se quer esse conflito. É preciso fazer alguma coisa para que ele não surja (se o que o provoca tender permanentemente a aumentar a pressão, é certo que acabará por explodir). Mas não vou agora entrar pela «ciência deprimente». Hoje ficamos com estes apontamentos rápidos da minha incursão à «ciência lúgubre». Sempre vario um pouco.
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