Persiste hoje a superstição, entre votantes como entre abstencionistas, de estarmos a viver no menos mau dos sistemas, atavismo este cuja primeira consequência é a da apatia crónica.

Apesar de forte, a crença não chega para evitar que, perante a óbvia e persistente contradição que opõe este mito à realidade, o Português, em curto-circuito neuronal, reaja como o Homem do Neolítico: procura xamãs, vira-se para condutas basilares, visa assegurar o seu quintal e pouco mais. 

 

Na análise clínica deste fenómeno endémico e transversal a todos os patamares sócio-económicos, culturais e ideológicos, em particular sobressai a apetência da amostra pelo que de forma ostensiva, fácil, e imediata possa granjear-lhes uma polegada que seja, por milésimos de segundo, de ascendente sobre o seu semelhante. 

Exemplos disto há-os no condutor que acelera e ultrapassa com um esgar furioso no cenho, para depois, vinte metros à frente, ficar parado no semáforo; nas hordas que afluem a concursos e programas vespertinos, a troco de farelo; e mais grave, já de outra ordem malsã, o caso da “factura da sorte”.

 

Aqui, importa entender que o problema é tripartido.

Primeiramente, trata-se de obedecer cegamente e sem exigir provas ao ditame dogmático segundo o qual o dinheiro dos nossos impostos é tanto mais eficazmente aplicado quanto mais eficaz for a sua colecta. Ora se isto não é falso, que razão podem ter os manifestantes, indignados, desempregados, expropriados, falidos e demais testemunhas da vergonha ímpar que é o fosso (em tantos, tantos aspectos…) entre políticos e “pessoas normais”? É, portanto, falso que um aumento de impostos conduza a melhoramentos nos serviços do Estado, exceptuando talvez nas regalias concedidas a quem gravita nos círculos do Poder.

Em segundo lugar, a atribuição de prémios mediante denúncia, pois é esse o acto que um cidadão pratica ao fornecer o seu número de contribuinte aquando da recepção de uma factura – denuncia-se a si mesmo abrindo mão da privacidade, e denuncia o prestador do serviço anulando qualquer hipótese que este possa ter de gerir o seu negócio da forma que bem entender, ficando até, eventualmente, com mais dinheiro de sobra para nele reinvestir ou, em querendo, praticar caridade – é aviltante, em suma, é a chibaria por trinta dinheiros e de pouco ou nada serve a não ser, uma vez mais, aos mesmos de sempre. 

A terceira e última graça desta invenção chico-espertista é que demonstra à saciedade a ineficiência de tudo aquilo em que o Estado luso se mete, pois não funciona. O spin com que esta notícia é dada nem ao mais bronco eremita engana, mas ainda que fosse cem por cento verdadeiro o que ali se escreve e o que diz o Governo, permaneceríamos perante um conflito de interesses: a coluna vertebral do indivíduo face à sanha vampiresca do colectivo.

 

Como pode, então, a vida neste país ir além de uma sucessão maníaco-depressiva de dias em que nada se ganha, nada se perde, mas também nada se transforma? 

Não pode. Só pode piorar antes de melhorar. 

Philip K. Dick, na obra menos lida “Os Clãs da Lua de Alfa”, satiriza pungentemente um cenário semelhante ao nosso, mas à escala planetária. É de ler.